OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 
CERCANIAS DO AMOR

Ela não o amava, simplesmente, amava o fato de estar amando, amava o amor, amava ver seus olhos dentro dos olhos dele, tinha sentimentos puros que não precisavam de retorno, que não precisavam ser entendidos, que se bastavam. Nela estava o próprio conceito de amor, que as palavras não alcançam, que as mãos não seguram, embora conduzam sentimentos que estavam na cara, que estavam em tudo, sem estar em nada, pois estavam com ela desde sempre. Ele era o espelho que os refletia.

Ela não o queria, precisava dele, simplesmente, para nele descansar os olhos que pelo mundo não estacionavam, que com o mundo não se esgotavam. Era nele que seus olhos viajavam mais, ainda que para dentro, mesmo parados, vendo adiante, para dali pressupor, sabendo que a conclusão seria a mesma, de voltar para ele, para o ponto de partida, sem esperança de deixar de ir, sem vontade de parar com as despedidas, para sempre mandar notícias do mundo de lá, de partir pelos olhos dele, sem ter planos.

Ele era a bagagem esquecida, embora sempre arrumada para ir, sempre imaginada como necessária, sempre trocada pela pressa de partir, apesar de insistentemente buscada na volta, talvez para a constatação da renovada espera, talvez para nova ilusão de outra viagem. Ela não o desejava, abraçava-o e beijava-o, assim sem projetos, sentia-o, assim pelo costume, pela praticidade de sentir, assim com todo o amor possível, com todo o sentimento cabível; mesmo não o amando, ela amava abraçar e beijar o amor.

Ele estava nas cercanias, não sendo o amor, era o prazer de amar, era o espelho para refletir, a mão para segurar, o olho para calar. Só ela poderia definir. Expressões não alcançam, mãos não seguram, capitulam. Ele era, talvez, a espera, o que encontrar, era para onde voltar. Talvez, assim ele fosse, um coração a centenas de milhas dali, insensato coração, sem de amor entender, ficava por imaginar, esperar ir e voltar, em tempo para esperar outro beijo, outro filho, uma piscadela da vida, só vista dentro dos olhos dele.

Ela não o amava, apenas dançava com ele, sentindo frio em sua alma, a voz dele a acalmava, passos pra lá e pra cá, e ela parecia desfilar sem ver seu vigia, mas em seus olhos era possível ver a galeria de sonhos e catar a poesia, além dele, além do mel dos olhos nus, do ouro ainda não bem verde, e como num susto, ela quase o queria mais, imaginando como é perversa a juventude do seu coração, que mal entende o que é paixão, andando pelas cercanias do amor, quase esqueceu que sofreu um dia e que tinha o coração tatuado.

Assim eles viviam, sem flores nem vastos amores, sabendo que um amor puro não sabe a força que tem, ela tinha pressa de viver, tinha compromissos e não podia faltar, sabia que a vida é apenas uma canção, umas letras que a gente vai deixando por aí, que a gente perde pela memória mas depois cantarola alguns versos, enquanto vai indo pegar um lugar no futuro. A vida é feita dessas canções, que ela lembrava olhando nos olhos dele, pedindo para deixar em paz seu coração, até ali, um pote à beira da gota d’água.

E ela nem sonhava com ele, preferia a carne, o corpo, sem teorias, sem fantasias nem algo mais, apesar de muitas juras secretas, enquanto gritava, para o mundo inteiro ouvir, que não queria a vida daquele jeito, que só tinha o álibi da força do beijo, mais que vadia, que dali a pouco não mais a saciaria, e gritava, que o tempo passou de repente, nas rodas do seu coração, enquanto seu olho armava um bote sem futuro, rondando os olhos dele, pelas cercanias, que lhe diziam, rondando as costas dela macias, teu infinito sou eu!


O BARULHO DA FOME

O barulho da fome não está em sua voz inexpressiva
Não está na quietude de quem a conduz sem alarde
Há um badalo inerte dentro das nossas consciências
No silêncio da nossa pressa insensível e impertinente
Olhamos e não enxergamos, apenas seguimos adiante
E o barulho da fome cala em corações muito ocupados
No nosso jeito de ver dissimulado, bem alimentado
O barulho da fome não comemora ano novo, vai passando
Está abaixo dos fogos e dos artifícios, explícito, humilhado
Há um poder que se perde em vaidades muito importantes
Na inconseqüência dos nossos despropósitos cegos, mudos
Não olhamos olhos famintos, não ouvimos gritos surdos
E o barulho da fome não acorda nossa reflexão esquecida
Nossa situação bem definida perde a dissonante do nome
A fome não tem realce, não tem jeito, consome sem prazer
Não se expressa, dormente, alarmante silêncio, pensa, mente
Engole o que poderia dizer, alimenta a mesma dor que sente
Há uma sede de poder que nos desvia e a fome passa ao lado
Nosso querer não tem tempo, impávido colosso, deixa estar
Nosso gesto insaciável só traz para dentro a fome de poder
E o barulho não badala em nossas consciências adormecidas
O barulho da fome está em vidas entorpecidas
Subnutridas de sensibilidade para ouvir gente
E ainda que a dor batesse no tambor da fome
Nossa sede de poder não escutaria com amor
Deixando o barulho calado, quieto, humilhado

 

 
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Rio Branco-AC, 14 de janeiro de 2007
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