COTIDIANO

Começar de novo

Clínica de artesanato volta criatividade de artesãos para a criação de novos produtos com identidade acreana

 


Juracy Xangai

Repensar a maneira de transformar as matérias-primas em objetos utilitários ou decorativos voltados a atender as necessidades do publico consumidor do Acre e de outras regiões do Brasil é a proposta fundamental da clínica de artesanato da qual estão participando 50 artesãos acreanos, há cerca de dois meses.

Praticamente todos eles trabalham com a produção de biojóias (colares, pulseiras, brincos e outros adornos feitos a partir de sementes da floresta). Por isso tiveram de encarar o desafio de trabalhar com outros materiais combinando com as sementes ou mudando totalmente de matéria-prima para criar não mais biojóias, mas objetos utilitários e decorativos.

Cada artesão desenvolveu pelo menos um novo produto para compor o conjunto dos que serão apresentados durante a rodada de negócios do Projeto Comprador, que estará acontecendo em Rio Branco no próximo dia 3 de dezembro, com a participação de compradores de algumas das principais lojas do Acre e do Brasil.

Trocando as bolas

O agricultor Paulo Sérgio da Silva, 39, que mora em sua colônia localizada no quilômetro 9 do ramal Belo Jardim, descobriu há quatro anos que, ao colocar em prática sua habilidade de artesão, conseguiria ganhar muito mais dinheiro que com seu pomar de cupuaçus, sem o qual sua arte não seria possível.

“A gente colhe os cupuaçus, tira a polpa e vende pela média de R$ 2,50 a 3 o quilo, quando tem sorte. Usando a casca desse mesmo cupuaçu para fazer animais, porta-caneta e outros objetos, eu já ganhei R$ 35 numa peça. A diferença entre o que ganho com a casca, quando comparado com a polpa, é muito grande”, relata.

Paulo é um dos 50 artesão que acaba de participar da clínica oferecida através do Projeto Sebrae de Artesanato do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae-Ac) em parceria com o governo do Estado, prefeitura de Rio Branco e Núcleo de Desenvolvimento de Design em Artesanato e Madeira. Essa foi a primeira fase do projeto que será continuado através de treinamentos e assessorias para que eles desenvolvam novos produtos, além da capacidade de gerenciamento do negócio, desde a linha de produção até sua apresentação, negociação e planejamento para a entrega.

Já a professora Marlúcia Moreira da Silva, 45, a qual está prestes a se aposentar, tem no artesanato sua segunda profissão preferida, mas até agora vinha complementando sua renda com a venda de alimentos na forma de pratos típicos regionais. “Há dois anos vinha me dedicando a produzir peças em fibras e papel reciclável. Agora, com esse curso, desenvolvi caixas decorativas e utilitárias combinando a madeira e fibra de buriti usando técnicas que antes não conhecia. Um dos pontos mais fortes dessa oficina foi conhecermos novos materiais e, principalmente, aprender uns com os outros novas técnicas e macetes, além da necessidade de produzir aquilo que o mercado quer comprar”, disse.

Desafio da mudança

Deixar de fazer o que já sabe para criar novos produtos utilizando matérias-primas com as quais ainda não estavam acostumados a trabalhar causou um verdadeiro choque inicial em alguns dos participantes da oficina, conforme recorda o arquiteto Jivago Molli, pós-graduado em design estratégico e consultor do Sebrae no projeto de artesanato Acre. Ele trabalhou em parceria com os mineiros Mazarello Miranda e Glauciney Rodrigues, especialistas em designer de produtos.

“Toda essa clínica esteve voltada para o design das peças e gestão do negócio com vistas à apresentação do produto no mercado e sua comercialização apresentando uma imagem mais positiva do Acre lá fora. Em tudo isso, para o artesão, o que importa é redescobrir sua capacidade de ousar e inovar criando uma nova visão sobre sua própria arte e transformar esse produto em dinheiro por que sem isso ninguém sobrevive”, esclarece.

A proposta surgiu a partir da conclusão de que o setor das biojóias acreano já está supersaturado, o que vem dificultando cada vez mais a descarga de sua produção num mercado bastante concorrido. A válvula de escape foi combinar diferentes materiais para criar novos produtos já com o objetivo de atender as lojas especializados na venda de peças decorativas e utilitárias com identidade regional.

“O bom acabamento e a beleza dos objetos são fundamentais, mas as pessoas hoje estão buscando um pouco mais que isso, pois querem ter em casa alguma coisa com identidade para que possam dizer: ‘Isso é produzido lá no Acre’. Por isso as peças precisam levar essa marca que os diferencie das outras que vão estar concorrendo com a gente nas prateleiras das lojas”, explica Jivago. “Houve, e é natural que houvesse, resistência por parte de alguns para essa mudança de conceito, mas fomos construindo tudo juntos. Nessa última semana, os resultados foram surpreendentes, ou seja, as pessoas criaram peças incríveis que agora vão precisar receber uns toques de acabamento para entrar no mercado.”

Produtos e mercado

Coordenador estadual do Projeto Sebrae de Artesanato, Aldemar Maciel encerrou a primeira fase da oficina lembrando que os treinamentos começam já nesta segunda-feira com um curso sobre como gerenciar bem seu negócio. O treinamento faz parte dos preparativos para o teste que eles enfrentarão durante o Projeto Comprador que acontecerá no dia três de dezembro quando vão sentar frente aos representantes de algumas das principais lojas do Acre e do Brasil para negociar a venda de suas peças já em escala industrial.

“O conceito fundamental desta oficina é desenvolver novos produtos para atender aquilo que o cliente deseja, ele é o patrão. A maioria só trabalhava com biojóias e o resultado final prova que quando trabalhamos juntos nós conseguimos avançar mais rapidamente e com isso todos ganham. A verdade é que o Acre está na moda e, com a apresentação dessa nova mini-série, a partir de janeiro, precisamos estar preparados para aproveitar a oportunidade para lucrar com isso”.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 15 de novembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A