OPINIÃO
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Denise Schaan *

 


O dilema dos Geoglifos

O debate em andamento em Rio Branco sobre a divulgação ou não divulgação das coordenadas geográficas dos Geoglifos e seu potencial para o turismo no Acre merece algumas considerações. Gostaria de ilustrar minha posição em relação aos fatos.

Há um consenso que vem se consolidando entre os arqueólogos brasileiros de que é somente com a divulgação e com a participação da sociedade que poderemos proteger e preservar o patrimônio arqueológico do país. Em primeiro lugar, é fato que alguns dos geoglifos do Acre são conhecidos, pela comunidade arqueológica, desde 1977, quando o Prof. Ondemar Dias do IAB-RJ esteve pesquisando na região. Nessa primeira pesquisa, contou com a participação do Prof. Alceu Ranzi, na época estudante da UFAC.

Depois daquilo os dois seguiram caminhos diferentes. O Prof. Ondemar deu continuidade aos estudos dos geoglifos na década de 1980 e 1990, mas optou por não divulgá-los. O Prof. Alceu Ranzi tornou-se um conceituado paleontólogo, cujas pesquisas sobre paleoambientes tangenciam o assunto dos geoglifos. Eu diria mesmo que uma das questões que move o interesse do Dr. Ranzi hoje pelos geoglifos é de suma importância não só para a comunidade científica, mas também para a sociedade em geral: se os geoglifos foram construídos quando esse ambiente não era de floresta, mas sim de savana, temos muito a aprender sobre os processos de encolhimento e expansão da floresta tropical durante os últimos milhares de anos, o que traz conseqüências para as atuais práticas de manejo florestal.

Seja como for, ao deparar-se com os geoglifos a partir de uma vista aérea, Dr. Ranzi teve a visão que é o sonho de qualquer arqueólogo trabalhando na Amazônia: ele viu algo gigantesco, o produto da ação coordenada e engenhosa de sociedades humanas que aqui viveram muitos séculos antes da chegada dos europeus, nesse lugar que, por muitas décadas, foi considerado inóspito para o desenvolvimento de sociedades complexas. Por mais que tivesse antes visto do solo, a geometria perfeita dos geoglifos e a associação entre as várias estruturas é somente realmente percebida do alto. E isso não deve ser mantido em segredo. Não deve porque acredito que, se os proprietários de fazendas onde se localizam os geoglifos tivessem sabido antes sobre sua existência, pensariam duas vezes antes de cortá-los por estradas ou reaproveitá-los para fazer açudes.

Temos visitado várias fazendas no Acre à procura de tais estruturas e temos sempre sido muito bem recebidos pelos proprietários, pessoas muito cultas e hospitaleiras, a maioria das quais não fazia idéia da importância dos sítios arqueológicos antes de nossa visita. Essas pessoas têm-se interessado pelo assunto e entendem perfeitamente a necessidade da preservação. Por causa da divulgação que vem sendo feita, outros proprietários têm vindo à nossa procura e têm nos levado às suas terras. Esse é um trabalho importante que o Iphan, contando com apenas um representante no estado, jamais poderia fazer sozinho.

Sérgio Valle

Além disso, os governos municipal e estadual têm também se mostrado sensíveis ao assunto e tenho certeza de que igualmente pensarão duas vezes antes de abrir estradas sobre os geoglifos. Por isso considero que a divulgação até agora tem colaborado enormemente com a preservação. Ao mesmo tempo em que temos enfatizado o potencial turístico dos geoglifos, temos alertado para a necessidade de prepará-los para a visitação. Infelizmente, o Iphan não possui, até agora, normas claras e procedimentos que devem ser tomados para a exploração turística dos sítios. Essa é uma das razões pelas quais sítios arqueológicos vem sendo explorados indevidamente em outros estados. Nossa divulgação tem também este papel, de preparar o caminho para que, se for de interesse a exploração turística de geoglifos, que venha a ser feita da melhor forma possível.

Agora gostaria de explicar a posição daqueles que são contra a divulgação, pois suas razões nem sempre são claras. Para isso deverei fazer um pequeno retrocesso cronológico. Na década de 1970 instalou-se no país um programa nacional de identificação de sítios arqueológicos, feito através de um convênio entre a Smithsonian Institution, de Washington, e o CNPq. Esse programa, que teve também sua vertente amazônica, foi responsável pela identificação de milhares de sítios arqueológicos no país todo, impulsionando de maneira decisiva a nascente arqueologia brasileira. No entanto, esse programa trazia também uma camisa-de-força teórico-ideológica que ficou conhecida como a escola histórico-cultural ou ecologia cultural. Em linhas gerais, esse modelo preconizava que o ambiente natural impunha limites ao desenvolvimento cultural. Com relação à Amazônia, o modelo dizia que aqui não poder-se-iam desenvolver sociedades complexas, como as que os espanhóis encontraram no Caribe (os cacicados) ou nos Andes (o estado expansionista Inca).

Na prática arqueológica, esse modelo teórico acabou trazendo problemas quando os pesquisadores se deparavam com indícios de sociedades mais populosas ou mais desenvolvidas socioculturalmente do que as chamadas “tribos da floresta tropical”. A partir daí os pesquisadores começaram a esconder os indícios de complexidade ou mascará-los. Essa prática está fartamente documentada em vários artigos e livros que saíram a partir dos anos 1990 (ver, por exemplo, “Os Índios antes do Brasil”, de Carlos Fausto). Isso explica o porquê de os geoglifos não terem sido divulgados ou sua importância ter sido minimizada. Também explica o porquê de nunca termos ouvido falar na Serra da Muralha (Rondônia) ou em outros tantos sítios arqueológicos amazônicos que contrariavam o modelo padrão. Como a Smithsonian pagava a pesquisa, essa tinha de ser feita de acordo com suas expectativas e não gerar controvérsias ou críticas.

A arqueologia amazônica está sendo reescrita. E a arqueologia do século XXI necessita e pede a participação do público, o que não acontece apenas aqui, mas no mundo todo. Fico feliz de fazer parte desse novo momento da arqueologia amazônica e poder contribuir com a democratização do conhecimento. Os acreanos devem se sentir parte desse processo: se a história é coletiva, ela deve ser construída por todos.

Por isso compartilho e me solidarizo com a posição do Sr. Fernando Figalli, representante do Iphan no Acre. Realmente, como ele mesmo afirma, o Iphan não tem recursos e pessoal para exercer a fiscalização em todos os sítios arqueológicos. E dada a quantidade de geoglifos até agora descobertos eu diria mesmo que nunca terá. E é por essa razão mesmo que me permito discordar dos que defendem a não-divulgação dos geoglifos. Se mesmo com tanta divulgação ainda ocorrer depredação, poderemos sempre contar com a lei do nosso lado, pois a legislação brasileira é muito clara com relação à proteção do patrimônio arqueológico. Aqueles que optarem por destruírem os geoglifos, a partir de agora não poderão mais alegar desconhecimento.

* Modificado do Post Arqueologia Amazônica publicado no www.altino.blogspot.com em 09 de setembro de 2006.
e-mail: deniseschaan@marajoara.com

 

 
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Rio Branco-AC, 14 de setembro de 2006
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