OPINIÃO
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Idésio Luis Franke *

 

 

Geoglifos no Acre

Tem causado muito rebuliço, discussão e interesse os geoglifos encontrados no Acre e arredores, esses desenhos geométricos, de grandes dimensões, feitos sobre o solo, com variadas formas geométricas e profundidade das trincheiras que compõem suas linhas de contorno, que pode chegar a 3 metros, em forma de círculos, quadrados, octógono e outros desenhos que combinam quadrado com meio círculos, além de outras formas.

O arqueólogo Ondemar Dias, que participou de uma expedição na década de 1977, juntamente com o hoje Paleontólogo Alceu Rancy, foram os primeiros a relatar a ocorrência dos geoglifos no Acre, diversos e estranhos sinais geométricos, espécies de anéis de terra com até 100 metros de diâmetro, na Fazenda Palmares, ali perto do Quinari.

Entretanto, não foi dada a importância devida a tal descoberta. No ano de 2000 o Dr. Alceu Ranzy, retomou a discussão e decidiu resgatar um pouco dessa história. Escreveu, com a colaboração do antropólogo Rodrigo Aguiar o livro “Geoglifos da Amazônia – Uma perspectiva aérea”, lançado em 2005, com belas imagens aéreas, feitas pelo fotógrafo Edison Caetano e descrição dos locais de sua existência. O trabalho teve o mérito de reabrir o debate sobre os geoglifos nessa região. Vários cientistas, antropópogos, etnólogos, jornalistas e televisões do mundo se interessaram por essas estruturas cheias de mistérios a decifrar.

Há cerca de oito anos atrás tive a oportunidade de identificar um desses desenhos em uma propriedade de um sócio do RECA, lá na Vila Nova Califórnia, no meio de um sistema agroflorestal. Esse tem formato circular, com uma vala de aproximadamente 2 metros de profundidade e 4 metros de largura. Está situado em terra alta. Na oportunidade não tinha ouvido falar de geoglifos na Amazônia ocidental, mas ficou claro param mim que o mesmo teria sido feito por civilizações indígenas.

Sabe-se que a floresta amazônica é das mais novas formações vegetais do planeta. Estudos diversos provam que a Amazônia era uma grande savana (cerrado). Então esses desenhos no solo podem ter sido feitos quando a vegetação ainda era de savana (cerrado) ou então os nativos teriam desflorestado a área para depois confeccioná-los. Esses geoglifos podem ter entre 800 e 10 mil anos.

E porque civilizações humanas fizeram esses desenhos? Eis a grande pergunta. Para se proteger de tribos inimigas? Com a finalidade de caça? Suprimento de água? Cultivo de alimentos? Ritos religiosos? Porque as fizerem, em sua maioria, em terras altas, nos divisores de rios? Teriam esses geoglifos e os povos que o construíram alguma relação com os de Nazca no Peru e outros na Bolívia e Chile?

Sabe-se que as alterações climáticas de origem passada remodelaram as formas de vida nos diversos territórios da terra. Mas o manejo da vegetação por populações nativas também podem ter influenciado o clima e criado condições para a conformação do que é hoje a Amazônia, com sua imensa floresta tropical, fauna e rios peculiares.

Muitos cientistas, como Anderson & Posey, apostam que as florestas tropicais, tidas como naturais, podem ter sido moldadas por populações indígenas, pelo adensamento e pela diversificação. Nas florestas de terra firme, as mais ricas, pelo menos 12% seriam florestas antropogênicas, inclusive com “ilhas de recursos”, com adensamento de espécies, drenagem por canais, práticas de amontoamento do solo, técnicas exemplares na superação dos limites naturais.

O efeito das atividades dos indígenas nas florestas de terra firme promoveu a diversidade genética em áreas de melhores solos. Pesquisadores afirmam que as florestas antropogênicas foram tão bem sucedidas em imitar a floresta virgem que até recentemente foram vistas como sistemas de vegetação natural e não como produtos de manejo ambiental.

É fato que os castanhais da Amazônia foram formados pelos índios para melhorar sua subsistência, assim como uma serie de espécies madeireiras (não por coincidência a maioria delas tem frutos comestíveis para atrair a caça), palmeiras (selecionadas por indígenas para sua alimentação) e muitos outros recursos florestais não-madeireiros.

Estudos e pesquisas sobre os geoglifos na Amazônia Ocidental e no Acre nas áreas de arqueologia, antropologia, paleontologia, etnobotânica, dentre outras, poderão revelar muitas novidades sobre o passado das populações que habitaram essa região e evolução das espécies animais e vegetais.

Os geoglifos que ocorrem na Amazônia Ocidental são sinais de um passado que podem desvendar uma série de perguntas sem respostas sobre esse vasto território nacional, os quais podem nos brindar com muitas novidades e quebrar paradigmas sobre sua origem, formação e estágio atual de existência, auxiliando no manejo do ecossistema regional.

Trata-se de sítios arqueológicos que precisam ser preservados para estudos e pesquisas. Um verdadeiro tesouro da humanidade.

* Economista e Engenheiro Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Sustentável pela UnB.

 
 
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Rio Branco-AC, 13 de dezembro de 2006
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