OPINIÃO
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Francisca Trindade Lopes *

 

Quem tem medo de madrasta?

Cresci ouvindo e acreditando que madrasta só o nome basta. Nele já estava contida a figura da mulher magra, gorda, alta, baixa, sempre horrorosa e que disputava com a bruxa maquiavélica o primeiro lugar em malvadeza, principalmente com as crianças.

Tinha motivos para tanto. O meu primeiro contato com um ato de crueldade dessa mulher aconteceu quando eu tinha oito anos. Morava no interior e uma tarde, com minha irmã mais velha, fui à casa de uma família recém-chegada ao local. Lá, um garoto de mais ou menos seis anos de idade, sentado no cantinho da varanda, chamou-me a atenção e me dirigi até ele. Soluços que balançavam o corpo e lágrimas escorrendo em seu rosto denunciavam que estava chorando. Cheguei bem pertinho e perguntei:

- Tua mãe te bateu?

-  Ela não é minha mãe, é madrasta! - respondeu quase gritando, deixando transparecer que estava com muita raiva. E continuou:

- Num sei por que o pai foi arranjar essa muié véia feia.

- Mas ela te bateu? - insisti na pergunta.

- Num bateu porque eu corri. Mas ela já bateu no Edim, meu irmão. Bicha ruim. Fica só brigando, num deixa nem a gente brincar.

Saí dali preocupada com o garoto. Em casa, comentei o assunto com meus pais e irmãos e sugeri à minha mãe que fosse à casa da malvada e lhe desse uns conselhos para não maltratar as crianças e que se ela insistisse em ser ruim, meu pai iria lá dar uma boa pisa nela.

Minha mãe, se ouviu o meu pedido, não levou muito a sério e poucos dias depois quem estava levando uma boa sova era eu. Motivo: junto com o tal garoto, cujo nome era José, planejamos e executamos uma armadilha que consistia em um cordão fino amarrado de um lado ao outro do caminho onde ela (a madrasta) tropeçaria - e se esborracharia no chão - quando fosse à vertente lavar roupa. Mas, antes de alcançar nosso objetivo, fomos denunciados e o resultado para ambos foi peia.

Veio acentuar minha aversão à madrasta a leitura de “Branca de Neve” e de “Cinderela”. A primeira, só porque era bonita, a madrasta expulsou de casa e a perseguia onde estivesse; a segunda - aquela do sapatinho de cristal -, rotulada pela madrasta e suas filhas de “gata borralheira”, se não fosse a fada-madrinha que lhe transformava em uma linda moça para ir ao baile e se encontrar com um príncipe que se apaixonou por ela iria passar a vida toda no borralho.

O tempo passou e muita coisa da fama de malvada que tinha a madrasta ficou para trás. A separação, que antes acontecia mais por morte da mãe biológica,  agora é rotina entre os casais com boa saúde, jovens. Os motivos alegados para o desenlace são os mais diversos: incompatibilidade de gênio, desamor, traição, ocasionando o aumento do número de separações e  recasamentos.

Inserida nesse novo contexto, a madrasta passou a ser uma figura comum nas novas estruturas familiares e já não há contra ela a mesma aversão preconceituosa de antigamente e não raro chega a ser vista como irmã dos enteados, tanto é o grau de companheirismo, carinho, dedicação (e idade) existente eles. Conta-se até que, em muitos casos, quando a mãe biológica fica com a guarda dos filhos e se casa novamente, eles preferem voltar a viver com o pai, que tem uma outra mulher, no caso a madrasta.

Mesmo assim, vale ressaltar que existiram - não só na literatura infantil -, e ainda existem, madrastas más. Porém a sociedade está mais atenta e muitas vezes evita que  atrocidades terríveis aconteçam, uma vez que as crianças, como o meu amigo de infância José, são as suas principais vítimas.

* Acreana, formada em História pela Ufac e autora do livro “Ô de Casa!”

 

 
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Rio Branco-AC, 14 de maio de 2005
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