OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

Francisco Gregório Filho *

 

Correspondência XI - Paciência

Uberlândia, 05 de novembro de 2005.

Professor Gregório,

Fazer 50 anos é difícil, que dirá fazer 51, meu amigo.

O corpo começa a dar sinais de cansaço com mais freqüência e já não acompanha o ritmo da vida. A máquina começa a pedir revisão mais continuada.

Os cabelos vão ficando brancos e a pele perde o viço. Dorme-se menos e a cada dia o tempo parece mais curto para fazer tudo que se deseja.

Sei que você também já passou dos 50 e me entende, caro Gregório.

Certamente há algumas vantagens, como uma certa sabedoria para levar a vida com mais calma e paciência. Enfrentar os desafios com vigor, mas sem achar que se vai morrer se a conquista não for do jeito que se quer.

Aproveitar cada dia é questão de ordem, mas essa tal sabedoria pelo menos nos ajuda a fazer certa seleção das prioridades e dos embates mais urgentes.

Tenho aprendido um pouco com os 50 e confesso que não tenho vergonha das rugas e até não disfarço meu orgulho com algumas marcas que o tempo está deixando pelo meu corpo.

Vamos levando a vida!

Agradeço sua lembrança pelo meu aniversário e com certeza não vou esquecer o seu.

Forte abraço,
Carlos

Rio Branco, 11 de novembro de 2005.

Amigo Carlos,

Parabéns pelos 51, recebi sua carta num momento que escolho alguns poemas do livro Poesia Reunida da querida Adélia Prado, essa mulher mineira-brasileira de alma sagrada. Pois bem, peço licença para lhe enviar uns desses poemas. Certamente posso lhe dizer algo por meio deles. Um forte abraço e até breve. Que a cada dia, vamos amanhecendo e abrindo a janela com paciência e esse corpo que é a nossa casa.

Um abraço,
Gregório

A poesia, a salvação e a vida

Eu vivo sob um poder/que às vezes está no sonho,/no som de certas palavras agrupadas,/em coisas que dentro de mim/refulgem como ouro:/a baciinha de lata onde meu pai/fazia espuma com o pincel de barba./De tudo uma veste e me cubro./Mas, se esqueço a paciência,/ me escapam o céu/ e a margarida do campo.

Momento

Enquanto eu fiquei alegre, permanecera/um bule azul com um descascado no bico, uma garrafa de pimenta pelo meio,/um latido e um céu limpidíssimo/com recém-feitas estrelas./Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,/Constituindo o mundo para mim, anteparo/Para o que foi um acometimento:/Súbito é bom ter um corpo pra rir e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser.

Impressionista

Uma ocasião,/meu pai pintou a casa toda/de alaranjado brilhante./Por muito tempo moramos numa casa,/como ele mesmo dizia,/constantemente amanhecendo.

Fragmento

Bem aventurado o que pressentiu/quando a manhã começou:/não vai ser diferente da noite./Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,/o pensamento dividido entre deitar-se primeiro/à esquerda ou a direita,/e mesmo assim anunciou paciente ao meio dia:/algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,/um vento bom entra nessa janela.

* Contador de História

paciência
[Do lat. patientia]
Substantivo feminino
1.Qualidade de paciente.
2.Virtude que consiste em suportar as dores, incômodos, infortúnios, etc., sem queixas e com resignação.
3.Perseverança tranqüila.

 

 
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Rio Branco-AC, 13 de novembro de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
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