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| Elson Martins | |
Acusado de puxa-saco de Chico Mendes, Ivair, que segundo o pai José Igino “não portava nem um canivete como arma”, estava ameaçado pela família Alves (Darli, Darci e Oloci), da fazenda Paraná. Os assassinos, não identificados até hoje apesar das evidências, aguardavam-no de emboscada: deram dois tiros de espingarda calibre 12 e, em seguida, mais seis de revolver - o último à queima-roupa, na cabeça. Ivair arrastou-se pela estrada empoeirada que avermelhou com o sangue de mais um crime impune. Quinta-feira, eu e Júlia Feitoza testemunhamos um acontecimento emocionante: acompanhamos Uerli, hoje com 18 anos, ao local de seu primeiro emprego. Ele vai trabalhar no viveiro de mudas da Secretaria de Florestas, do governo do Acre, como beneficiário de um programa de empreendedorismo social bancado pelo Estado. Até bem pouco tempo, a taxa cobrada com base nas licenças de desmatamento autorizadas pelo Ibama ia para os cofres do órgão federal e nada se sabia sobre a aplicação do recurso arrecadado. Agora, esse dinheiro vai para um Fundo de Investimento Social controlado pelo Estado. Graças a esse fundo, que pode arrecadar até 300 mil ao mês em algumas épocas, Uerli e outros 70 jovens estão sendo contratados e inseridos no mercado de trabalho.
Além do primeiro emprego, Uerli ganhou uma bicicleta para se deslocar até a escola e ao local de trabalho. O transporte foi conseguido por iniciativa da Júlia, presidente do CTA (Centro dos Trabalhadores da Amazônia), que pediu ajuda a políticos do PT. Assim, o Estado faz um pouco de justiça ao sindicalista Ivair, que deu sua vida pela causa dos povos da floresta. Solução sem mistério A propriedade de apenas um hectare dos avós de Uerle fica no Ramal do Benfica com o nome Chácara Coração de Jesus e número 168. O ramal está sendo preparado para pavimentação com asfalto, o que vai facilitar muito a vida dos pequenos produtores assentados ao longo do mesmo. Embora magoado com a perda do filho Ivair, o sr. José Igino, aos 70 anos, fala com animação sobre sua vida no Acre. Ele diz que esta é uma terra abençoada em que, “se plantando tudo dá.” De fato, em sua pequena chácara ele planta várias espécies frutíferas e cultiva uma horta com sucesso. E agora está se cadastrando para produzir até 20 mil mudas anuais de 39 espécies recomendadas pela Secretaria de Florestas. Sua casa foi construída em alvenaria, é toda limpa e bem arrumada. Cuidadoso, ele mandou construir um poço artesiano que fica dentro da cozinha, para evitar furto. Dali bombeia água para uma caixa erguida no quintal, que alimenta várias torneiras. Nascidos no município Mendes Pimentel, em Minas Gerais, José Igino e a esposa, Luzia Siqueira (65), cultivam hábitos alimentares de sua região. Sabiamente, porém, agregam costumes e sabores acreanos. Assim, a vida deles é enriquecida e passa a servir de exemplo. Quem não gostaria de experimentar um tutu à mineira, feito no capricho, e em seguida tomar um suco de cupuaçú? BRINCA NÃO! Leila Jalul* A parte negra de minha família era muito bonita. Bonita e engraçada. Negros altos, senegaleses, lábios de rosa. Aí uma negra casou com um branco, uma branca casou com um negro e foi nascendo aquela mestiçagem valente. Homens e mulheres não se diferenciavam quando o assunto era valentia. Ora o branco predominava, ora o negro dizia: estou aqui. Assim conheci tio Benedito, casado com Deolinda que moravam no rabo da besta. Tia Lucília, casada com o maestro Pedroca. Do fruto desses , ninguém era nada meu, apenas primos de minha mãe. Dessa Lucília, nem quero saber. Era a parte ruim. Genética desastrada. Filhos do orgulho. Eram irmãos: Benedito, Lucília e Raimunda. Esta última, não aceitando rimar com bunda, mudou seu nome para Dulcinéia. Mudou em cartório. Tudo de maneira muito fácil, já que os cartórios eram umas perfeitas barafundas.
Desse povo, quem mais me chamou a atenção foram vovó Dulcinéia (ex-Raimunda) e tio Benedito. Dulcinha casou com vovô aos 12 anos e teve mamãe aos 13, aos 15 já estava separada, com o mesmo destino das mulheres do seu tempo. Fugindo das peias, foi catar vender siri e caranguejo em Belém, sina mais aprazível do que viver com o velho libanês. Ciúmes impediam a harmonia entre casais. Era o tempo da antropofagia. Gente comia gente e fim! Mamãe conta que vovô colocava a cinza do charuto no degrau da escada de madeira, dava uma cusparada em cima e saía. Ao voltar, se chegasse e a cinza estivesse amassada, era sinal de que um macho pisou na arapuca para estar de amores com sua escrava. Tio Benedito e Deolinda eram mais lights. Tiveram Ozarinda como filha. Beleza pura. Brava mulher! E falar de Olinda? Negra linda, bonachona, feliz, de bem com a vida. Tiveram José e Raimundo, os magarefes, e outros que esqueci. Ai, ai, Tio Benedito! Contador de histórias, sempre jurando que era macho até debaixo d’água. Acabaria com a própria vida no dia em que não fosse mais. Ai, ai, tio Benedito Doidão Mourão. Cometeu a maior besteira no dia que o mourão não subiu mais. Aquela maldita corda no pescoço, símbolo da mais pura ignorância! Ai, ai...ai, ai. Dulce não teve muita sorte. Vivia de favor na Travessa Maurity, em Belém, e foi atropelada numa avenida no bairro da Pedreira quando pensava chegar em casa e fazer a janta do seu homem, o Dico, que, para completar, ainda vivia com a outra mulher e filhos. Ai, ai, Dulcinéia! Ai, ai! Dulce e Benedito, pessoas boas e destinos infames. Ai, ai. Brinca não! * Advogada e escritora |
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