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Sandra Starling * |
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Futebol tem dessas coisas Futebol tem dessas coisas. Serve até para recordarmos algumas memoráveis lições de política. Na última sexta-feira, talvez bilhões de pessoas, mundo afora, tenham assistido à festa de abertura da Copa do Mundo, em Munique, e se sentido estimulados a lutar pela paz e fraternidade entre os povos! Que cessem as guerras, pois é tempo de festejar! Nessa atmosfera de boa vontade, tudo me levava a lembrar o episódio ocorrido no Natal de 1914, retratado no livro de Stanley Weintraub, Silent Night: The World War I Christmas Truce (Noite Feliz: A Trégua de Natal na Primeira Guerra Mundial) e na bela música de Paul McCartney, Pipes of Piece (Cachimbos da Paz), quando, na região de Flandres, na Bélgica, os soldados resolveram empilhar os capacetes e bonés para marcar o gol: alemães e austro-húngaros de um lado, belgas, franceses e ingleses de outro! Um atento soldado observou que o descampado, onde eram escavadas as trincheiras, parecia ter dezenas de quilômetros. Durante a trégua, que os pobres coitados reivindicavam prolongar indefinidamente, perceberam que a distância que os separava não passava das dimensões de um campo de futebol. Quem haveria de esquecer, ante tal espetáculo de congraçamento, do jogo entre Irã e EUA, na Copa de 1998, em que, não obstante a vitória dos iranianos por 2x1, todos se confraternizaram, trocaram flores e tiraram fotos juntos? Em 74 a Alemanha Oriental ganhou o jogo contra a Alemanha Ocidental, mas essa ganhou a Copa. Todos se abraçaram e hoje o país é um só! Que tal recordarmos a passagem do Santos por Brazaville e Kinshassa, em 1969, quando as forças armadas do Congo e do Zaire (hoje República Democrática do Congo), então em conflito, decretaram um armistício, para que todos pudessem assistir às maravilhas do Rei Pelé? Cinco jogos em nove dias, nove dias de paz! Um rei sem território, mas com tantos súditos, por todos os continentes que, certa vez, jogando na Colômbia, ao ser expulso, provocou uma estranha ira na torcida adversária, que “expulsou” o severo juiz, para que o soberano de um gramado de cerca de 7000 metros quadrados pudesse continuar a encantar a todos. E o que dizer dos haitianos que, em 2004, em meio ao caos da guerra civil, agitavam, na torcida, as bandeiras do Brasil com o mesmo entusiasmo com que empunhavam o pavilhão do próprio Haiti e vibravam com os gols de nossos canarinhos? Assim como já propunham os helênicos, quando criaram os jogos olímpicos, baixemos as armas! Como tudo na vida comporta a exceção, não dá para esquecer que Honduras e El Salvador foram à guerra, durante quinze dias, por conta de uma vaga na Copa do Mundo do México, em 1970. Dezenas de milhares de mortos. Hoje, porém, os dois países se irmanam; constroem, com o auxílio de brasileiros, uma importante hidrelétrica na região de fronteira. Muito me emocionei, na última sexta-feira, sobretudo, com o inesquecível desfile dos campeões mundiais de todos os tempos. A muitos deles, em outras épocas, já dirigimos os piores palavrões! Até mesmo Gigghia, o uruguaio que, em 1950, calou o Maracanã e amaldiçoou, para sempre, o goleiro Barbosa, lá estava presente para as justas homenagens. E não devemos deixar de aplaudir o genial hermano Diego Maradona, que hoje vai ganhando o mais importante de seus campeonatos: a luta contra as drogas... Como bem destacou Hans Koehler, Presidente da Alemanha, por ocasião da abertura da Copa, “möge der Fußball die Völker verbinden”: possa o futebol unir os povos! * Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC) |
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