| OPINIÃO | ||
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Tião Maia |
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| A vida sem carne gorda O medico, tão moço, mas tão experiente, me diz que tenho chance, uma pequena chance, de continua vivendo - “desde que mude completamente o modo de vida, altere a rotina, a forma de viver”. Senti o baque, o pensamento já processando outras coisas, novas sensações, coisas que não vivi. Uma diabetes tipo II me surpreendeu, aos 41 anos de idade, com tanta coisa ainda por fazer, e ali, diante do médico, era como se, em outras palavras, ele me dissesse que tudo deveria ser adiado “sine die”, talvez para nunca mais. Afinal, por “outro modo de vida”, eu deveria ser um outro e, sendo assim, já não poderia realizar coisas que só eu, nos escaninhos da alma, havia planejado, reservado só para mim. E quando me vi só, tendo que processar um recomeço distante dos amigos de copo e de cruz - afinal, para mudar de vida, para uma vida sem cerveja, sem carne gorda, sem farra, a princípio, me aconselham os mais experimentes, só me afastando, ainda que momentamente, dos amigos que cultuam tudo isso como uma religião. De todas as dificuldades para enfrentar a doença, esta me pareceu a mais dura: como começar a fazer novos amigos agora, a esta altura da vida, aos 40 e poucos anos? Sim, como recomeçar, sem a farra, sem a cerveja tradicional, sem o dominó, sem a poesia? Sim, porque aos 40 anos já não é mais idade de se buscar novas amizades. Se elas existem, o que é o meu caso, nessa idade elas devem ser mesmo é cultivadas, regadas todos os dias para que, como plantas que são, não feneçam. Plantar amizades a essa altura - mesmo que, contraditoriamente, também acredite em amigos novos - não parece render uma boa colheita. E aí tomei uma decisão radical: vou mudar, mas mudar apenas para continuar sendo eu mesmo, como diria dom Helder Câmara. Nesta caminhada, segundo ele, é preciso mudar todos os dias para permanecermos os mesmos. Não é fácil viver, principalmente nesta vida cheia de multiplicidades, quando o instante, que já era diminuto, fragmentou-se ainda mais na corrida globalizante, na corrida pelo sucesso, na busca desenfreada pelo lugar ao sol. E me pus a pensar nas ironias desta vida: eu, que já passei fome, agora que poderia comer o que bem entendesse tenho que me limitar às dietas; eu, que já fui perseguido pela polícia, ameaçado, processado e preso, agora, que tenho a liberdade como irmã, sou refém das mais diversas limitações. Mas a vida é assim. Consola-me a idéia de que vivi, de que fui feliz. Como menino, na minha querida Brasiléia, invadia os campos do seu Antônio Mansour me julgando um perfeito Tarzan. Junto com companheiros de tantas aventuras, atravessei o igarapé Bahia a nado não sei quantas vezes para roubar (veja só!) a farda dos recrutas que eles, coitados, botavam na praia para quarar e nus, dentro d`água, não podiam sair para correr atrás da meninada que mais tarde ia se vestir de soldado do Exército ou da Marinha boliviana. Quando não era isso, invadia o pomar do seu Zeca Mesquita para roubar manga, jaca, o que encontrasse. E enlouquecia o Manuel Bibiano e o Caiçuma, então chamados “comissários de menores”, quando embarcávamos nas catraias do Antônio Cabeção ou do seu Chagas Iduíno e, no meio do rio, pulávamos n’agua só para não pagar o pedágio da travessia. Quando flagrado ou denunciado ao papai por tantas aprontações, a surra era certa. Tantas vezes apanhei e chorei até dormir para, no dia seguinte, recomeçar tudo de novo. Como um menino feliz há de se comportar. Fugi de casa prometendo nunca mais voltar e, quando a noite chegava, com o frio e a solidão me açoitando, me aproximava mesmo sabendo que ia tomar mais peia. E assim cheguei à adolescência querendo ser astronauta. Detetive. Trapezista. Mágico. Violonista. Tornei-me jornalista que, a meu ver, é o resumo de todas as coisas. Nunca fui premiado como jornalista, mas dei alguns furinhos. Escrevi muitas laudas, briguei muito, apanhei, bati. Por isso, quando sou obrigado a refletir sobre o que é importante, quando me dizem que envelheci e adoeci, me ponho a discordar porque, de verdade, ainda passo trote por telefone, tomo banho de chuva e ainda me permito virar a noite acordado contando os minutos para o amanhecer na ansiedade de ganhar um presente. Vivi tristezas e também alegrias. Como não convém falar de tristeza, digo que vi - uma única vez, é certo - o Vasco vencer em pleno Maracanã. Roubei alguns beijos, beijei sem vontade e, assim, quando me fiz homem, me apaixonei. Casei tantas vezes me julgando apaixonado e pronto para a eternidade. Mas um dia, um belo dia, encontrei a Ana, que é, a um só tempo, a linha dos sonhos e a realidade pronta. E agora, surpreendido pela diabetes, digo que, a depender de mim e da minha determinação de luta, ainda não será desta vez que vou perder o privilégio e a imensa alegria de viver. E, quando morrer, como Fênix, vou tentar renascer só para não perder o privilégio da companhia dos meus amigos, o esplendor da Amazônia, as curvas indolentes do rio Acre, o sorriso da mulher que amo. Um brinde à vida, apesar de tudo. * Jornalista |
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| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
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