| OPINIÃO | ||
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Leonardo Boff * |
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Verdades secularizadas As religiões, especialmente as universalistas como o budismo, o judeo-cristianismo e o islamismo tem sido caminhos de descoberta de verdades profundas. Não eram apenas verdades religiosas. Eram, antes, verdades humanas sob linguagem religiosa. Hoje estas mesmas verdades são ditas sob roupagem secular da política e das ciências. Pouco importa a veste. Se as verdades forem verdadeiras, em último termo, seu autor é o Espírito Santo, ensina Tomás de Aquino. Isso vale para a famosa trindade que subjaz à moderna sociedade e em nome da qual se fez a Revolução Francesa e a Revolução Socialista: liberdade, igualdade e fraternidade. Mas esta trindade só estará garantida se lhe acrescentarmos hoje uma condição prévia: o cuidado para com a natureza. Liberdade, igualdade, fraternidade e cuidado são valores continuamente negados. Nem por isso podemos renunciar a eles. Caso contrário perderíamos o mapa do caminho. Eles representam o que deve ser. Funcionam como utopias. Nunca vão se realizar plenamente. Mas nos fazem caminhar. Já se disse: elas são como estrelas-guias, nunca as alcançaremos. Mas são elas que iluminam a noite e orientam os viajantes. Se bem repararmos, o nicho destes valores foram as religiões e, para nós no ocidente, o judeo-cristianismo. A afirmação de que somos todos imagem e semelhança de Deus, mais ainda, de que somos seus filhos e filhas, está na raiz da dignidade e da inviolabilidade da pessoa, fonte dos direitos humanos. A convicção de que somos irmãos e irmãs está na base da igualdade e da democracia. O fato de sermos insuflados de espírito criador nos deu a consciência da liberdade. E por fim, a constatação de que todos os seres e também nós humanos viemos do mesmo barro da Terra nos inspira a idéia da comunidade terrenal e biótica e de uma democracia ampliada, sócio-cósmica. Logicamente à esta quaternidade, costumamos agregar a justiça e a equidade que pertencem ao discurso político atual e outrora às tradições religiosas e espirituais da humanidade. A justiça confere a cada um aquele mínimo de respeito e de meios de vida, abaixo do qual a nossa relação para com ele não seria humana. A equidade zela para que haja relativa proporção entre a contribuição que cada qual dà à sociedade e os benefícios que recebe dela. O processo de globalização suscita a consciência crescente de que todos estamos formando uma comunidade de destino planetário. Esta comunidade de destino inclui a Terra, condição de toda a vida. Os valores seminais da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da justiça, da equidade e do cuidado pela Terra, formam o capital básico e comum à toda a humanidade, capaz de inspirar práticas humanitárias, políticas de integração, formas de produção mais benevolentes, comportamentos de respeito e de reverência face à grandeza e à complexidade da natureza. Tais valores convocam cada um a fazer lá onde estiver, sua revolução melecular, quer dizer,começar consigo mesmo a mudar seu estado de consciência, a inaugurar outro padrão de consumo e de relação para com a natureza. Se não podemos mudar o mundo, podemos mudar o nosso mundo pessoal. O caminho novo sempre começa com um primeiro passo, condição para que outros se sigam. * Teólogo |
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