OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Zola, o socialista

A finalidade primeira de Èmile Zola ao compor o romance Germinal era, realmente, a denúncia. E o sucesso se fez retumbante. A realidade nua e crua foi colocada de forma singular pelo autor, um dos representantes mais ilustres do realismo literário.

O tempo passou. Veio, então, a época do cinema. Filmaram Germinal. A bem da verdade, atores e diretores não teriam decepcionado Zola, se vivo estivesse, em vista da qualidade de um trabalho que, desde a origem, em livro, tem como objetivo maior mostrar a realidade dos operários franceses, nas minas de carvão, no final do século XIX. E quanta realidade fria há!

Para os estudiosos das ciências sociais, então, trata-se de uma análise acurada acerca de um período da história em que o danheiro já atropelava os destinos dos homens.

A ênfase principal do enredo é focada no processo de produção, nas fábricas, na precariedade das condições de trabalho, miséria e exploração, onde todos os membros das famílias se esfalfam - das crianças aos idosos - sendo que é o salário ganho por cada pessoa que garante o sustento de toda a família. Assim, quando alguém morre ou vai embora, é necessária a substituição, imediatamente, para que a renda familiar não diminua... E isto é realismo demais.

O guarda-comida - ou despensa - está sempre vazio. As crianças pedem pão. É o café que falta e a água que dá cólicas. Na faina da indústria, os dias são longos e a fome é enganada através da ingestão de folhas de couve cozidas.

A exploração do trabalho é contínua. As donas de casa, desesperadas por não terem com o que alimentar os filhos, vão até o senhor Maigrat, dono de uma mercearia, e pedem mais crédito e pão.

Os operários não sabem quem são os patrões. Estes senhores diziam estar preocupados com as notícias da economia e da política, as quais apenas pareciam afetar os negócios, e com a provável greve que se anunciava. E os operários decidem pela greve, para tratar sobre a sua situação de miséria e fome e pedir aumento de salários.

Com a greve, a fome recrudesce. O dinheiro da reserva havia sido suficiente apenas para dois dias de pão. Alguns trabalhadores esfomeados estão dispostos a voltar ao trabalho, já outros preferem continuar em greve e, se for preciso, morrer pela causa.

É assim mesmo. Patrões sempre exploram. Empregados são sempre explorados. Este é aspecto da vida real segundo a égide do capitalismo. Como mudar? Alguns falam da revolução dos pobres de ontem e de hoje...

Estas são algumas das passagens presentes em “Germinal”. Fica exposta a situação de miséria em que se encontravam os mineiros franceses. Nos dizem sobre as relações entre os operários e as máquinas, entre capitalistas e operários. Tratam das greves e o sindicalismo; abordam as necessidades espirituais do ser humano em contraposição à premência das suas necessidades materiais.

Em Germinal, o processo de trabalho deve ser considerado, a partir não só da determinação tecnológica, mas também dos aspectos sociais, levando-se sempre em consideração que o imperativo tecnológico que comanda a organização da produção opera em condições econômicas, sociais e culturais determinadas segundo uma lógica e na base de um estado das ciências e das técnicas que são o produto de uma longa história.

O filme é uma breve revisão desses aspectos nos meados do século XIX, em particular na França, como também revê os fundamentos da Revolução Industrial, a qual fornece as bases para o novo processo de produção que se firma e se define.

Na França, à época da Revolução Industrial, cerca de três milhões de pessoas viviam do trabalho manual. Como nos demais países europeus, os trabalhadores estavam ligados às fiéis formas de produção detentoras dos meios de produção, tendo que vender seus corpos e a força dos seus músculos, para garantir as mínimas condições de sobrevivência.

É o socialismo científico aliado a uma realidade drástica onde o processo de produção capitalista se constitui em relações de troca, tendo o lucro como bem final, pela expropriação da mais-valia gerada pela força de trabalho, ou seja, do valor excedente que é apropriado pelo capitalista. A venda da força de trabalho torna-se a única alternativa do trabalhador livre para obter, através do salário, sua sobrevivência. De fato, o sistema de fábrica surgiu como um tipo de organização do processo que visava garantir a dominação do capital sobre o trabalho.

O novo processo de produção, instalado com as máquinas, atingiu diretamente a organização da família operária como unidade econômica. A necessidade de concentrar os operários em volta das máquinas destruiu o sistema doméstico de produção e criou a situação moderna de os mesmos terem a necessidade de sair para o trabalho. Homens, mulheres e crianças passaram a deixar os lugares onde moravam para ir trabalhar.

E hoje vivemos as asperezas do novo milênio. Já amanheceu o século XXI. As ciências que se voltam para o estudo dos problemas da sociedade estão estupefactas porque muito pouco mudou. De Èmile Zola aos dias de hoje, o mundo é praticamente o mesmo. O velho clichê é tão moderno quanto a cibernética. Os ricos ainda ficam cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres.

Mesmo no Brasil da modernidade, velhos morrem amontoados nos asilos ou nas marquises, trabalhadores rurais são escravizados, mulheres vivem das migalhas que ganham nas esquinas da prostituição necessária e crianças trabalham de sol a sol, apesar da seriedade dos estatutos que tentam protegê-los.

* Pesquisador do DFCCS/UFAC

 

 
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Rio Branco-AC, 14 de maio de 2006
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