OPINIÃO
   VARAL DE IDÉIAS

Marcos Afonso

 

Só falta o Casarão naquela praça...



Saí do antigo prédio do Patrimônio Histórico, no Segundo Distrito, saudando as centenárias mangueiras que se bronzeavam ao sol de sexta-feira na beira do rio.

Fui lendo as placas do casario que fez nascer nossa cidade.
E, logo depois da antiga Casa do Sal, parei na residência que sempre me encantou e que ainda resiste entre o comércio, espremida e melancólica.
É linda. Com varanda em L. Agora lá se dá aulas de Espanhol e Inglês. Deu vontade de entrar. Mas tive receio de aumentar meu “banzo”, como diz a Leila Jalul.

Quero escrever sobre a casa. Mas não me sinto com autoridade. Vou ter que pedir socorro para a Leila, para ela me dar proteção e eu recrie os sons, burburinhos de crianças, tempestades e silêncios que conviveram naquela casa, que embelezou a rua e viu a cidade se espalhar.

Eu havia passado toda a manhã de sexta olhando centenas de fotografias antigas. E, das fotos de 1970 para cá, fui reconhecendo quase todas as pessoas e a cada slide que o computador mostrava meus ombros iam sentindo o peso das 46 voltas ao redor do Sol.

Não me sinto velho.

Aliás, esse tema nunca, realmente, foi importante para mim.

Mas, depois de uns quarenta dias já passados no meu deserto da vida, hoje posso respirar mais calmamente e os passos voltaram a ficar firmes, como uma vez me disse o Tião Viana. Ou como me falou a Marina Silva, numa tarde de cigarras e secura, na sala do seu apartamento em Brasília, vendo flores na janela: “Marcos, tu precisa ir para as montanhas, se alimentar de ar, degustar novas paisagens, se fortalecer, para depois, novamente, descer à planície, porque nelas é que acontecem as grandes batalhas”.
Voltei para a planície.

Estou sentindo as lutas e os ruídos das batalhas com mais experiência e o distanciamento necessário, fundamentais para tiros de precisão.
Isso também está me levando a fazer uma arquitetura de memória, se é que isso pode existir.

Sinto, pelos escritos recentes de muitos da minha geração, que alguns estão ficando saudosos. Vou embarcando nessa canoa, mas sem escrever, só começando a “ver”.

Foi assim que na sala de arquivo do Patrimônio Histórico, mirando a tela do computador, a cada toque na tecla da setinha, eu ia segurando choro, salivando a ardência na garganta que era cada vez maior.

Meus olhos estavam iluminados de compreensão. Sim, compreensão, porque muitas fotos retratavam combates ardentes em que eu era parte combatente ou combatida.

E na tela foi aparecendo a história da “invasão” do bairro Triângulo Novo, com o povo ainda cheirando a seringais, as crianças sem quintais, freiras, comidas na igreja.

E na tela azulada ia aparecendo Maués, Bruxinha, Beto Rocha, Jorge Carlos, Clarisse, Henrique, Fernando França, Altino, o pessoal do grupo Capú, tudo lá, no Arena do Sesc ou no Festival do Amapá.

E, de vez em quando, surgiam as alturas do Wilson Pinheiro, um Chico Mendes com short de futebol cortando seringa, aflitas reuniões na floresta, conflituosas assembléias na cidade.

Na arquitetura da minha memória, fui reconstruindo os três ambientes mais cheios de liberdade que existiam para mim naqueles tempos fechados e ásperos.

O Palácio do Bispo.

O Colégio Meta.

O Casarão.

O sacro, o filosófico e o profano.

Uma arquitetura explosiva que embalou parte da minha urbana geração.
No Palácio do Bispo, fervilhava a práxis e a Teologia da Libertação.
No Colégio Meta, se respirava todas as filosofias, nossas salas libertárias, de reuniões intermináveis.

No bar e restaurante O Casarão, nossos sonhos e amores estendidos nas mesas cervejantes da alegria e da esbórnia.

Vivi intensamente essas três arquiteturas.

Já chorei no Palácio. Já tive medos no Colégio Meta. Já sofri amarguras ressecadas nas músicas do Casarão.

Mas foi no Palácio do Bispo que conheci o sentido da solidariedade.
Foi no Colégio Meta que descobri a beleza do companheirismo e o sentido dos sonhos.

E foi no Casarão que aprendi a celebrar a vida.

Nestas três arquiteturas soube entender a canção que diz ser corajoso aquele que tem “a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não”.

Sorrimos bem.

O Palácio do Bispo e o Meta estão conservados.

Nosso povo humilde e simples se vê com mais auto-estima. E somos o 9 em qualidade de educação no Brasil.

Mas, quando hoje chego à Praça da Revolução e vejo a colina da igreja, o Cerb, a polícia e a prefeitura, evito olhar para um cantinho desolado...
Evito por enquanto.

O Binho Marques vai restaurar O Casarão.

Uma homenagem para a nossa memória.

Espero em breve descer as escadas do Casarão que receberá também a nova geração.

Quando estiver sentado, fecharei os olhos e chorarei.
Agora de alegria.
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Rio Branco-AC, 15 de junho de 2008
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