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A vida sem brilho no Ramal do Ouro

A história de uma família que conseguiu garimpar esperança nas dificuldades

Marcos Vicentti
João Firmino, Maria Raimunda e os oito filhos caminham rumo à colocação Água Viva, no fim do Ramal do Ouro


Leonildo Rosas e Marcos Vicentti

Não é preciso um mapa do tesouro para chegar ao Ramal do Ouro. É fácil localizá-lo. Basta viajar 100 quilômetros na BR-364 rumo ao município Sena Madureira. Ele fica no lado direito da rodovia e foi aberto precariamente pela Secretaria de Estado de Floresta (SEF). São 20 quilômetros mata adentro. É no fim da linha que moram o agricultor João Firmino, a mulher Maria Raimunda e oito filhos.

João Firmino percorreu outros caminhos até se estabelecer no local. Ex-seringueiro, possuía uma casinha humilde no bairro da Pista, onde um dia funcionou o aeroporto de Sena Madureira. Morava numa invasão. Passou vários anos no local, mas nunca se acostumou com a vida barulhenta e corrida da cidade. Habituado com a fartura que a floresta lhe proporcionava, também não conseguia se adaptar às hostilidades impostas pela competição urbana. Chegou a passar fome.

“Sempre trabalhei no pesado, mas é difícil se adaptar às coisas com as quais você não é acostumado”, diz.

Ele é um daqueles homens da floresta que se encantam com as propagandas de que a vida “na cidade” é melhor. De forma ingênua, crê que sair do mato para um centro urbano abre a possibilidade de conseguir trabalho decente e educação de qualidade aos filhos. Mas nem sempre o planejado condiz com a realidade. Foi o que aconteceu com João e sua prole.

Nascido no seringal Silêncio, cortou seringa durante a vida toda. Só que a extração do látex, segundo ele, não dava mais dinheiro. Nem o subsídio da borracha pago pelo governo do Estado permitia que tivesse uma boa retirada mensal. Nos acertos de conta, o atravessador sempre ficava com o saldo. A ele cabia a dívida. “A gente acorda cedo, vai para a mata cortar, mas, no fim, só quem ganhar é dono de usina.”

Explorado no extrativismo, João ficou decepcionado e desamparado na cidade. Mas, quando tudo parecia perdido, surgiu uma luz. Ainda era possível mudar de vida novamente.

Essa mudança significaria fazer, em parte, o caminho de volta para a floresta. Dessa vez, ele trabalharia na agricultura e na criação de animais domésticos.

“Resolvi invadir um pedaço de chão aqui. Junto comigo estão mais de cem famílias. A vida é difícil, mas é melhor enfrentar essas dificuldades do que passar fome na cidade”, justifica.

Hoje, as idas de João Firmino à cidade são cada vez mais raras. Só vai quando tem negócios. É difícil trafegar no Ramal do Ouro. O amarelo da poeira é a única semelhança com o metal precioso. Isso no verão amazônico, porque no período chuvoso a lama toma conta de tudo.

Para chegar a Sena Madureira, a família de João Firmino e as demais andam bastante. São 20 quilômetros de vinda e a mesma distância na volta para casa.

Semana passada, João e Maria Raimunda foram à cidade vender farinha, milho, feijão e alguns animais domésticos. Com o dinheiro apurado, compraram o “rancho” para agüentar os meses de chuva.

Antes da viagem, tiveram toda a preparação. Fizeram a comida para se alimentar, vestiram as melhores roupas e levaram seis dos oito filhos, também vestidos a caráter para a ocasião. Somente João Paulo, 10, e Eron, 11, ficaram em casa. Os meninos não foram excluídos do passeio à toa. Eles tinham que cumprir uma missão: ficar com o ouvido colado na Rádio Difusora a fim de escutar a mensagem sobre o regresso dos demais familiares.

A tarefa das crianças consistia em levar até a entrada do ramal um dos tesouros da família: o boi Mimoso. Também coube a eles a responsabilidade de cuidar dos animais e fazer o trabalho no roçado.  Nesse período, são os “homens da casa”. E gostam disso “Somos acostumados a fazer isso. Aqui na roça, a gente aprende a trabalhar desde cedo”, revela com cara de assustado Eron.

O papel desempenhado pelos meninos é fundamental para garantir o conforto dos familiares que foram à cidade. Vai evitar que carreguem pesados fardos durante 20 quilômetros, num ramal esburacado e cheio de ladeiras. “Minha família anda mais de seis horas para chegar em casa. Se não fosse a ajuda do Mimoso, a gente não agüentaria”, lembra João.

Mimoso é fundamental para carregar os mantimentos. Na zorra  - espécie de cangalha -, sobre suas costas também vai outra preciosidade: uma bateria para ligar o rádio durante os dias e noites na colônia. O rádio é a conexão do homem do campo com o resto do mundo.

“Ficamos sabendo de tudo que acontece no mundo. Infelizmente, o que acontece é muita violência e desgraça. Ainda bem que estamos longe dessa vida”, comenta o produtor.

Além da bateria, o agricultor também comprou gasolina e combustol para a lamparina. Ele também não esqueceu a pólvora e o chumbo para caçar. “A mata é nosso meio de sobrevivência. Caçamos  o suficiente para comermos.”

O boi Mimoso não é importante apenas no regresso ao lar. É por meio dele que João Firmino e a família levam os produtos a serem vendidos no mercado da cidade até a saída do ramal.

O animal é pequeno, mas tem resistência suficiente para carregar sacos de macaxeira, milho e  feijão. O trabalho de Mimoso permite que os produtores economizem o pouco do dinheiro de que dispõem. Os toyoteiros que atuam no ramal cobram R$ 5 por saco de produto, o que impede qualquer possibilidade de lucro.

“Ainda bem que tivemos condições de comprar esse animal. Ele é uma jóia rara e vale mais do que ouro”, reconhece.

Mas o inverno. A maioria dos moradores do ramal passará quatro longos meses isolada. Feito de improviso pela SEF, o ramal não oferece condições de tráfego de veículos. Até para pessoas e animais se locomover é difícil.

“Quando chega o inverno, muita coisa fica estragada. Perdemos milho, macaxeira e feijão porque não há como retirarmos”, queixa-se o trabalhador.

É por essa estrada amarela que João, Maria Raimunda, Eron, João Paulo e os demais filhos vão caminhando. Não têm muito, mas acreditam que poderão garimpar o futuro no verde e nas riquezas que a natureza lhes pode propiciar.

“Somos felizes. Vivíamos infelizes na cidade, sem oportunidade de emprego e sem perspectiva de futuro. Encontramos nosso caminho”, comemora Maria Raimunda, que vai em frente com o pequeno Joaquim, 3, que estava com febre depois da caminhada no sol forte.

Nem tudo que reluz é ouro

Com mais de dois anos de existência, a invasão, que virou Projeto de Assentamento, mostra sua força na produção de milho, arroz e feijão. Pressionado pela situação, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) está demarcando os lotes.

Embora não tenha metal precioso para ser garimpado, o ramal foi batizado de “Ouro” porque, em maio de 2004, trouxe um brilho diferente a mais de 100 famílias que tinham o sonho de ter um pedaço de terra para plantar e criar os animais domésticos.

Unidos, esse produtores invadiram uma área de terra de 3.352 hectares. O imóvel, localizado na divisa da Floresta Estadual do Antimary, é da União. Os invasores tiveram dificuldades para se instalar porque um fazendeiro alegou que a terra era dele, mas não comprovou a titularidade com documentos.

Passados dois anos de muita luta e incerteza, produtores como José Firmino começam a ter um pouco de paz e tranqüilidade. Eles estão próximos de ver o sonho realizado com o nascimento do Projeto de Assentamento Edilza Carneiro.

 
 
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Rio Branco-AC, 15 de novembro de 2006
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