| OPINIÃO | ||
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| Romerito Aquino * |
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É hora do projeto piloto da sustentabilidade Em 1998, acompanhei Jorge Viana, então candidato a governador pelo PT acreano, numa viagem de Assis Brasil à sede do seringal Icuriã, às margens do belo e lendário rio Iaco. Foi uma viagem e tanto por dentro da selva. Ao todo, foram três dias de cavalo no interior da floresta, intercalados por agitadas noites de reuniões, seguidas de alegres forrós, com a seringueirada da Reserva Extrativista Chico Mendes. Jorge Viana começava ali a seu compromisso com a florestania, sonho de cidadania para o povo da floresta acalentado e fomentado anos antes por líderes sindicais como Wilson Pinheiro e Chico Mendes. Comendo banana, sardinha e farinha, e bebendo a água límpida e gelada dos igarapés, seguimos pela selva adentro, passando uma a uma as muitas colocações que separam o rio Acre do rio Iaco. Era início de ano e as chuvas intensas do inverno amazônico faziam até os cavalos atolarem em lamaçais profundos nas áreas mais íngremes do terreno do interior da floresta. No terceiro dia de nossa viagem epopéica, chegamos ao Icuriã no final de uma tarde de sol e lá estava mais de 200 pessoas reunidas, nos esperando com músicas e jantar de boas vindas. Eu, Jorge e o ex-deputado e ex-seringueiro Zico Bronzeado abafamos o pesado cansaço que já nos perseguia com a emoção de sermos recebido como verdadeiros heróis por aquele povo que transpirava paz, alegria e esperança de dias melhores. Era um povo muito louro, quase “Viking”, originário do Rio Grande do Norte entre as décadas de 40 e 50 do século passado, quando o Icuriã batia recorde na produção da borracha que ajudou os países aliados a derrotar o império nazista de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Lembro-me que havia ali jovens que faziam pela terceira vez a quarta série do ensino fundamental por falta de ensino mais elevado. Não iam mais para a cidade de Sena Madureira porque outros já haviam apenas de marginalizado nas drogas e na prostituição. Vejo agora nas manchetes dos jornais a inauguração do asfalto do ramal de 70 quilômetros que a comunidade das 600 famílias do Icuriã abrira um pouco antes daquela época, numa ação coletiva forte muito comum entre os povos tradicionais. A solidariedade na floresta, aliás, já havia levado o povo do Icuriã a fazer, em poucos horas, um campo de pouso que permitiu um pequeno avião saído de Rio Branco salvar a vida de uma liderança local que havia se ferido gravemente com o manuseio de um terçado. O asfalto rumo ao Icuriã pode significar muita coisa para os seringueiros daquela região também de grande biodiversidade florestal. Além da borracha e da castanha, as famílias vão poder tirar mais facilmente dos seringais o excedente de sua produção agrícola para vendê-la nas cidades e ampliar as rendas. Mas aqui é que entra a grande discussão que cerca a prática da florestania defendida por Wilson, Chico e o Jorge Viana, que governou o Acre por oito anos apesar de a oposição ter pregado àquela época que os “macacos” não elegeriam o propalado “menino do PT”. Jorge Viana tratou de levar a infra-estrutura urbana e rural por todo o estado. Ela está aí, como está o asfalto que agora adentra o interior da rica floresta entre o Acre e o Iaco. Para que vai servir esse progresso? É a pergunta que mais importa hoje não só para o Icuriã, mas para todo o Acre. Servirá apenas para vender borracha, castanha e o excedente agrícola? É muito pouco para um estado com uma floresta tão rica como é a acreana, que tem contabilizado em muitas de suas regiões percentuais de biodiversidades mais elevados do planeta. Tomando o exemplo do Icuriã, no atual contexto da florestania, o grande desafio agora - do governo, dos políticos, das ONGs e das populações tradicionais do estado - tem de ser a exploração sustentável de produtos a partir das matérias-primas existentes em abundância dentro daquela região florestal. Nesse sentido, o Icuriã poderia se transformar num projeto piloto para a consolidação da florestania não só no Acre quanto em toda a Amazônia. Ali, poderiam ser fabricados de forma sustentável produtos a partir de sementes, essências, resinas, madeira, bambu, borracha, castanha e outros. Isso sem falar em atividades de ecoturismo, muito apreciado pelos milhares de turistas internacionais que, a partir de 2009, sairão mais intensamente de Cusco, descendo a Cordilheira dos Andes pela pavimentada Rodovia Interoceânica, para conhecer a grande floresta amazônica. Seria deveras interessante, por exemplo, levar asiáticos das pousadas a serem construídas na Reserva Chico Mendes para fazer um “látex-tur” ou um “castanha-tur” por dentro da floresta. Eles vão adorar e trazer mais gente nos próximos anos. E muitos vão querer esticar o passeio pegando a BR-317 em direção à Boca do Acre para chegar a Manaus e a Belém, na rota que deve se transformar nos próximos ano no maior corredor de ecoturismo do planeta. A experiência do projeto piloto de uso múltiplo florestal do Icuriã será a única forma capaz de consolidar a florestania, que só poderá ser alcançada com a geração de trabalho e renda dentro da própria floresta. Sem esses projetos, a infra-estrutura construída por Jorge e ampliada por Binho Marques servirá apenas para transformar o Acre num grande corredor de caminhões entre o Pacífico e o Atlântico. Levando madeira e carne bovina, que podem reduzir a pó a grande floresta acreana, a começar do quase um milhão de hectares que formam a Reserva Extrativista Chico Mendes, que hoje já vem sendo ameaçada pelo avançar da pecuária familiar. A hora, portanto, é do projeto piloto. * Jornalista
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