| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Memória da arqueologia acreana (VIII)
Em 1988, além de ter sido publicado o primeiro artigo científico destinado à análise de sítios com estruturas de terras (que ultimamente vem sendo tratados pela imprensa como geoglífos), a historiadora Mauricélia Souza - funcionária do Museu da Borracha – se associou ao Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), situado no Rio de Janeiro, para efetivar seu processo de formação como arqueóloga. Tendo em vista que no Acre todos os sítios arqueológicos até aqui localizados se referem a povos ceramistas - o que não significa que não existam na região sítios de povos pré-ceramistas mais antigos, mas apenas que estes ainda não foram identificados - Mauricélia Souza se dedicou não só a estudar a realidade da arqueologia amazônica como um todo, mas a se especializar na análise de material cerâmico em suas diversas etapas. E em especial no estudo do material cerâmico proveniente das escavações dos sítios acreanos, sob orientação do Prof. Ondemar Dias. Célia (ou Celinha como a chamavam os amigos) logo se destacou por sua dedicação, organização e competência na análise de material arqueológico o que lhe proporcionou a oportunidade de ingressar no programa de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ para a realização de mestrado. Além de ter lhe possibilitado propor a execução de novas pesquisas arqueológicas em território acreano. Assim, em 1992, foi elaborado um pequeno projeto para novas pesquisas de campo no Acre. E, graças ao apoio e estimulo da Dra. Betty Meggers, esta pesquisa foi financiada pela Latin American Archeology Fund - USA, com a coordenação do Prof. Ondemar Dias, chefia de campo de Mauricélia Sousa e participação dos pesquisadores Marcos Vinicius Neves e Maria Luiza Ochoa (a conhecida Malu). Sendo o objetivo principal deste trabalho obter novos dados para dissertação de mestrado do IFCS/UFRJ da Célia. A partir de informações de moradores locais foi possível localizar, durante a breve pesquisa de 1992, três novos sítios, bem como prospeccionar um dos principais sítios arqueológicos do Acre. Foram eles, respectivamente, o Sítio Macauã, à margem do riozinho do Rôla (área até então não pesquisada) e os sítios Guarantã, Alto Alegre e Los Angeles (próximos aos rios Iquiri e Ina), sendo que nestas últimas áreas, confirmou-se o grande potencial arqueológico, esboçado nas pesquisas anteriores, através do grande número de informações de novos sítios arqueológicos a serem pesquisados. E as características observadas nestes sítios confirmaram sua importância para o contexto pré-histórico acreano. AC-RB-02 - Sítio Macauã Sítio composto por material lítico (de pedra) e cerâmico de filiação cultural a ser designada, localizado a 10º 05’ 19” S e 67º 56’ 25” W, na Bacia do Riozinho do Rola, margem direita, a cerca de 2 horas de barco da Cidade de Rio Branco. O sítio está situado em terra firme, com cerca de 200 metros de área na direção Norte/Sul e igual extensão no sentido Leste/Oeste. A área do sítio é limitada ao norte pelo Igarapé Santa Rita. A ocorrência de material cerâmico teve a característica de se apresentar formando conjuntos compostos de urnas fragmentadas acompanhadas por cacos de outras peças. O material lítico não foi coletado pelos pesquisadores, mas pelos moradores locais, estando, portanto, fora de contexto, inclui diversas lâminas de machado de forma variada e polidores de grandes dimensões. AC-IQ-10 - Sítio Guarantã Sítio cerâmico de filiação cultural a ser designada, localizado a 09º 52’ 24” S e 67º 23’ 23” W, no km 7 do ramal 55 da estrada BR-317, entre o igarapé Rio de Janeiro e o Rio Iquiri. Sítio com estrutura circular de terra (mureta externa e valeta, sem mureta interna) com 135 m de diâmetro. Possui também semicírculo (valeta e mureta) externo e muretas de “saída” em direção a água mais próxima (Igarapé Rio de Janeiro). Refugo de material cerâmico superficial, e sobre a mureta externa material cerâmico até 30 cm de profundidade. AC-IQ-11 - Sítio Alto Alegre Sítio composto por material lítico e cerâmico de filiação cultural a ser designada, a 10º 04’ 31” S e 67º 33’ 14” W, a beira da estrada BR-364, km 29, distando aproximadamente 3 km do rio Iquiri. Sítio com estrutura circular de terra, com cerca de 127 m de diâmetro, chamando atenção pelas grandes dimensões de suas muretas (com exceção da mureta interna que é baixa) e valetas (cuja profundidade varia entre 1,40 e 2,90 m). Inclui também semicírculo externo e dois conjuntos de muretas de “saída”. Cabe ressaltar que este sítio - em que pese ter sido muito impactado pela abertura da BR-364 e pela construção de moradia, curral e cercas - apresentou características que motivaram a realização de outros trabalhos posteriores, como veremos futuramente. AC-XA-07: Sítio Los Angeles Sítio composto por material lítico e cerâmico de filiação cultural a ser designada. Localizado a 10º 42’ 48” S e 68º 10’ 46” W, na Fazenda Ouro Branco (ex-Fazenda Los Angeles), na estrada BR-317, ramal à esquerda (direção a Xapuri - a 145 km de Rio Branco). O sítio apresenta uma estrutura circular de terra (mureta interna, valeta e mureta externa) e é muito rico em material arqueológico. Com cerca de 200 m de diâmetro, este sítio já havia sido objeto de pesquisas arqueológicas (de caráter extensivo) em 1983 e 1984, conforme vimos nos artigos anteriores. Com as informações obtidas nesta pesquisa pelo menos três importantes questões ficaram evidentes. A primeira é que o sítio Macauã revelou aspectos muito diferentes de tudo o que havia sido pesquisado até então no Acre. Sua cerâmica possui características que possibilitaram ao Prof. Ondemar Dias aventar a hipótese de que se trate de sítio mais antigo que os outros sítios ceramistas já conhecidos. Além disso, neste sítio foi encontrada uma grande quantidade e variedade de artefatos líticos (de pedra), o que não é comum no Acre, entre polidores, pilões e lâminas de machado de formas variadas. A segunda questão diz respeito às características únicas do Sítio Los Angeles que - ao lado de grande quantidade de material cerâmico, diferente dos outros sítios com estruturas de terra que normalmente revelam pouca densidade deste material - apresentou singulares lâminas de machado com orelhas fabricadas em blocos de piçarra (fato até então inédito na arqueologia brasileira), incluindo também diversos refugos de sua fabricação. Uma questão que voltaremos a abordar nos artigos subseqüentes. E, finalmente, tanto o Sitio Guarantã como o Sítio Alto Alegre apresentaram, além das estruturas circulares de terra que já haviam sido observadas anteriormente, outras estruturas adicionais em forma semicircular externas aos círculos principais, bem como muretas de “saída”, que foi a maneira como as denominou Ondemar Dias uma vez que estas muretas saiam dos círculos, normalmente em direção à fonte de água mais próxima e são de visualização bastante difícil no nível do solo, já que são bem mais tênues que o conjunto valeta-mureta que caracterizam os círculos. Com isso ficou evidente que as novas estruturas geométricas de terra que foram encontradas no vale do rio Iquiri, possuíam características mais complexas formando conjuntos de formas geométricas e linhas curvas e retas, sem que se pudesse determinar na época sua função. As novas informações levantadas na pesquisa de 1992 apontavam para a necessidade da se realizar novas pesquisas de campo e assim aprofundar nossos conhecimentos acerca do povoamento pré-histórico desta região em virtude da grande quantidade de questões a serem respondidas. Isso motivou a elaboração de um novo projeto de pesquisas como veremos no próximo artigo. |
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