OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Novas séries

A minissérie “Amazônia” está, finalmente, revelando ao Brasil a tão pouco conhecida História do Acre, ao mesmo tempo em que nos proporciona a oportunidade de rever algumas interpretações históricas. Isso é especialmente válido no que diz respeito a Luis Galvez, cujo papel na “Questão do Acre” foi muito distorcido pelo romance “Galvez – O Imperador do Acre”. Nesta obra de ficção Marcio Souza utilizou matérias de jornais de Manaus que faziam oposição aos revolucionários acreanos e destratavam Galvez, ridicularizando o que era chamado na época de “Os Sucessos do Acre”. Há anos repetimos a mesma ladainha: Galvez nunca foi Imperador, ele foi Presidente do Acre. Uma pequena diferença que faz toda a diferença.

Para aproveitar o momento favorável e enfatizar essa outra maneira de ver Galvez, nesta semana damos início a uma série de matérias que reproduz um texto publicado em 1999 e que serviu de base para os pesquisadores envolvidos na produção da minissérie. Além de, conforme prometido na semana passada, dar inicio também a uma série de matérias que irá contar a história da arqueologia acreana.

A Republica do Acre e Galvez (I)

Até hoje a figura de Luís Galvez Rodrigues de Árias permanece inexplicada na consciência brasileira e acreana. A começar por sua nacionalidade, afinal de contas não se conhecem muitos exemplos da participação espanhola na história brasileira.

Galvez entrou repentinamente na questão acreana e quando menos se esperava já havia passado da condição de coadjuvante para a de protagonista. Essa entrada súbita e inesperada em cena se deve em parte aos seus próprios méritos de homem ilustrado e carismático, mas em boa parte deve ser creditada ao vácuo produzido pela indefinição com que os governos do Amazonas, do Brasil e da Bolívia tratavam a questão dos territórios além da linha Cunha Gomes.

Galvez não criou nada. Os seringalistas e seringueiros já haviam expulsado os bolivianos duas vezes antes de sua chegada ao Acre. Os brasileiros habitantes do baixo-Acre, haviam mesmo se declarado em situação revolucionária e estabelecido uma junta governativa para exercer a autoridade nos territórios conflagrados a partir de 1o de maio de 1899. Os problemas internacionais suscitados pela questão acreana já ocupavam as páginas da imprensa brasileira e as tribunas políticas desde 1895 pelo menos, acompanhadas de manifestações de vários intelectuais identificados com diferentes concepções ideológicas.

Nesse contexto a presença do espanhol Luís Galvez deixa de ser tão inexplicável. Desde que denunciara o acordo entre o ministro boliviano e autoridades norte-americanas, sua figura se tornara grata aos que advogavam em favor dos brasileiros do Acre. Estes últimos se encontravam em uma situação delicada especialmente pela dificuldade de encontrar uma direção a seguir, faltava ainda uma proposta concreta para guiar os homens e as idéias.

Foi da articulação de uma saída viável para a situação do Acre que se sedimentou a participação de Galvez no movimento revolucionário. Ninguém sabe ao certo de quem partiu a idéia da fundação de um Estado Independente no Acre. Talvez o mais correto seja aceitar que a idéia surgiu da reunião de diferentes personagens e interesses. É certo que durante os meses de maio e junho ocorreram intensas movimentações e negociações em Manaus e Belém. Reuniam-se ali representantes dos governos estaduais, representantes dos revolucionários do Acre (dentre os quais já se encontrava Galvez), comerciantes das duas praças, políticos que viam naquela articulação a possibilidade de aumentar seu espaço e de jornalistas que buscavam aumentar a tiragem e o prestígio de seus jornais. Porém foi só a partir do dia 14 de julho que todos puderam conhecer as habilidades e a capacidade de liderança de Galvez. Seu governo descrito de muitas formas diferentes e contraditórias se revelou hábil ao aglutinar, com clareza de objetivos, os mais diversos tipos de homens. Ele empolgava com seus discursos e modos estudados tanto a seringalistas, quanto a advogados, comerciantes e seringueiros de todas as origens e foi graças a essa característica que durante oito meses resistiu, nos altos rios do Acre, um novo país cuja existência punha em xeque grandes interesses nacionais e internacionais. Acompanhemos, então, alguns momentos da fantástica história da Republica do Acre e de seu inusitado presidente.

1899 - Julho

Os dias que antecederam a data marcada para a proclamação do Estado Independente do Acre foram de intensa propaganda pelos direitos brasileiros. Com isso, Galvez e seus correligionários conseguiram disseminar a idéia de uma oposição armada, se necessário, para impedir a apropriação dos seringais pelos estrangeiros.

No dia 14 de julho, às 9 horas da manhã, foi realizada em Puerto Alonso, uma reunião com todos os membros da Junta Revolucionária do Acre, o povo e Luiz Galvez, como representante da Junta nos Estados do Pará e Amazonas. Depois de lidas todas as atas da Junta Revolucionária, que foram aprovadas, deram a palavra a Luiz Galvez que conseguiu contagiar todos os presentes com o ânimo necessário para realizar tamanha empreitada. O final de seu discurso foi abafado por grande ovação e uma longa salva de palmas sendo aprovada por aclamação a criação da República do Acre. Também por aclamação Luiz Galvez foi escolhido para ocupar o cargo de presidente do novo país. A bem da verdade, tratava-se de uma ótima solução porque evitava comprometer ainda mais os revolucionários brasileiros como promotores de uma aventura que poucos podiam imaginar como terminaria. Galvez - que não tinha nada a perder, nem propriedades, nem débitos nas praças de Manaus e Belém - aceitou a missão que lhe era confiada.

A primeira atitude do Presidente do recém criado Estado Independente do Acre foi reunir seus conselheiros políticos e tratar de organizar política e administrativamente o Governo, divulgando logo em seguida seu Ministério, totalmente formado por seringalistas e comerciantes da borracha, numa hábil composição política que garantia uma relativa governabilidade para Galvez:

Ministro da Justiça – Coronel Hipólito Moreira
Ministro do Exterior – Dr. Albino dos Santos Pereira
Ministro da Fazenda – Joaquim Domingos Carneiro
Ministro da Guerra – Coronel José Galdino de Assis Marinho
Ministro da Marinha – João Francisco Xavier
Chefe de Polícia – Coronel João Passos d’Oliveira
Secretário-Geral – Professor Ezequiel Alves de Araújo Primo.

O Presidente da Republica do Acre começou imediatamente a trabalhar na planejada organização, o que fez de forma febril, baixando um decreto atrás do outro, quando revelou sua imensa capacidade de articulação política e legal.

Esses decretos cuidavam de todos os detalhes necessários para a organização de um país. Definiu como capital a Cidade do Acre (ex-Puerto Alonso); criou uma bandeira que apresentava as mesmas cores da bandeira brasileira; validou a língua, a moeda, os certificados de propriedade, as taxas alfandegárias e demais códigos e leis do Brasil como oficiais no Estado Independente do Acre; mandou que se recolhessem os impostos sobre a importação e exportação na Recebedoria de Rendas Públicas do Amazonas; definiu o jornal Commercio do Amazonas como veiculo informativo dos atos oficiais provenientes do governo do Acre; organizou diversas secretarias, diretorias, repartições, instituições de ensino divididas em Escola Normal, Ginásio e Liceu de Artes e Ofícios; concedeu vantagens para aqueles que introduzissem novas indústrias e artes, exploração e cultura do solo, fundação de centros populosos, construção de oficinas, fábricas e outros melhoramentos públicos.

Enquanto isso, as notícias vindas do Acre causavam intensa comoção, primeiro no Amazonas, depois em Belém e a partir daí em todo o Brasil. Havia até jornalistas, correspondentes dos jornais de Manaus, acompanhando os momentos iniciais do Estado Independente do Acre e descrevendo tudo o que ali se passava. As páginas dos jornais brasileiros estavam ávidas por mais informações acerca daquela inédita forma de revolução que vinha da longínqua Amazônia Ocidental.

* Texto publicado na Revista “Galvez e a Republica do Acre” pela Fundação Elias Mansour em 1999. Na revista o título deste texto foi editado como “Galvez mês a mês - Diário de uma republica”.

Memória da arqueologia acreana (I)

Chandless e os Sítios Geométricos

As primeiras notícias sobre a arqueologia do Acre foram registradas por viajantes e conquistadores que exploraram essa região em meados do século XIX. Estes exploradores deixaram uma abordagem naturalista e genérica sobre diversas características dos povos indígenas, da geografia e das riquezas acreanas. E foi William Chandless, geógrafo inglês, o primeiro a registrar uma ocorrência semelhante ao que atualmente estamos denominando como sítios geométricos, mas que naquela época ainda estava em pleno uso por grupos indígenas do Acre.

“...Na parte do Aquiry que acompanha o paralelo 11º S. encontramos duas tribus indigenas, ambas - como pareceu - de pouca gente....são ... mui medrosos....Ao avistarnos ... correram para o matto ... os fugitivos espantaram tambem uma maloca vizinha; pelo que à nossa chegada achamos esta dispovoada. Tudo quanto foi portatil tambem tinham levado. Esta maloca parece ser a principal, e para assim dizer a capital da nação. Tem 3 ou 4 casas .... outra mais retirada, toda fechada, ... que é o armazem das cousas de festa, ... Entre o armazem e as casas ha uma trincheira (assim -_- ) as extremidades deixam só uma entrada estreita, encostada no matto. Esta imaginamos ser uma obra de defeza; mas os indios depois nos disseram que não foi mais do que um arranjo para as festas. Nas casas achamos uma panela enorme, de 5 ou 6 palmos de largura, e 4 de altura ... dous dias mais tarde ... seguiram por terra e nos alcançaram. São gentios altos, alvos e limpos ... mas não bonitos: as mulheres não vimos ... As malocas não são muito retiradas (1/4 a ½ légua só) da beira... Plantam bananas, milho, aipim (mandioca não vi) canna de assucar, algodão, e o mamão ... Fazem novelos de fio de algodão, e tecem panno que as mulheres vestem pela cintura, ... fallam em voz alta ... a lingua é uma coisa guttural... Estes indios tem ferramentas ao menos pedaços quebrados, que, é, claro, compraram de outros mais ricos que elles; provavelmente da tribu que achamos mais acima. Naturalmente eram muito desejosos de comprar cousas de ferro, mas não roubaram, nem procuraram roubar das canoas. As canoas delles são ubás de paxiaba...as flechas delles tem ponta de osso e não levam linha: para a defeza eles usam taquaras. Não conseguimos saber o nome da nação ...

Estes indios não se estendem até o rio das Pragas, um affluente grande que entra no lado direito....” (Chandless, 1866, pág. 3)

Com esse relato Chandless foi o primeiro a descrever e fornecer informações sobre o povo que tinha o habito de construir estruturas de terra. O geógrafo inglês ao avistar a trincheira de terra da aldeia, rapidamente abandonada por seus ocupantes, logo pensou se tratar de obras defensivas, a exemplo dos arqueólogos modernos. Sua surpresa, com a volta dos índios assustados foi saber que era um mero arranjo para festas, ou seja, tinha um uso eminentemente ritual/cultural. Além disso, a fabricação de grandes panelas de cerâmica aumenta ainda mais a possibilidade de estabelecermos uma relação entre o grupo descrito por Chandless e os sítios arqueológicos geométricos que tem causado tanta polêmica ultimamente. Pena que Chandless não conseguiu saber, e nos legar, o nome desse grupo indígena.

 

 
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Rio Branco-AC, 14 de janeiro de 2007
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