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Abertura de ramal tira comunidade do Icuriã do isolamento

Percurso que hoje não demora quatro horas de carro só podia ser feito a pé ou a cavalo em no mínimo dois dias


Raimundo Nonato está mais confiante, pois terá menos trabalho para fazer o transporte da produção de borracha até Assis Brasil


Luiz Mesquita
Fotos/Sérgio Vale - Agência de Notícias do Acre

No último sábado, dia 10, o governo do Estado, em parceria com a prefeitura de Assis Brasil, entregou os 70 quilômetros de estrada vicinal que beneficiam 600 famílias da comunidade do seringal Icuriã, na Reserva Extrativista Chico Mendes, às margens do rio Iaco.

Manoel Batista, prefeito de Assis Brasil, afirmou que a maior parte do convênio assinado com o governo do Estado para obras de infra-estrutura no município, no valor de R$ 244 mil, foi destinada ao Icuriã, o ramal mais importante da região. Os recursos para continuação da obra no próximo verão já estão reservados. “O serviço mais pesado nós já fizemos”, disse. E assim que o verão começar as máquinas voltam a trabalhar no ramal

Só para abertura do ramal, mais de R$ 600 mil do governo estadual e Incra foram investidos, informou o técnico da gerência de ramais do Deracre, Nier Pinheiro. “O principal é a gente abrir uma luz para mais uma comunidade importante do Estado”, ressaltou.

O governador Binho Marques foi representado por José Alvanir, da Secretaria de Articulação Política. Ele recebeu os presentes que a comunidade enviara ao governador, entre eles um kit com os produtos da região, arroz, feijão-de-corda, farinha. Alvanir ressaltou a importância da associação e reafirmou a parceria do governo do Acre com as comunidades extrativistas e produtoras.

Benefícios – Para chegar à sede da comunidade do Icuriã, a viagem tinha que ser feita a cavalo e podia durar até três dias. De barco também se pode chegar a Sena Madureira com dois dias de viagem quando o rio está navegável. Hoje, de carro, o trajeto é percorrido em menos de quatro horas.

O preço do frete caiu 11 vezes, o que pode representar uma economia de R$ 500 por tonelada transportada. O presidente da Associação dos Produtores do Icuriã, José Francisco Barbosa, já chegou a pagar R$ 550 pelo transporte de uma tonelada de sal, açúcar e outros produtos que não podem faltar aos moradores.

Produção familiar – De acordo com o presidente da associação, mais de sete toneladas de grãos saíram do Icuriã no ano passado, sem contar as criações de animais. E a produção ainda foi pequena. A região ainda se recupera da seca de 2005. Os roçados são manejados de acordo com as recomendações do Ibama, os produtores queimam apenas quando recebem as licenças e ainda utilizam técnica de aceiros. Para garantir a preservação do ramal, os produtores se organizam para impedir o acesso de carros durante chuvas fortes. Dessa forma, preservam o ramal e garantem o escoamento da produção.

A família de Marlene Gomes dos Santos também é uma das beneficiadas. Ela criou os 13 filhos no ramal e, assim como os outros moradores, passou por muitas privações por causa da dificuldade de locomoção. A produção da casa de farinha será levada para ser vendida com frete menor e com mais facilidade, o que melhora o lucro e a qualidade de vida da família.

Um dos filhos de Marlene, o seringueiro Raimundo Nonato Gomes dos Santos, também está mais confiante com os investimentos no ramal. Ele terá menos trabalho para levar os cem quilos de borracha que produz por mês para Assis Brasil, onde vende a produção.

Batalha secular

Um grande tacho de cobre, com quase dois metros de diâmetro, ocupa um lugar especial na casa de farinha da associação. Ele é personagem das histórias sobre a formação da comunidade e atualmente é usado para torrar a farinha. Segundo os mais velhos, a peça fazia parte de uma enorme caldeira que era usada para destilar cachaça na época do “patrão” do seringal. Essa peça estava lá quando o seringal ia ser vendido aos fazendeiros e os moradores se organizaram e promoveram “empates” para impedir que a região fosse transformada em fazenda.

Segundo Antônio Teixeira, produtor antigo, mais de 90 homens passaram fome e correram perigo na mata para organizar os “empates” na época da formação da Associação dos Produtores e Seringueiros do Icuriã. Depois que a comunidade foi estabelecida, nasceu o sonho do ramal. Em 1978, esse sonho ganhou o apoio do padre Paolino Baldassari, de Sena Madureira, que junto com a comunidade começou a abrir o ramal sem apoio de qualquer máquina. O feito é lembrado pela comunidade com ares épicos.

Com uma história dessas, o orgulho de pertencer à comunidade é algo que sobra nos moradores. E em todos os rostos se percebe a emoção de ver realizado um sonho simples, mas que representa o futuro para todos: o direito de ir e vir.

A alegria e orgulho estão estampados nesses versos abaixo, retirados de um poema feito na comunidade.

“A fé de um padre que nos motivou;
A coragem de um povo que não se intimidou...
Gente bonita, sofrida e guerreira...
A perseverança garantiu dias melhores para filhos e netos.
O sonho ou loucura de alguns é de fato possível.”

 

 

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Rio Branco-AC, 13 de novembro de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
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Com Leonildo Rosas
 
 
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