ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Ruizynho, a carpideira-mor

Leila Jalul *

Ruyzinho tinha um olfato aguçado. Tão aguçado que metia medo. Farejava velórios como ninguém. Muitas vezes, acreditei quando ele dizia que as almas dos futuros defuntos lhe davam o aviso, com antecedência mínima de duas horas.

Segundo me dizia, mal acordava uma sensação ruim, uns arrepios nas costelas tomavam de conta de seu corpo e mente. Era bater e ver: morreria alguém logo mais. Nunca paguei pra ver, claro!

Em vida ele teve uma paixão especial pelo barão Mesquita e sua esposa Olívia. Também nutriu um sentimento de quase veneração pelo pai do Acre e sua esposa, respectivamente. Era Deus no céu e o coronel Guiomard Santos e dona Lídia Hammes na terra.

Baixo, um tanto gordinho, tinha uma cara muito engraçada, e no olhar um muito de muito cinismo. Normalmente falava sério, mas, o sério só era sério, de verdade, quando levantava a sobrancelha do olho direito quase encostando ela na base dos cabelos da testa. Quando não, era senvergonhice mesmo!
Teve amigos de todas as tintas e pintas. Era capaz de ser confidente de maridos e mulheres que pulavam cercas, sem dar um único fora. Com eles formava uns triângulos fiéis de infidelidade. Tanto sabia das coisas de um como das do outro, e, de cátedra, dava excelentes conselhos aos “amigos”.

Quando contava uns segredos, dizia logo: conto o milagre, mas não digo o nome dos santos, tá certo? Tá certo, dizia eu. Quero saber é da fofoca, meu filho! Desembucha logo, vai! No fim do papo, depois de insistir pouco, não resistia e contava o nome dos santos.

Um belo dia morre um marido pulador de cerca e dele recebo uma ligação, já de madrugada.

- Comadre, sabe quem morreu?

- Sei não, diz logo! Isso são horas de alguém morrer?

- Porra, comadre, a jararaca quer que eu redija uma nota, me ajuda! Passo na tua casa e levo para as rádios e jornais. Ajuda?

- Vem logo, cara!

- Dá um tempo. Estou procurando uma roupa para vestir no homem. Tá uma bagunça doida, mas a mulher não quer nem saber de nada. Tá é morta de feliz!

- E quem vai assinar a nota? E pagar rádios e jornais? E bancar os funerais?
- Sei lá, comadre. Isso se vê depois. Bota aí em nome da família daquele que em vida se chamou...

- Não dá, cara. O homem não tem família aqui. A família é a mulher.
- Põe em nome dela. Vou dar um jeito. Não esqueça de usar a palavra “consternada”. É muito bonita.

- Tá bem.

Enfim, redigi a nota e entreguei. Fui dormir. Ele, incansável, mesmo com cara de sono, foi tomar as últimas providências.

De noite, passado o enterro, me liga o Ruy:

- Comadre...

- Diz Ruy, como foi o enterro?

- Comadre, a mulher não queria chorar, nem para posar de vítima. Nem de raiva. Nem de nada. Cheguei perto dela, quando entrou uma autoridade e pedi, ao pé do ouvido, que ela pelo menos passasse o lenço no rosto e fungasse, sabe o que ela disse?

-Não.

- Vai te fuder!

-Sim, e aí?

- Aí, sobrou pra mim.

- Sim, Ruy, tu chorou por ele ou por ela? Cantou as Incelenças?
- Ince...o que, Comadre? Chorei pelo dever cristão. Aquela criatura ali, imóvel, sem pai, sem mãe, sem filhos...

Acho que chorei por mim, sabe?

- Tá bom, depois a gente se fala, nem que seja para, por dever cristão, eu te dar uma bela duma esculhambação.

- Comadre... a senhora não tem coração...

- Vai, Ruy, vai descansar e enxugar essas lágrimas de crocodilo cristão. Vê se o morto de hoje morre mais cedo e me liga. Quero saber de tudo, tá bem?
- Tá.

A grande especialidade de Ruyzinho era ser consolador de viúvas. Uma delas, bem abalada, não parava de sentir-se mal durante o sepultamento. Mas ele estava lá, amparando e repetindo as famosas frases: era chegada a hora, conforme-se com a vontade de Deus e outras que ele mesmo inventava.

Morre um senhor, de boa índole, trabalhador e honesto. A viúva entra em choque.

Sobre esta senhora, Ruyzinho me ligou bastante “consternado”.
- Comadre, Dona Eliene (fictício) deu um trabalhão. Acho que deu umas cinco piloras na beirada do túmulo aberto. Também, além do padre, mais três discursos... Ô povim!

- Pôxa... , mas conseguiram trazê-la para casa?
- Claro!

- Cinco chiliques e agüentou?

- É... Ela entrou no carro e desmaiou de novo. Eu sentei de um lado, Jonas do outro, e a seguramos para não cair. A senhora lembra daquele filme que o cara (El Cid) atravessava a cidade, mortinho, e o pessoal pensava que ele tava vivo? Como é o nome dele?

- É Ben- Hur, Ruyzinho!

- Isso mesmo, comadre. Ela chegou mortinha, mas triunfante! Igualzinha ao Ben- Hur. Demos uns chás de maracujá e ela foi melhorando, melhorando....
- Que bom!

- Agora nós vamos ver é como os meninos vão se comportar na hora da herança. Sei não, isso vai feder.

- Calma, Ruy, isso é outro assunto!

Tempos atrás morreu meu compadre Ruy. Quando fiquei sabendo, sorri muito. Dele restaram só lembranças amigas, engraçadas, e a constatação: já não há mais carpideiras criativas, que nem meu compadre Ruy.

Requiescat in pace!

* É procuradora aposentada da Unversidade Federal do Acre. E-mail: leilajalul@gmail.com

 

CORREIO

A escritora acreana Leila Jalul está residindo atualmente em Porto Seguro, na Bahia. Suas histórias estão sendo publicadas no site www.limacoelho.jor.br. Em 2007 ela publicou dois livros em Rio Branco (AC): “Suindara” e “Absinto”, este com distribuição restrita entre amigos. São obras criativas que fala de personagens acreanos com graça e verdades pinçadas do fundo da alma, deles e da autora.

A história do Ruyzinho, conhecido relações públicas e cerimonialista do Governo do Acre e da Universidade (UFAC) nos anos setenta\oitenta, provocou mais 30 comentários no blog do Lima Coelho. Vejam alguns:

* ahahahahahha, adorei. Ô Leila, vc deve ter mais estripulias do Ruizynho pra contar, né? Pois conte, mulher! (Palmira Piancó)

* Leila, o Ruizynho virou uma estrela no firmamento do seu amor por ele ( Maria Helena da Costa)

* Uma crônica muito boa. A personagem, nem dá pra falar, de tão especial (Simone Reis)

* Os amigos do site do Lima Coelho devem ter percebido que sou memorialista. E por ser, devo ser fiel. Aos 60 anos, muita coisa se perdeu, quando não na memória, no tempo. Ruizinho, era assim que ele assinava, tinha uma insensata vida marvada. Cheia de danadices, boas e marvadas.Algumas conversas que tive com ele são impublicáveis. Por bom senso, conserva-las-ei assim. As heroinas e os heróis de seus quadrinhos são ainda vivinhas e vivinhos da silva. O importante é deixá-lo no coração. A cada instante poderei relembrar algum episódio contável. Contarei, disso estejam certos. O caminho de meu compadre e o meu nem sempre estiveram floridos. Disso também estejam certos. A próxima crônica que mandarei para o poeta não vai ser alegre. Também sei ser triste e relembrar as pauladas na moleira. Enquanto puder, serei alegre.

Cacetadas são sempre cacetadas. Um agradecimento enorme aos que me leem e comentam. Minha vida está melhor agora. (Leila Jalul)

* Leila escreve muito bem e com um delicioso senso de humor, o que me faz adorar suas crônicas e ser sua admiradora.(Odele Souza)

* Leila, o Ruyzinho era dos bons. Deve estar no céu curtindo com suas amadas que por lá já chegaram (Edna Goiabeira)

 
 
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Rio Branco-AC, 15 de junho de 2008
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