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| Elson Martins | |
Gean Cabral cartunista e tanto Se a gente reparar bem, vai ver que o Acre é um celeiro de bons cartunistas. Não cito de cara uma dezena deles para não cometer omissão imperdoável. Mas imagino que um empurrãozinho do governo ou do empresariado os projetaria com muito brilho. Conheço um deles, o Gean Cabral - sobrinho de outro “fera”, que é o Dim -, que merece espaço em jornais e revistas nacionais. Em 1987, como sócio e diretor-geral da “Gazeta do Acre” (hoje Gazeta), ocorreu-me a idéia de investir no pequeno anúncio como forma de melhorar a sustentação financeira do jornal. Aluguei um espaço que pertencia ao “cientista político” Martins Bruzugu, na rua Quintino Bocaiúva, e, por indicação do Dim, chamei o então adolescente Gean (13 anos) para enfeitar um caderno de classificados com seu traço, já bastante criativo à época. A experiência com o caderno “Gazeta Ofertas” não deu certo, entretanto, em 1991, quando precisei montar um jornal em Macapá (Amapá) com uma linha editorial em defesa dos bons costumes econômicos, sociais, políticos e culturais, sabia com quem contar. Levei do Acre o Gean e o Francisco França, um excepcional carregador de pianos.
Já me criticaram muito por essa mania de criar e deixar afundar jornais precários por excelência. Mas não me arrependo de nada. Do meu currículo constam títulos no Acre e no Amapá dos quais me regozijo: Varadouro, Repiquete, Gazeta do Acre, O Acre, Cartaz, Jornal do Povo, Folha do Amapá, entre outros menores. Mas o assunto principal aqui é o Gean Cabral, que acaba de produzir a charge bem-humorada e perfeita do Binho Marques, o novo governador do Acre que bem poderia estar entre os cartunistas. A charge saiu primeiramente no blog do jornalista Altino Machado, mas o próprio Gean reclamou da velocidade da internet, que deixou muita gente sem ver seu trabalho. Em 1991, apresentei o Gean Cabral à população amapaense como “um jovem meio anarquista” que sabia esgrimir como poucos com um bico de pena. O então governador do Amapá, Aníbal Barcellos, afilhado da ditadura militar brasileira enfiado goela abaixo na política amapaense, que o diga. Uma boa amostra do talento do cartunista (hoje com 33 anos) está registrada nas coleções da Folha do Amapá. E considero isso um trunfo da mídia impressa. Gean voltou para o Acre em 1993, mas em 94 foi chamado para ajudar na eleição do socialista João Alberto Capiberibe ao governo do Amapá. Em seguida, guardou os pincéis e tintas, especializando-se em informática. Nessa área seu currículo é enorme: informatizou as redações de todos os jornais de Rio Branco, implantou e ensinou diagramação por computador nas redações, fez os primeiros sites de jornais, atuou na TV Gazeta e na TV Rio Branco como diretor de arte e cenografia. Na campanha eleitoral de 2006 ele criou o visual alegre da maioria das peças do programa da Frente Popular - embora muita gente imaginasse que a leveza era obra da Companhia de Selva, agência do governo. Casado com Sheila Cabral e pai de duas meninas - Gabriela, 9, e Grazieli, 2 -, o genial cartunista e designer acreano mima ainda um cachorrinho ao qual deu o nome de “Mensalão”. E querem saber o que ele comentou ontem, quando solicitei uma foto e as informações para complementar este texto? - Faz 20 anos que você me meteu nessa fria! ALTAR DO SACRIFÍCIO Leila Jalul O velho era rico. Diziam que tinha um baú cheio de ouro. Trouxe do Líbano. Aqui se instalou, montou uma fábrica de refrigerante - o Guaraná Libertador. Tudo gostoso e higienizado, nos moldes da Vigilância Sanitária. Garrafas verdes, líquido de cor variada, dependendo da cor da água do rio. Uns dias mais claras, outros mais escuras. Dependia. O velho era rico e desejado pelas solteironas do Segundo Distrito. Tinha que ter senha para casar. Sobrancelhas espessas. Sério. Quase um Dom Casmurro. Do português, apenas rudimentos. Quase um Dom Casburro! A moçada agitada, digo, a velharada agitada, se arrumava toda e transitava na frente da loja e da fábrica do velho. O nome dele? Fácil! Chamava-se Mustafa Zacour El-Hindi. Currículo? Libanês, dono do Guaraná Libertador, proprietário de um baú cheio de ouro, de pulseiras feitas com libras esterlinas, de escravas em feitio de cobra e olhos de rubi. Tudo de ouro! Gente! Tudo de ouro! Coisa fina! Tudo do Oriente! Seu Mustafa Zacour El-Hindi e vovô eram, exatamente nessa mesma ordem, o sub e o cônsul do Líbano nestas plagas. Na casa grande se viam uns homens que tinham o coração no Acre e as lágrimas derramadas em Meca. Dava dó no coração ver, entre baforadas de charutos e chupadas no naguile, aquele povo longe do longe do longe, saudoso e desesperado por notícias da terra destruída. Vovô ainda tinha uma foto do Gamal Abdel Abdul Nasser no criado-mudo esquerdo de sua cama. E Seu Mustafa? Tinha quem? Eu mesma pergunto. Eu mesma respondo. Tinha nadica de nada! Só um baú de ouro e uma talhada de goiabada! Rico e pobre, ao mesmo tempo! Até que um dia, cansado de ser só, manda buscar no Líbano uma morena, desde os 12 anos já prometida. Linda! Mistura de Margareth Tatcher e Farah Diba! Linda! E eis que a morena de olhos azuis, sem véu, sem mágoas, aporta na terra dos sonhos doces do Guaraná Libertador. Ela tinha que ser bem recebida. Tinha que aprender a se comunicar. Tinha que ser mais forte que os fortes, tinha que ser mais branda que os cordeiros. Tinha que ser mulher falando fácil e encantando mais docilmente os homens da sociedade pouco doce. Para aprender, um pouco de esforço. Primeira aula: conjugação do verbo “ser”, no presente do indicativo. - Repita! Repita: “Eu sou”, “tu sou”, “ele sou”, “nós somos”, “vós somos”, “eles somos” Não vou dizer que sou verdadeira sozinha, perguntem à Detinha. Ela também viu a cordeira chorando no altar. Repita! Repita!
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