COTIDIANO

Acre: Estado conquistado a ferro e fogo

Tancredo Neves foi o padrinho da elevação do Território do Acre a Estado nos 100 dias em que foi primeiro-ministro do Brasil

 

Arquivo/Lauro Santos
Foto retrata solenidade realizada na esplanada do
Palácio Rio Branco no governo de Guiomard Santos


Juracy Xangai

“Abri as portas de um novo Estado, está dado o primeiro passo, eu creio nos acreanos. Eles caminharão para o progresso”, afirmou enfaticamente o senador José Guiomard Santos logo depois de ver promulgada pelo presidente João Goulart a lei 4.070, que no dia 15 de junho de 1962 elevou o Território do Acre à categoria de Estado, dando autonomia política e financeira ao seu povo.

Estava vencida naquele momento a luta iniciada durante a Revolução Acreana quando o exército seringueiro tomou à força de bala estas terras que pertenciam à Bolívia para incorporá-las ao Brasil. Enquanto as coisas se resolviam, o comandante da Revolução, coronel José Plácido de Castro, criou o Estado Independente do Acre, demonstrando o firme propósito pela autonomia da nova unidade que se formava.

Autonomia logo abafada com a transformação do Estado em Território totalmente dependente e subordinado à União, que se beneficiava da fortuna gerada pela economia da borracha.

Mas não tardou para que de 1904 a 1920 a população se levantasse em armas contra aquela situação. Em 1918 houve batalhas nas ruas da atual Rio Branco e muitos morreram quando os moradores do Segundo Distrito, que defendiam a elevação a Estado, enfrentaram os moradores de Penápolis (Primeiro Distrito), os unionistas, que defendiam a permanência do Acre como Território.

Essa arenga ganhou mais calor de 1930 a 1946, quando os militantes da Legião Autonomista, apelidados “urucubacas”, e os do Partido Construtor (unionistas) eram o “Corocas”. A luta teve continuidade e ganhou novas proporções a partir de 1946 com a criação do PTB, que era contra e do PSD, a favor da autonomia.

Duelo de titãs

Logo a figura do general Oscar Passos, líder do PTB, destacou-se na luta contra a elevação do Território a Estado, o que era defendida pelo então presidente do PSD, major José Guiomard dos Santos, eleito e reeleito deputado federal com a promessa da elevação.

Os dois lados, na verdade, queriam a autonomia. A rivalidade ganhava corpo porque foi José Guiomard quem apresentara o projeto de lei ao Congesso Nacional em 1957. A defesa de um ou outro ponto de vista foi a forma usada pelos dois líderes políticos locais para atrair seus eleitores.

Oscar Passos exerceu uma oposição competente contra José Guiomard, conseguindo que seu projeto de lei ficasse amarrado até 1962, quando a crise política levou à renúncia do presidente Jânio Quadros, levando João Goulart à Presidência.

“Tancredo Neves, conterrâneo e amigo pessoal de José Guiomard, há muito testemunhava sua luta pela elevação do Território do Acre a Estado, mas era vencido pelas forças aliadas de Oscar Passos. Tancredo era o primeiro-ministro dos 100 dias em que o Brasil viveu sob o regime parlamentariasta. Ele convenceu o presidente Jango, que era do PTB de Oscar Passos, a assinar a promulgação da lei 4.070 proposta por Guiomard, que era do PSD, ou seja, da oposição. Isso não teria acontecido naquele momento se não fosse o apoio de Tancredo Neves”, explica Lauro Santos, neto do senador José Guiomard Santos.

Formado em administração de empresas com especialização na Fundação Getúlio Vargas, Lauro Santos hoje vive no Acre, onde trabalha no Sebrae e aproveita as horas vagas para conversar com os autonomistas ainda vivos a fim de resgatar a história do avô. “Conversei e ouvi muitas histórias de meu pai, José Aires dos Santos, que na época era cadete da Aeronáutica e presenteou Guiomard com a caneta Parker que ele usou para assinar a promulgação da lei 4.070 e que hoje está exposta no Memorial dos Autonomistas.”

Ele lembra que, embora Guiomard fosse mineiro e tivesse sido nomeado em 1946 para governar o Acre, logo que chegou abraçou a causa autonomista com todas suas forças. “Segundo o Agnaldo Moreno, ele teria iniciado a redação da proposta de lei de elevação do Acre numa casa localizada junto à gameleira, no Segundo Distrito. Ela foi aperfeiçoada depois e apresentada para apreciação no Congresso. Todos destacam a influência positiva exercida por dona Lydia sempre ao lado do marido realizando obras sociais e apoiando suas lutas.”

Embora fossem adversários ferrenhos nos palanques e professassem ideologias e propostas inconciliáveis, não eram inimigos no campo pessoal, recorda Lauro. “Eles disputavam palmo a palmo seus espaços, atacavam-se políticamente e em suas propostas, mas no campo pessoal eram amigos e se respeitavam. Eram outros tempos.”

 

 
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Rio Branco-AC, 15 de junho de 2006
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