OPINIÃO
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Paulo Costa de Moura *

 

Redescobrindo a vida

Viver com qualidade em uma sociedade onde todos almejam um padrão de vida quando chegar à melhor idade, através de uma boa aposentadoria, para dar suporte aos filhos e netos, isso é um sonho que todo avô e avó têm.

Mas no Brasil, o aposentado ao chegar à melhor idade mal pode se alimentar e comprar remédios com sua renda.

Aqui no Acre, precisamente em Rio Branco, existe um grupo da terceira idade - “Redescobrindo a Vida” - com 105 aposentados que se encontra no bairro Aeroporto Velho, no Centro Cultural Lydia Hammes, que é um exemplo de vida, pois sua sabedoria e experiência de vida são espetaculares e isso é o faz um grande diferencial cultural, histórico e social em nossa capital.

Conhecer as habilidades desse grupo de pessoas que foram importantes para a construção da história de nossa cidade nos permite voltar ao passado e relembrar as dificuldades que lhes eram impostas no quesito diversão, pois essas pessoas geralmente vinham dos seringais ou colocações, às margens dos rios ou das redondezas do seringal Empresa.

Eles se divertiam quando eram convidados por um dono de seringal ou “colocação”, para um adjunto - maneira de se ajudarem na colheita ou na limpeza de roçado durante o dia todo. Os homens saíam de casa com a companheira, caminhando duas ou três horas mata adentro durante a madrugada, com um facho de sernambi aceso na mão e o facão na outra, além de uma muda de roupa para cada um num saco de caucho, que era um saco impermeável feito a base do leite de seringa.

As mulheres levavam uma poronga na cabeça. Chegando ao seringal ou à “Colocação”, algumas iam ajudar na colheita e outras ficavam na casa conversando, ajudando na cozinha e carregando água para fazer a comida e limpar a casa para o forró que se seguiria. Preparavam então o almoço e quando este estava pronto, um tiro de espingarda era disparado, avisando que chegara a hora de parar o trabalho.

Depois do almoço, os homens voltavam para o trabalho, e quando chegava o final da tarde todos voltavam para a casa onde as mulheres já os esperavam prontas para começar a festa. Em poucos minutos já haviam se banhado e perfumado, com brilhantina nos cabelos, no ponto para dançar no forró.

Então, os que sabiam tocar sanfona, triângulo, pandeiro e zabumba logo pegavam nos instrumentos para afiar e logo depois explodia uma festa muito animada. Os homens pegavam sua parceira e dançavam a noite inteira, iluminada apenas pela lamparina ou o lampião, até o dia amanhecer.

Hoje, grande número dessas pessoas saiu do seringal ou colocação, devido à crise da borracha, e veio morar na cidade, onde muitos dos aposentados por idade vivem com um salário mínimo, ou no máximo dois (para aqueles que conseguiram se aposentar como soldado da borracha). Isso faz com que fiquem em casa, preocupados em administrar o seu dinheirinho para não passar necessidade nos poucos dias ou anos de vida que lhes restam.

Então surgiu a idéia de uma professora aposentada, Dona Socorro, que, conversando com outros, descobriu uma maneira de enfrentar a vida com muita alegria, sair da ociosidade e driblar as dificuldades encontradas pela falta de uma atividade de lazer para o aposentado. Afinal, já criaram os filhos e netos e muitas vezes os jovens que ainda moram na casa deles não têm paciência para conversar ou ouvir histórias, como era a maneira de viver em outras épocas.

Resolveu-se então criar uma associação independente, que permite que o grupo da melhor idade, “Redescobrindo a Vida” se encontre no Centro Cultural Lydia Hammes, para viver bons momentos, o reencontro com pessoas da mesma geração e partilhar conversa, trocar idéias e experiência de vida, enfim, se divertirem com o forró de antigamente, embalados pelas músicas de outrora que marcaram seu passado e que acontece todos os sábados de das 16 até as 19 horas.

Ao observar as pessoas que freqüentam este Centro aos sábados, você fica impressionado com a maneira como se vestem: geralmente é uma roupa nova a cada festa, e aquela lavanda gostosa de como quem acabou de sair do banho; as mulheres, nem se fala: roupas vistosas, um leque para se abanar e uma toalha de rosto na mão para espantar o calor!

O que eles fazem, é se divertir com qualidade e dar um exemplo de diversão saudável, onde aquela magia é visível no semblante de cada um. E o respeito entre eles? - faz inveja. E faz inveja também a qualquer festa, a animação, sem bebidas, com aquela banda harmoniosa, que foi batizada de os “Os Bebês”, que dão um verdadeiro show sem cobrança de entrada.

Pois dizem que dançar faz bem a saúde e isso eles fazem toda semana. Há relatos de pessoas que conheceram o Centro Cultural Lydia Hammes através de indicação médica e não mais tiveram problemas de saúde e ai não mais deixaram de freqüentar; há pessoas que quando a família quer comemorar seu aniversário, nada mais justo que faça o festejo no Centro, onde todos participam. E ai é bolo, comida e refrigerante para todos.

O mais impressionante de tudo isso, é que eles não precisam do governo ou da prefeitura para se divertir, a não ser a utilização do espaço que é cedido, e com muita criatividade eles fazem bingos de várias coisas, entre elas, a tradicional galinha cheia que quem tirar o almoço do dia seguinte está pronto. Com a arrecadação eles dão uma pequena contribuição para os membros da banda e ajudam na limpeza. Quando muito, eles contribuem com uma mensalidade de cinco reais para alugar um ônibus e visitar outros grupos da melhor idade nos municípios vizinhos ou para receberem estes que vez por outra, quando vem visitar e se divertirem.

E as comemorações que eles fazem quando chegam o Natal, Ano-Novo, Sábado de Aleluia, Dia das Mães, Dia dos Pais, tudo regado com uma bela ceia, ou vão para um restaurante comer uma boa comida e depois dançar, por que “Os Bebês” também vão juntos.

Então o nome faz jus: “Redescobrindo a Vida”. É uma iniciativa privada na qual realmente a organização faz o diferencial histórico social e cultural, em uma cidade que não tem muita coisa a oferecer àqueles que se aposentam e ficam em casa dia e noite, sem ter o que fazer, a não ser esperar o dia de partir.

* Acadêmico de História da Ufac

 
 
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Rio Branco-AC, 14 de agosto de 2007
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