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Comunidades iniciam coleta da castanha no Vale do Acre

Com a inauguração de duas usinas de beneficiamento este ano, setor vive fase de grande entusiasmo

Assecom
Colheita de castanha é um trabalho cansativo devido ao peso dos ouriços e à distância que os catadores são obrigados a percorrer na mata


A safra deste ano já começou. As comunidades do vale do Acre, onde estão concentradas as maiores áreas de produção, já deram início ao trabalho de coleta e quebra da castanha in natura. A estimativa da Secretaria de Produção Familiar (Seprof) é de que 4 mil famílias estejam neste momento trabalhando exclusivamente na safra da castanha. São famílias como a dos irmãos Gilsilei e Valdeilton Pereira da Silva. Eles moram na colocação Lago, do Seringal Cachoeira (em Xapuri), e começaram na última segunda-feira a “quebra da castanha” (como é chamada a coleta na região). Eles pretendem vender este ano 700 latas (7 mil quilos) de castanha. Na área de atuação deles existem cerca de 230 castanheiras.

Os irmãos Pereira da Silva, que moram há 23 anos no seringal Cachoeira (segundo eles, numa das casas onde morou o líder seringueiro Chico Mendes) estimam que este ano eles tenham um ganho de quase três mil reais com a safra da castanha. Nos números do governo a estimativa é de que em 2004, em todo o estado, haja uma produção de 10 mil toneladas de castanha. Essa quantidade representa um injeção de R$ 8 milhões a mais na economia local.

Usinas - O período da coleta da castanha prossegue até maio, quando as castanheiras já terão “arreado” todos os ouriços maduros. Mas este ano será também o ano em que duas usinas novas (que serão gerenciadas pela Caex e a Compaeb, cooperativas de Xapuri e Brasiléia) começam a funcionar no Estado. Elas foram projetadas com capacidade para processar juntas 8 mil quilos de castanha por dia.

O governo planeja, junto com as cooperativas, dar continuidade, após o período de coleta, à cadeia produtiva beneficiando a maior quantidade possível de amêndoas aqui mesmo no Estado, o que vai gerar mais empregos, receita, lucro e uma renda maior para os produtores na ‘ponta’ da cadeia.

Por isso, as comunidades de produtores já estão trabalhando com o otimismo contagiante deste novo período da produção no Acre. A maioria das famílias sabe que o momento é propício para dar um salto na qualidade de vida também de quem vive na floresta. Técnicos da Seprof acompanham os trabalhos e transmitem segurança e apoio nas comunidades. Cursos de aprimoramento da atividade para evitar desperdício e promover segurança no trabalho já começaram a ser realizados. Os incentivos também são para a organização em grupo. “Mas é importante ressaltar que ainda estamos numa fase inicial. As metas são para implantação definitiva das ações nos próximos 3 anos”, adverte o gerente de modernização e industrialização da produção da castanha, Gerliano Nunes.

Cooperativa de Xapuri reúne mais de 400 associados

O presidente da Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (Caex), Raimundo Tavares de Lemos (mais conhecido por Brito), está a frente do órgão há dois anos e vem travando uma luta diária junto aos associados e produtores para unir cada vez mais a categoria em torno de um objetivo comum: fazer com que as riquezas geradas pela castanha fiquem no seu local de origem.

“Um quilo da castanha em outros estados e em outros países chega a custar dez vezes mais do que é vendida aqui. Isso significa que esse dinheiro não retorna para nossa região. Temos que nos fortalecer para não deixar escapar as nossas próprias riquezas”. Chama a atenção o presidente.

Ele acredita que a economia local deve ser privilegiada na cadeia produtiva, pois só assim o processo terá sustentabilidade. “É a oportunidade de construir uma sociedade mais forte e rica”, orienta Brito. Ele fala aos produtores durante encontros na sede ca Caex esta semana com os associados para planejar as ações na safra de 2004 da castanha.

Após as reuniões, no início desta semana, para preparação e estabelecimento de cronograma, a direção da Caex definiu como meta a compra de 1,3 mil toneladas de castanha este ano (o que corresponde a 130 mil latas, na medida corrente). Esse volume será encaminhado para a Usina de Beneficiamento de Castanha Chico Mendes, localizada no Pólo de Indústrias Florestais de Xapuri. Após beneficiada e embalada a castanha produzida em Xapuri agregará valor ao produto antes da exportação. Um quilo da castanha beneficiada aumenta em 60% o seu preço no mercado. Mas para que a quantidade de castanha beneficiada aumente é preciso que em 2004 se consolide a nova mentalidade de trabalho em grupo com a cooperativa e a atuação nas usinas de forma coletiva, fortalecendo assim o mercado local com um todo, é o que defende o presidente da cooperativa que hoje tem cerca de 400 associados em Xapuri.

Em Brasiléia, a Cooperativa Mista de Produção Agropecuária e Extrativista de Brasiléia (Compaeb) pretende comprar uma quantidade ainda superior a de Xapuri. A direção já definiu a compra de 230 mil latas. A Cooperacre, em Rio Branco, também não fica atrás. Outras 130 mil latas serão compradas na capital acreana recebendo parte da produção do baixo Acre e do Purus.

Juntas as cooperativas já dispõem de 2,8 milhões de reais este ano para compra no setor da castanha. Os recursos são provenientes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) que utilizará a castanha comprada no Programa Fome Zero.

Acre tem potencial para produzir 30 mil toneladas por ano

O Acre é o maior produtor de castanha do país. Fora do Brasil, o seu maior concorrente é a Bolívia, que hoje é a maior exportadora do mercado internacional. Mas, grande parte da produção do Acre é vendida sem barreiras para os empresários bolivianos.

Visando o fortalecimento desse mercado na Amazônia Ocidental, o governo do Acre busca concretizar alianças com os empresários bolivianos, ao mesmo tempo em que trabalha para aumentar a produção no Estado.

Atualmente, o Acre só consegue produzir cerca de 30% do seu potencial no setor. A coleta é feita pelas comunidades florestais de forma artesanal. Segundo o estudo realizado pelo Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), 4 mil famílias trabalham na área mapeada, sobretudo no vale do Alto e Baixo Acre e no Purus, em Sena Madureira. A produção média atual é de 10 mil toneladas por ano. Mas os estudos confirmam que este número pode chegar a 30 mil toneladas por ano.

Segundo as estatísticas, de 1996 até hoje foram exportadas do Acre 44,1 toneladas de castanha. O destino foi a Europa, sobretudo a Itália, um país que tem estreitado suas relações com o Acre nos últimos 10 anos. Para ser aceita no mercado internacional a castanha é embalada a vaco, com indicações de datas, marcas e obedecendo todas as exigências e normas. As 44,1 toneladas exportadas nesse período renderam U$ 123 mil dólares para a economia acreana, algo em torno de R$ 370 mil. Mas esse valor pode representar apenas a produção trimestral de um Estado com 90% de cobertura florestal nativa ainda pouco explorada, de forma sustentável.

De acordo com a secretária de Produção Familiar, Denise Garrafiel, a primeira estratégia do governo para aquecer o setor foi a articulação das cooperativas. O setor estava desarticulado e os produtores ficavam reféns dos marreteiros. Ano passado a lata da castanha chegou a ser vendido por apenas R$ 2,5 porque quem determinava o preço eram os marreteiros. “Com a entrada das cooperativas oferecendo um preço maior os outros compradores tiveram que elevar também suas ofertas”, explica a secretária. Hoje o preço da castanha chega até 8 reais. Denise confirma que com o novo cenário este ano deve circular no Estado algo em torno de 60 milhões de reais provenientes da safra da castanha.

A secretária informa ainda que as barreiras para evitar a saída da castanha acreana sem a tributação legal já foram montadas. “A Secretaria da Fazenda estabeleceu a pauta de R$ 12,5 para cada lata de castanha que sair do Estado. Sobre esse valor incide uma alíquota de 12%. Isso significa que os compradores terão menos vantagens em vender a castanha acreana fora do Estado”, analisa.

Governo quer beneficiar 50% do produto

As duas usinas de beneficiamento de castanha concluídas ano passado em Xapuri e Brasiléia começam a funcionar este ano de 2004 operando com 60% de sua capacidade total. Segundo os técnicos, este será o primeiro ano de funcionamento e por isso estará em fase de ajustes. Tanto a usina de Xapuri como a de Brasiléia têm capacidade para processar 4 mil quilos por dia.

Em 2003, a produção no Acre foi de 8 mil toneladas de castanha in natura, o que gerou uma renda de R$ 5,6 milhões, com o preço de sete reais a lata.

Este ano, a meta é fazer circular no Estado R$ 6 milhões só com a venda da castanha beneficiada para o mercado exterior, o que deve corresponder a 30% da produção total. O restante, algo em torno de 7 mil toneladas de castanha in natura, também vai gerar outros milhões de reais para a receita da economia acreana.

Mas o objetivo do governo em médio prazo é beneficiar no estado mais de 50% da castanha produzida aqui. Com o aproveitamento total do potencial acreano no setor, isso significa dizer que o Estado beneficiaria próximo de 15 mil toneladas de castanha in natura, deixando o produto pronto para atender o mercado europeu.

Segundo empresários do setor, o mercado da castanha é um dos mais promissores no mundo. A demanda é muito grande e os principais produtores não conseguem atender as industrias consumidoras. Isso significa que toda a produção que o Acre alcançar já tem mercado certo. É um setor que nunca vai ter excedente. Por isso está atraindo tantos investidores principalmente no Acre, com a proximidade com o Oceano Pacífico, volume de produção e andamento das obras de integração via terrestre com os portos peruanos.

O setor também é muito importante para a economia porque gera milhares de empregos em toda a sua cadeia produtiva. Cada família que atua na coleta numa área em média com 200 castanheiras, pode produzir mais de 300 latas (3 mil quilos) e obter uma renda anual de 2,1 mil reais. Mas o objetivo, com o fortalecimento das cooperativas atuando junto às usinas, é que os produtores na ponta da cadeia produtiva possam aumentar seus lucros agregando valor a castanha e participando da gestão das cooperativas junto as usinas.

Atuando em parceria com essas cooperativas, o governo estabelece as normas de boas práticas quanto a aspectos fundamentais, como o armazenamento e coleta no período certo. O objetivo é elevar o nível qualitativo da produção. Em algumas comunidades essas normas já começam a ser seguidas e a coleta, por exemplo, só inicia após o dia 20 de janeiro. A colocação Retiro I, do Cachoeira, é uma das que está se adequando ao novo tempo. Com mais de 300 castanheiras, os moradores da colocação estão em fase de preparação para a safra. “O período agora é de planejar a estratégia para que a gente consiga obter um produto de melhor qualidade”, ensina a professora Maria de Nazaré Vieira Mendes, esposa do primo de Chico Mendes, Nilson Mendes. Nesta colocação a expectativa para este ano é de uma das melhores safras dos últimos anos, não só pelo volume, mas principalmente pela qualidade do produto final.

 
 
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Rio Branco-AC, 16 de janeiro de 2004
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