ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias

Entrevista com o sertanista Meirelles (parte V)

O papo de hoje retorna à entrevista-depoimento do sertanista Meirelles, interrompida pela publicação do documento do IV Encontro dos Povos Indígenas da Fronteira Acre-Ucayali, realizado na aldeia APIXTXA, nos dias 26 a 29 de maio de 2008.

Meirelles nos fala de sua primeira viagem de reconhecimento dos povos isolados nas cabeceiras dos rios Jordão e Envira e igarapé Imbuia, em 1987, acompanhado pelo nosso saudoso amigo, Sueiro Sales Cerqueira, e bons mateiros Kaxinawá como o Miguel Macário e o Carlito Cataiana Neto, além do Jorge Nazaré, também já falecido, e do Roberto Lozano, enfermeiro da Funai, hoje trabalhando na Funasa.

Na década de 80, ocorriam graves conflitos entre índios isolados, de um lado, e integrantes dos grupos Kaxinawá do Jordão e Kampa do Envira, bem como dos seringueiros cariús do alto Tarauacá, de outro. Os Kaxinawá falavam dos “brabos”, ou Jaminawa, na sua língua hãtxa kuin, que viviam principalmente em afluentes do alto rio Juruá peruano. Afirmavam que grupos de brabos do Peru, especialmente no verão, percorriam os seringais dos altos rios para saquear as casas ocupadas por suas famílias e as barracas dos seringueiros dos altos rios Tarauacá e Douro.

Em decorrência desses freqüentes roubos e conflitos armados, as lideranças Kaxinawá e Kampa passaram a reivindicar junto à Funai a criação de uma frente de atração para amansar os brabos.

Depois de sua viagem inaugural como sertanista pelos altos rios acreanos, Meirelles decidiu pela instalação da Frente no alto rio Envira, onde nas duas últimas décadas vem trabalhando na proteção das terras ocupadas por índios isolados. Inicialmente chamada Frente de Atração Rio Jordão, logo depois de sua criação, em 1988, passou a ser denominada Frente de Contato Rio Envira e, a partir de 1997, Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira. Não se trata apenas de uma mudança de nomes, mas de uma nova política indigenista em relação aos povos isolados. A nova proposta agora é a de não fazer mais a atração nem o contato, mas a de regularizar e proteger as terras tradicionalmente ocupadas pelos isolados.

Vinte anos depois daquela primeira viagem, e após recente sobrevôo realizado nas cabeceiras do rio Humaitá, afluente do Muru, e nos igarapés Riozinho, Furnanha e Xinane, tributários do alto Envira, Meirelles constatou a existência de três conjuntos de malocas de brabos no lado acreano da fronteira, em parte decorrente da intensificação da exploração predatória de madeira na região do alto Juruá peruano.

Na última década, praticamente toda a selva peruana foi loteada para atividades madeireiras. Em decorrência dessas concessões governamentais, madeireiros ilegais e grandes empresas de Pucalpa, como a Forestal Venao SRL certificada pelo FSC, têm sido os principais responsáveis pela grande “detonação” da selva peruana, especialmente ao longo da fronteira internacional. A intensificação dessa exploração predatória de madeira, segundo denúncias formuladas pelos Ashaninka da APIWTXA, tem provocado a invasão do território brasileiro, em partes da Terra Indígena Kampa do Rio Amônea, do Parque Nacional da Serra do Divisor e da Reserva Extrativista do Alto Juruá. Tais denúncias apresentadas às autoridades federais e estaduais demonstram o zelo com que os Ashaninka vêm defendendo a soberania nacional.

No lado peruano da fronteira, especialmente nos altos rios Amônia e Juruá, tanto territórios de comunidades Ashaninka quanto reservas territoriais destinadas à proteção dos povos em isolamentos voluntários encontram-se hoje sobrepostos por concessões madeireiras e petrolíferas.

A restrição de seus territórios tradicionais, já oficialmente reconhecidos, e o risco da ocorrência de novas “correrias” têm levado alguns grupos isolados a migrar para o território acreano e se estabelecer em terras indígenas ocupadas por índios Kaxinawá, Ashaninka e Madijá (Kulina).

Vamos, então, dar prosseguimento às conversas do velho do rio de muito sol. Novamente com a palavra o nosso valoroso sertanista do Envira. Fala aí, Meirelles (Txai Terri Aquino e Marcelo Piedrafita).

Os isolados no documento do IV Encontro dos Povos Indígenas da Fronteira Acre-Ucayali

I- Alguns processos atualmente em curso na selva peruana.

* As repercussões que as atividades madeireiras do lado peruano continuam a causar do lado brasileiro da fronteira, na forma de impactos negativos sobre diferentes recursos naturais (contaminação das águas dos rios, invasões, caçadas e pescarias), o estabelecimento de novas comunidades no limite fronteiriço (especificamente no rio Breu), constrangimentos e ameaças a comunidades indígenas há anos estabelecidas do lado brasileiro (Kaxinawá e Ashaninka), a migração forçada de grupos indígenas isolados para as cabeceiras do rio Envira e ataques a tiros, feitos por desconhecidos, a integrantes da Frente de Proteção Etnoambiental que a Funai ali mantém.

* A preocupante situação de violação dos direitos humanos e territoriais dos povos isolados que vivem do lado peruano, ameaçados pelas atividades ilegais realizadas por empresas madeireiras nas Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro, resultando em correrias, contatos forçados, doenças, trabalho compulsório e, inclusive, em migrações recentes rumo ao território brasileiro. No Estado do Acre, apesar da proteção garantida pela legislação e oferecida por ações da Coordenação Geral de Índios Isolados (CGII), da Funai, é eminente a possibilidade de conflitos armados com povos indígenas e famílias de seringueiros e agricultores que vivem em terras indígenas e áreas de antigos seringais situados ao longo e nas cercanias da fronteira internacional.

* Quanto às atividades petrolíferas, ACONADIYSH, ACONAMAC e comunidades presentes externaram sua preocupação e seus posicionamentos contrários à política adotada pelo governo peruano de outorgar áreas de floresta a empresas, nacionais e transnacionais, para a prospecção e exploração de petróleo e gás, frequentemente sobrepostos a territórios indígenas, em reservas territoriais destinadas a índios isolados e em áreas naturais protegidas.

II- Recomendações das organizações indígenas peruanas

* Exigir do governo peruano políticas efetivas para a efetiva proteção dos direitos humanos e territoriais dos povos indígenas isolados que habitam nas Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro e no Parque Nacional Alto Purus e para uma definitiva interrupção das atividades ali promovidas por madeireiros ilegais.

* Da mesma forma, exigimos urgentes medidas para uma efetiva proteção da Reserva Territorial Isconahua e a definitiva anulação das concessões petrolíferas e de mineração sobrepostas a essa Reserva.

III- Recomendações das organizações indígenas acreanas

* Demandamos que proteção seja garantida aos limites das Reservas Territoriais Murunahua e Mashco-Piro, bem como do Parque Nacional do Alto Purus, que constituem territórios de habitação permanente de índios isolados e que atualmente sofrem invasões de madeireiros ilegais, que vêm ocasionando a migração de parte destes povos para terras indígenas em território brasileiro, como comprovado em sobrevôo realizado em abril de 2008 pela Frente de Proteção Etnoambiental, da Funai, nas cabeceiras dos rios Humaitá, Envira, Riozinho e Xinane, nas imediações do Paralelo de 10º S, na linha da fronteira Brasil-Peru.

* Recomendar que o Governo do Estado do Acre firme convênio com a Coordenação Geral de Índios Isolados, da Funai, visando o fortalecimento das atividades da Frente de Proteção Etnoambiental Rio Envira, com a criação de um posto avançado de vigilância no rio Santa Rosa e a identificação de locais onde a futura instalação de postos se torne necessária.

* Reivindicar que a Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira, e os postos a ela jurisdicionados, garantam a participação das comunidades indígenas no trabalho de vigilância e fiscalização das terras ocupadas por povos isolados, especialmente no caso daquelas terras compartilhadas com esses povos (TI Kaxinawá do Rio Humaitá e TI Kaxinawá do Rio Jordão).

IV- Compromissos comuns das organizações indígenas brasileiras e peruanas

* Exigir que os governos peruano e brasileiro cumpram o previsto na Convenção 169 da OIT e na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas quanto à promoção de consultas, prévias, consentidas, informadas e de boa-fé, às comunidades e organizações indígenas sobre as políticas oficiais de desenvolvimento e integração que venham a afetar seus territórios e modos de vida.

* Reivindicar que os governos do Brasil e do Peru implementem uma política fronteiriça comum voltada prioritariamente à conservação do meio ambiente e da biodiversidade e à efetiva proteção aos direitos dos povos indígenas, garantindo a plena participação desses povos no delineamento e execução dessa política.

* Reivindicar a definitiva interrupção de atividades de exploração madeireira feita por empresas e em concessões florestais situadas ao longo da fronteira internacional Peru-Brasil.

* Reivindicar a definitiva revogação das concessões feitas pelo governo peruano para a exploração de petróleo e gás ao longo da fronteira internacional com o Brasil.

* Externar nossa preocupação quanto à concessão do Lote 110, feita pelo governo peruano à Petrobras para a exploração de petróleo e gás, sobreposta aos territórios de comunidades nativas situadas no alto rio Juruá e a Reserva Territorial Murunahua, sem qualquer processo prévio de consulta.

A primeira viagem do sertanista pela região do Alto Juruá



Elson:
A partir de 1987, você começou a trabalhar na proteção aos índios isolados na fronteira do Acre com o Peru. Conte aí como foi essa mudança de indigenista no alto rio Iaco para sertanista nas cabeceiras do Envira?

Meirelles: Pois é, Elson, essa mudança aconteceu na minha vida por conta de inúmeros conflitos entre índios isolados e Kaxinawá nas cabeceiras do rio Jordão. Por causa desses conflitos, que também envolviam os isolados e Kampa no alto rio Envira, me convidaram para chefiar a Frente de Atração do Rio Jordão, que o então recém criado Departamento de Índios Isolados da Funai pretendia instalar na região dos altos rios Jordão, Tarauacá e Envira.

Aí eu aceitei iniciar a instalação dessa Frente. Posso dizer que foi por demanda dos Kaxinawá (Huni Kuin) e dos Kampa (Ashaninka) que me tornei sertanista aqui no Acre. Esse convite foi feito, sem dúvida, em decorrência de minhas experiências anteriores com índios Urubu Kaapor e Awa Guajá isolados no Maranhão, no início da década de 70, como já falei pra vocês anteriormente.

Txai: A idéia dos Kaxi e dos Kampa, hoje conhecidos como Ashaninka, era a de amansar os brabos, não é mesmo?

Meirelles:
Era sim, claro. Aliás, essa é a idéia de todos os índios contatados que moram perto ou compartilham terras com os isolados. “Amansa os brabos pra tomar caiçuma com a gente, Meirelles. Flechar a gente não dá certo, não!”, diziam os Kaxinawá quando cheguei lá no Jordão pela primeira vez. O certo é que antes de instalar a base da então chamada Frente de Atração do Rio Jordão, preferi inicialmente fazer uma viagem de reconhecimento pelas cabeceiras dos rios Jordão, Imbuia e Envira. Subi o rio Tarauacá, navegando em um pequeno batelão, até a Vila Jordão. Naquele tempo, ainda era Vila Jordão. Foi apenas em 1992 que aquela pequena vila transformou-se na sede do novo Município de Jordão. Se não me engano, em 1987, o Txai Terri era o administrador da Funai de Rio Branco. Aliás, foi ele quem me indicou o Carlito Cataiano Kaxinawá e o Jorge Nazaré para me acompanhar naquela viagem inaugural como sertanista. O Carlito conhecia bem a região e os Kaxinawá do Jordão. Então, naquela viagem de 87, foram comigo o Carlito e o Jorge Nazaré. O Jorginho naquele tempo andava muito pela Comissão Pró-Índio e era meu amigo. Levei ainda o Roberto Lozano, um bom enfermeiro da Funai, hoje trabalha na Funasa. Subimos junto o rio Tarauacá até a Vila Jordão. Logo que chegamos à foz do Jordão, vimos que o rio estava muito seco, porque era no auge do verão. A gente deixou nosso barco na Vila Jordão e alugamos uma canoinha pequena pra subir até as cabeceiras daquele riozinho. Fomos parando em quase todas as aldeias Kaxinawá. Quando chegamos à aldeia Natal, passamos dois dias conversando com o Sueiro Sales Cerqueira, velho patriarca do povo Kaxinawá do rio Jordão. Depois de muita caiçuma e de muita conversa sobre os brabos, convidei o Sueiro pra seguir viagem junto com a gente. Pretendia varar pela mata das cabeceiras do Jordão até o alto Envira. Com todo aquele seu desprendimento, Sueiro topou na hora fazer essa varação. Ainda indicou o Miguel Macário e outros Kaxinawá para seguir junto com a gente, porque eram bons mateiros. Continuamos subindo o Jordão junto com o Sueiro e já com a turma toda. Fomos de canoa e ubá até a aldeia Novo Segredo, na antiga sede do Revisão, último seringal daquele rio, onde moravam o Agostinho Manduca Mateus e seus cunhados, entre eles o Francisco Sabino. Passamos uns dias por lá nos preparando pra subir o Jordão a pé, porque naquela altura o rio tinha virado um igarapezinho, impossibilitando a navegação no auge do verão. Continuamos subindo o rio cada um com sua mochila nas costas. Acampamos nas proximidades da foz do igarapé Papavô, local onde Sueiro dizia que era passagem dos brabos que moram no Peru e se deslocavam até as cabeceiras dos rios Tarauacá e Envira.

Quando chegamos à foz do Igarapé Papavô, o Sueiro falou assim pra mim:

“Meirelles, aqui é a passagem dos brabos. Eles andam muito por aqui quando vêm das bandas do Peru para as cabeceiras do Tarauacá, Imbuia e Envira”. Sueiro me mostrou até o local onde seus parentes mataram um índio brabo com tiro de espingarda. Passamos três dias caminhando pela beira do Jordão. Subimos aquele rio devagar, caminhando, parando, observando, acampando e conversando sobre os brabos que transitavam por ali. Depois disso, varamos da cabeceira do Jordão pra sair nas águas do igarapé Imbuia, tributário do igarapé Xinane, que, por sua vez, é afluente do alto Envira. Dali da cabeceira do Jordão pra sair no Envira, a gente passou por cima das cabeceiras do Tarauacá, que é um rio curto. Quando a gente desceu a terra do divisor das águas do Jordão, a gente já saiu nas águas do Envira. Você não passa mais nas águas do Tarauacá. Aí, subimos uma terra alta, que vai dividindo as águas do Jordão, das águas do Breu e das águas do Envira. Quando chegamos encima daquela terra, que também divide o Brasil do Peru, o Miguel Macário me falou assim: ”Meirelles, bem aqui encima dessa terra, daqui a duas horas, tem um marco de ferro da demarcação da fronteira”. Eu ainda brinquei com ele, dizendo: “Miguel, olha lá, como é que você sabe disso?” “Eu sei!”. “Quando você passou por aqui, Miguel?” “Ah, quando eu era rapaz novo. Mas é aqui mesmo. Quer ver, então vamos tocar pra frente”. Ele era nosso mateiro chefe, por indicação do Sueiro. Aí um pedaço eu escutei: “Tei, tei, tei!” Quando chegamos perto, vi que ele estava batendo com o terçado no marco de ferro da demarcação da fronteira internacional com o Peru. “Então, Meirelles, taí o marco que te falei”. Filho da mãe! Parecia que ele tinha um GPS na cabeça. Ainda falou assim: -“Se a gente andar nesse rumo, daqui a umas três horas vamos sair numa grotinha das cabeceiras do Imbuia, que é um igarapé que sai no Xinane, afluente do Envira. Mas se for naquele outro rumo e a gente andar o dia todinho e dormir, no outro dia por volta do meio dia, vamos sair na cabeceira do Juruá. Onde você quer sair?”. Admirado com sua precisão, respondi “Miguel, quero sair nas cabeceiras do Imbuia e depois descer este igarapé até sair no Xinane. De lá, quero descer o igarapé Xinane até o rio Envira, onde tem uma aldeia Kampa”. Foi exatamente o que aconteceu. Descemos a terra, saímos, numa grotinha, onde acampamos e passamos a noite. No outro dia, antes do meio dia, saímos no Imbuia. “Taí o Imbuia”, disse o Miguel com um sorriso maroto, como se dissesse: “Eu não disse!” Descemos Imbuia abaixo, onde já encontramos vestígios de brabos e de muitas caças. Matamos algumas caças e peixes de tiros de espingardas, antes de acampamos à tardinha. Rapaz, só os Kaxinawá comeram nessa noite nove curimatãs, três jitubaranas, três mutuns, um jacaré e uma banda de nambu azul. Como gostam de comer esses Kaxinawá. Nunca vi povo assim tão de barriga cheia. Conversando lá na língua deles, comendo muito e rindo à vontade. Nunca mais me esqueci daquela cena.

Txai: Meirelles tem aquela estória que diz que enquanto houver muita caiçuma, macaxeira temperada com folha nawãti, muito peixe e carne de caça moqueada, a língua kaxinawá nunca será extinta (risos).

Meirelles:
Andando assim na mata bruta a gente só come duas vezes por dia, de manhãzinha e à boca da noite. Cada um de nós levava farinha e sal nas costas. Ainda levei um pacote de café e um pouco de açúcar, pra fazer um cafezinho a cada três dias. Só pra lembrar, né? Levávamos farinha e sal, anzol, arco e flechas e nossas espingardas. Viajando assim, quase não se tem tempo pra nada. De manhã ninguém mata caça, porque você não vai andar o dia todinho com peso nas costas. Mas de duas horas da tarde em diante já vai matando um mutum, um porco, pegando um jabuti, enfim, dependendo da quantidade de pessoas...

Elson: O cardápio era sempre o mesmo, de manha e de noite...

Meirelles:
É isso mesmo, Elson. Á tardinha a gente acampava, fazia comida, assava carne de caça e peixe e deixava um bocado pra quebrar o jejum no dia seguinte. Quando tinha carne com fartura, ás vezes a gente deixava um pedacinho de carne assada dentro da farinha pra comer um pouquinho na hora do almoço. Assim, por volta de meio dia, na beira de um igarapé, quando a gente parava pra beber água, dava pra comer um bocadinho. Era só uma paradinha mesmo e logo íamos embora. Sei que os Kaxi se divertiram muito, comendo muita carne moqueada e peixe assado ali na beira do igarapé Imbuia, porque lá tinha e tem muita caça, muito peixe. Não é brincadeira, não!

Txai: Além da fartura de caça e peixe, o que mais te impressionou nas cabeceiras do Imbuia?

Meirelles:
Sem dúvida, foi perceber que as matas daquele igarapé Imbuia, que ficam dentro dos limites da Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira, eram muito invadidas por caçadores profissionais dos rios Douro e Alto Tarauacá. E ainda ter encontrado os primeiros vestígios de índios isolados. Descendo o igarapé Imbuia, comecei a perceber como as coisas funcionavam por ali. Como os seringais e colocações dos altos rios Tarauacá e Douro ainda estavam cheias de seringueiros, as caças já estavam escassas por lá. Então, o patrão do seringal Alegria, o Otávio Melo, e seus fregueses vinham caçar muito na mata do igarapé Imbuia, porque naquele tempo ainda não existia a Terra Indígena Alto Tarauacá. Naquela época, as cabeceiras do Tarauacá e do Douro ainda estavam cheia de seringueiros. Na cabeceira do Douro, por exemplo, tinha o seringal Alegria.

Pois bem, nessa caminhada pelas matas do igarapé Imbuia, encontramos o Otávio Melo, patrão desse seringal, junto com 12 caçadores e uma matilha de sete cachorros paulistas bons de caça que só. E ainda com cinco bois carregados de carnes de caça e peixes grandes salgados. Da sede do seringal Alegria até à margem do igarapé Imbuia é perto. Só um dia de caminhada. Pois bem, estavam acampados na beira do Imbuia, onde matavam caça à vontade. Salgavam carnes de caça e peixes grandes. Quando as cargas dos seus bois já estavam abarrotadas de carne de caça e peixe, topemos com ele e essa turma toda. Um lugar que hoje a gente chama de poço do Otávio. Eles estavam pescando de mergulho, de bicheiro. Já tinham pegado bem uns trinta jaús por lá. Eles ficaram muito assustados quando nos viram. A gente descendo o Imbuia, né? Refeitos do susto, perguntaram quem eu era. Falei que era funcionário da Funai, sertanista e que estava ali pra proteger os isolados e suas terras. E as atividades que eles estavam realizando ali eram ilegais, porque ali era terra indígena, a Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira, e que ele não poderia mais continuar invadindo aquela terra. Percebi que era necessário se criar uma nova terra indígena, a do Alto Tarauacá, para poder garantir a proteção dos povos isolados das cabeceiras do Envira. Naquela primeira viagem, estava tendo uma idéia inicial de como seria a minha atuação como sertanista naquela região dos altos rios Jordão, Tarauacá e Envira. Só depois da viagem toda, é que decidi fazer a base da Frente de Atração no Alto rio Envira, em frente a foz do igarapé Xinane, e não nas cabeceira do Jordão, como inicialmente pensado pelo Departamento de Índio Isolados, da Funai. Até pouco tempo atrás, nas proximidades da foz do igarapé Xinane com o rio Envira havia uma aldeia Kampa. Também comecei a esboçar uma primeira proposta para identificação e delimitação da Terra Indígena Alto Tarauacá, que justamente pegava o seringal do Otávio Melo e outros seringais do alto rio Tarauacá. Hoje, aquela terra indígena já está demarcada e temos ali na foz do Douro um posto de vigilância funcionando plenamente. Em 2007, 20 anos depois daquela viagem, dei novamente uma boa caminhada pela mata. Saí lá da base da Frente, na foz do Xinane com o rio Envira, até o posto da foz do Douro com o alto rio Tarauacá, onde trabalha minha filha Paula Meirelles. Pois bem, passei na antiga sede do seringal Alegria, agora são as antas e outras caças grandes e embiaras quem estão comendo goiaba nas proximidades da antiga casa do Otávio Melo, nas cabeceiras do Douro (risos). Não é uma coisa boa? A própria natureza, quando é ajudada, se recompondo por lá. Então, Txai, hoje, ali onde o Otávio Melo morava tem um goiabal, que tava esbagaçado de rastro de porco, de anta, de veado, de queixada, que só vendo. Ainda achei dois jabutis comendo goiaba no meio daquele goiabal (risos). É aquilo que eu sempre digo, a própria natureza se recompõe. Basta a gente deixar quieto e não interferir. Enfim, só pra voltar à história daquela minha viagem inaugural como sertanista, no dia seguinte, o Otávio Melo voltou para o seringal Alegria. Aí dividimos a nossa equipe. Fiquei pensando a noite toda. Esse cara o Otávio Melo, será que ele vai voltar mesmo? Aí nos combinamos. O Lozano, o Sueiro, o Miguel e os outros Kaxinawá iriam acompanhar a turma do Otávio Melo pra ver se eles iriam embora mesmo. E eu e o Jorginho continuamos descendo o igarapé Imbuia e o Xinane até o rio Envira. Foi o que, de fato, aconteceu. Posso dizer que nessa primeira viagem de 1987, surgiram as primeiras idéias para o meu trabalho de sertanista voltado para a proteção efetiva dos territórios tradicionais ocupados pelos índios isolados daquela região de fronteira.

A entrevista do Meirelles continua no próximo papo. Não percam!

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 NACIONAL
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 13 de abril de 2008
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A