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Nuku itsa, Nuku keskama e Nukubus

(Os iguais, diferentes e nós)

Mensageiro da paz e da tolerância orienta debates sobre o entendimento e o respeito entre os povos e sua diversidade

Juracy Xangai
Debates reúnem lideranças
indígenas de todo o Estado


Juracy Xangai

O doutor da floresta. Esse seria o título que melhor expressaria a importância de Ikã Muru Bakê, também conhecido como Agostinho Mateus Huni Kuin, 62 anos, pai de sete filhos, morador da aldeia São Joaquim, na terra indígena do Alto Jordão.

Alfabetizou-se sem lápis nem papel, tornou-se o primeiro professor indígena do Acre, deixou tudo para lutar em defesa da demarcação das terras de seu povo sempre apelando e conseguindo vencer pela não-violência, foi a Brasília e lá propôs a criação de um sistema de educação indígena em sua própria língua. Adentrou os caminhos das ervas que curam, embrenhou-se pelo astral onde adquiriu conhecimento e espiritualidade para tornar-se pajé versado na arte da acupuntura chinesa.

Doutor na história, tradições, artes e religião dos kaxinawás, povo autodenominado huni kuin, o doutor Ikã Muru faz justiça ao seu nome, Ikã quer dizer Deus dos huni kuin e Muru tem sentido de cair como uma cachoeira, sentido figurado que pode ser traduzido como Dádiva de Deus.

Preocupado em passar adiante os conhecimentos acumulados ao longo de uma vida cheia de dificuldades e pequenas grandes vitórias, hoje treina um grupo de 14 índios huni kuin, aos quais, além das artes da pajelança e das ervas, também ensina a curar doenças e dores utilizando as agulhas da acupuntura. Mas essa é outra história...

Aventura sem fim

Aos oito anos de idade, perdeu os pais, que um dia desapareceram para nunca mais dar notícias. Desamparado, foi criado por uma família de seringueiros na região do alto Jordão. Desde criança ajudava no corte da borracha e outros serviços, mantendo sempre contato com os “parentes” escravizados pelos seringalistas. Assim manteve e desenvolveu o uso da língua huni kuin.

Aos 20 anos casou-se e, pela primeira vez, viu na casa de seu sogro uma cartilha do segundo ano escolar. “Ele sabia ler um pouco, perguntou se eu queria aprender, disse que sim e ele começou a me ensinar as letras nas palavras. Era muito difícil porque tinha palavras mais complicadas. Foi quando meu tio Salviano passou descendo o rio para vila Jordão e eu pedi pra ele conseguir uma cartilha do ABC do primeiro ano”, recorda.

Com ela, o sogro conseguiu ensinar as vogais e consoantes, depois de alguns meses ele já lia bem as palavras e frases, mas, como não tinha lápis nem papel, não podia praticar a escrita. “Ler eu já lia, mas não tinha escrita; aprender a escrever é que foi mesmo difícil”, recorda.

Pouco tempo depois, o patrão, percebendo o desenvolvimento dele, mandou que descesse pela primeira vez à vila Jordão para fazer umas compras para o seringal. “Quando estava anotando a lista dos produtos no armazém da cidade, o Hilário, que hoje é prefeito do Jordão, ficou admirado porque nunca tinha visto um índio escrevendo. Perguntou como eu tinha aprendido e contei a história para ele.”

Mensageiro da paz

Nessa época, tomou frente na luta pelo reconhecimento e demarcação de seus terras. A situação era grave porque os ânimos entre índios, seringueiros e colonos estavam alterados com ameaças de morte entre as partes. “Fui conversar com todo mundo e dizer que a gente não precisava brigar para chegar num entendimento e que no final todo mundo ia ficar satisfeito. Demorou mais de dez anos, mas a gente conseguiu que o governo desapropriasse as terras, pagasse todo mundo e nós ficamos com nossas terras sem ter de brigar com ninguém.”

Foi lá no início da luta pela terra que apareceu por lá o indigenista Terry Aquino. Ele explicou que os kaxinawás tinham seus direitos, Terry estava participando da criação da Comissão Pró-Índio. Ficaram amigos e, embora não soubesse nem como chegar a Rio Branco, foram junto com os parentes para Brasília reclamar a demarcação das suas terras.

“O presidente da Funai concordou com a gente na questão do reconhecimento das nossas terras e, depois de tudo, aproveitei pra pedir a ele que criasse a educação indígena. Ele gostou da idéia e me disse que ia mandar um professor para a aldeia. Eu disse para ele não fazer isso porque o professor dele não conhecia nossa língua, nossos costumes nem nossa comida, por isso não ia servir. Então era preciso que o professor fosse índio ensinando em nossa própria língua e com nossos costumes. O presidente concordou.”

Nesse mesmo ano foi criada a primeira equipe de educação indígena, para a qual foram contratadas 12 pessoas, sendo seis professores e seis agentes de saúde indígena. “Puseram meu nome para ser professor, mas eu não pude ir porque estava envolvido com a briga pela terra e mandei outro no meu lugar.”

Surge o professor

Era 1983 quando Hilário viu em Ikã a oportunidade de alfabetizar outros índios. “Ele então me perguntou se eu não queria ensinar os parentes a ler e escrever. Fiquei muito satisfeito e aceitei, eles me pagavam pelo Mobral, ensinei 46, agora os parentes já liam um pouco e sabiam assinar o nome. Quando eles me pediram para fazer uma prova de que eu ensinava os alunos, parei de dar aula porque não sabia como era uma prova e não tinha ninguém para explicar”, conta.

Caminhos da alma

Enquanto brigava pela terra, Ikã visitava os parentes nas comunidades espalhadas pela floresta onde comungava com eles a bebida sagrada do nixi pã (Ayahuaska ou Santo Daime). “Eu estava com uma viagem programada quando bebi o chá e o espírito me disse que eu já tinha andado muito, mas que a partir daquele momento eu tinha que estudar e aprender os mistério do cipó que sempre orientaram a cultura do meu povo. Não podia mais viajar enquanto não fizesse isso, ou seria minha última viagem. Obedeci”.

Estudou as ervas, enveredou pelos caminhos do astral em busca dos sábios e dos mistérios antigos que lhe foram sendo revelados pelo nixi pã. Aprendeu a pajelança e no ano 2000 recebeu de seu povo o direito de ser pajé, o homem que guarda não apenas os segredos da cura das doenças do corpo e da alma, mas as histórias, músicas e lendas que preservam sua cultura e abrem as portas do espírito para sua religião tradicional.

História da criação

Ikã, o deus que criou o universo separando a luz das sombras, pronunciou a palavra vida dando origem a Nuku Ewá Iuxibu, mãe de todas as criaturas viventes, dando origem a todos os animais e à própria humanidade e, é claro, ao povo huni kuin. Nesse momento surgiu Iububê que reina sobre o mundo espiritual das criaturas viventes que só estão na terra por concessão de Ikã.

“Meus filhos cresceram, foram estudando e cuidando das coisas, não queriam mais que eu trabalhasse, então deixei dar aula na escola porque agira a gente tem bastante professor, cuidei só da nossa cultura. Agora estou formando 14 pajés que estão aprendendo nossos costumes, as músicas e tudo o que precisamos para ser kaxinawá de verdade”.

Acupuntura

Em dezembro de 2004 Ikã recebeu a visita do japonês Yoshiodo, um dos maiores especialistas brasileiros na arte milenar da acupuntura, técnica desenvolvida pela medicina tradicional chinesa e que há mais de mil anos é usada para curar ou prevenir as mais diversas doenças.

Ele visitou a aldeia de Iká para participar da festa do Katx Txiri, festa de agradecimento pelas dádivas da natureza com alimentos saúde e fertilidade nas famílias. Seu segundo interesse era examinar a técnica da moxabustão, palito de fogo utilizada pelos índios para tratar doenças e dores crônicas. Buscava a conexão entre a cultura milenar chinesa que usava a moxabustão antes das a acupuntura, usando os mesmos meridianos energéticos do corpo.

Ikã viajou com Yoshiodo e aprendeu as técnicas da acupuntura. “Agora uso as ervas, a pajelança e também as agulhas para curar as pessoas. Hoje mesmo, aqui no encontro tinha um parente com dor de dente, apliquei as agulhas e pronto. Ele já está bom”.

PhD da Floresta

Depois de passar alguns anos completamente dedicado à sua cultura, Ikã foi convidado pelo “Paulo” da Comissão Pró-Índio para participar do encontro de educadores indígenas que está acontecendo em Plácido de Castro onde de quatro a 16 de dezembro na Pousada da Floresta . Ele e Rantizal, o último pajé existente nas 12 aldeias kaxinawás existentes no Rio Purus, representam neste treinamento de educadores, o elo para a reconstrução de sua cultura que quase foi destruída durante o período de escravidão nos seringais.

“Vim porque a gente tem de colaborar com nosso povo. Cada aldeia precisa ter pelo menos um pajé para que todos conheçam nossa cultura, nossos rituais, nossa religião e como conviver e aprender com as forças da natureza. Isso é o mais importante”.

De pai para filho

José Mateus, o Itsairu, tem 35 anos, dez filhos e é filho de Ikã, o qual conta com orgulho que ele é o primeiro de sua família a freqüentar uma universidade. Itsairu está no sexto período do curso de pedagogia pelo programa de formação continuada que funciona graças a uma parceria entre o governo do Estado e a Universidade Federal do Acre.

Terminei o curso de magistério em 2002 e até 2005 continuava na sala de aula, agora trabalho como técnico na coordenação das escolas indígenas do programa de educação indígena da secretaria estadual de educação.

“Aprendi a conhecer as letras com meu pai, sempre gostei de estudar porque ele me dizia que isso um dia ia servir para a minha vida. Vi a luta dele pelo nosso povo e pela nossa cultura ensinando as pessoas a desenvolver seu conhecimento,segui seu exemplo, ele é uma escola para todos nós”.

Quanto ao encontro em que estão presentes 180 professores dos 11 povos do tronco lingüístico pano (kaxinawás, yawanawás, katuquina, jaminawa, jaminawa-arara, Shawandawa, apolima-arara, nawa, nukini e puianawa). Itsaru exlica porque eles foram distribuídos em três grupos denominados nuku Itsa (iguais), kuku keskama (diferentes) nukubus (nós).

“Neste encontro estamos discutindo as diferenças existentes entre os parentes indígenas e o dos não índios.Cada um vive sua realidade com suas tradições e costumes, por isso devemos respeitar uns aos outros porque há espaço pra todo mundo. Estamos trabalhando para deixar coisas boas para nossos filhos e netos”.

 
 
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Rio Branco-AC, 15 de dezembro de 2006
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