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A nova onda da Base Projeto “Cores e Tons”, realizado pela Aleac, movimenta o bairro |
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Às duas horas da tarde o mormaço paralisa as folhas de taboca na rua Barbosa Lima, bairro da Base, nas vizinhanças do Restaurante Flutuante. A rua está deserta. O único cão vagabundo que segue uma cachorra logo desiste prostrado pelo calor. A rua Barbosa Lima, definitivamente, não é apropriada para a vida diurna. Aqui, a cachorrada só começa a ladrar quando o sol se põe. Até escurecer, apenas alguns homens à sombra das tabocas jogam conversa fora. Ninguém ousa desafiar o calor, ampliado pelo naco de asfalto que começa nas primeiras casas da Barbosa e se estende até a curva que a rua faz lá no centro do bairro, tomando o formato de um anzol para converter-se na Epaminondas Jacome, principal rua do comércio no centro de Rio Branco. Ninguém enfrenta o mormaço, a não ser Caio, 12, que surge de repente de uma das casas de madeira que delimitam o início da Barbosa. Aluno da 4ª série do Colégio Maria Angélica, no segundo Distrito, Lucas Queiroz de Almeida está indo para a garagem da Assembléia Legislativa, onde vai participar do curso de Música do projeto “Cores e Tons”, uma realização da mesa diretora da Casa para ampliar os horizontes de meninos e meninas carentes do centro de Rio Branco. Ao todo, o projeto atende a 45 adolescentes, a maior parte deles residente no bairro da Base, o núcleo habitacional mais antigo de Rio Branco depois do bairro Seis de Agosto, segundo os moradores. Um bairro estigmatizado pela circulação de drogas e violência em que a iniciativa da Aleac surge como paliativo. Em cada um dos quatro cantos da Base é possível conhecer os adolescentes que atuam no projeto “Cores e Tons”, idealizado pelo deputado Edvaldo Magalhães, presidente da Aleac, logo no início de seu mandato, em fevereiro passado. Atualmente, “Cores e Tons” é como uma onda que promete levar os adolescentes da Base para uma praia mais segura que as areias da histórica Volta da Empresa. Lucas, um dos alunos mais aplicados, pratica música e pintura, de segunda a sexta-feira. No rumo das aulas, ele segue solitário pela Barbosa e desaparece pela Rua Floriano Peixoto até a Rua Estado do Acre. Vai passar por trás do Mercado dos Colonos, para onde migrou o prostíbulo da finada Praça dos Catraieiros, e subir pela Rua Arlindo Porto até a garagem da Aleac. Dá para se contar nos dedos de uma mão o número de ruas da Base. A Floriano Peixoto, que vai até a Avenida Ceará, começa ali na Barbosa. A Epaminondas começa no espeto do anzol, ou fim da Barbosa. A Rua Tarauacá liga a Epaminondas com a Benjamim Constant, que é a rua do Hotel Barbosa, da Rádio Difusora, do Fórum e de uma fachada da Assembléia. A Rua Xapuri, onde viveu e morreu o pintor, músico e poeta Helio Mello, é uma travessa da Rua Estado do Acre, que começa na Ponte Metálica e termina na curva do anzol. Enquanto as ruas têm nome, suas casas têm número, os moradores têm endereço e os Correios trazem correspondência. Mas nem todos os moradores da Base contam com este privilégio. No outro extremo do bairro, longe da margem do rio Acre, na fronteira com o bairro do Papoco, mora o aluno de música e pintura do “Cores e Tons”, Sarliel da Silva Moura, o Léo, de 14 anos. Seu endereço é rua “Beco Benjamin Constant, 115- Base”. “Mas o Correio não chega aqui”, comenta Leo. O endereço é óbvio. Trata-se de um beco da Rua Benjamim no bairro da Base. E ali só tem um beco, que começa ao lado do muro do Hotel Alexandrino, pois na Base também tem hotéis. O beco é estreito, com pouco mais de dois metros de largura, pavimentado com um estrado de madeira para proteger os pés do barro. No meio do caminho há uma lâmpada pendurada num galho de mangueira que é a iluminação pública do beco. Léo é filho de Antonio Moreno de Moura e Maria Marina Pereira da Silva, mas mora com uma irmã. “Minha mãe vem uma vez por mês”, conta Leo, que tem como passatempo praticar a arte japonesa de dobrar papel, o origami. Ele é um típico representante dos alunos do projeto “Cores e Tons”. “São raros os alunos que vivem numa família convencional, com o pai e a mãe. A maioria tem pais separados, vivem com padrastos ou madrastas, alguns com mães já no terceiro casamento”, relata Dircinei de Souza, o professor de Música. Em resumo, as crianças da Base são o clássico produto da desagregação familiar. Outro exemplo, a aluna Alcineide Lima Ripardo, de 16 anos, está prestes a dar à luz o menino Ícaro. Em fevereiro ela se torna mãe. Mas garante que não vai faltar das primeiras aulas do “Cores e Tons” que devem recomeçar ao mesmo tempo em que seu parto. O futuro do projeto O projeto “Cores e Tons” não tem prazo para terminar e nem limite para expansões. Em sua versão para 2008, o projeto deve ser ampliado segundo o presidente Edvaldo Magalhães. Para Edvaldo, os alunos necessitam de maior tempo de entretenimento, mais opções de lazer e acompanhamento escolar. Por esta razão, ele está estudando firmar uma parceria com o Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo para que os alunos possam praticar esportes na sede campestre da entidade. Na última sessão da Aleac em novembro passado, Edvaldo Magalhães conseguiu com que cada um dos 24 deputados fizesse a doação de um instrumento musical para um aluno do curso de música. A estratégia, porém, não vingou porque os deputados não têm todo o tempo do mundo e tampouco conhecimento para sair às compras de um instrumento musical. Por esta razão, Edvaldo Magalhães está estudando uma alternativa para as doações. A origem da Base O presidente da Associação dos Moradores da Base, Paulo Fontelles, 50, mora num espaçoso casarão de dois pisos na rua Barbosa Lima com vista para o Rio Acre. Em seu programa de “governo” para o bairro, ele reivindica a construção de uma lavanderia comunitária onde hoje há um depósito de entulhos da Sanacre, e uma escola de informática para as crianças. Além disso, quer incentivo para reviver os festivais de praia da Base, os mesmos que atraiam milhares de pessoas a shows como os de Zezé di Camargo nos anos 80. Fontelle não esconde certa mágoa da prefeitura. Alega que a administração municipal dá preferência para bairros periféricos que acabaram de nascer e relega ao abandono o bairro mais antigo do lado de cá da ponte do Rio Acre. “A Base só não é mais antiga que o Seis de Agosto”, garante, afirmando que entre 80% e 90% dos moradores do bairro vivem ali desde que nasceram. O historiador Marcus Vinícius, presidente da Fundação Garibaldi Brasil, não concorda com Fontelle. Segundo Vinícius, a Base veio depois da rua Epaminondas Jacome e da avenida Getúlio Vargas, a primeira construída para atender os navegantes do rio Acre e a segunda para levá-los até o Palácio Rio Branco, que estava sendo projetado. Fontelles, porém, lembra que a Base era a “base” para tudo no Primeiro Distrito. Era bem ali nas suas areias que atracavam as balsas que cruzavam o rio com carros e caminhões antes da construção da ponte metálica. “Lembro um dia em que estávamos uns 30 meninos jogando pelada na praia quando um ônibus dos Irmãos Lameira encalhou logo que desembarcou da balsa. O motorista nos chamou e prometeu um passeio se a gente conseguisse desencalhá-lo. O ônibus saiu lotado”, conta Fontelles. O bairro da Base é um dos mais ricos em histórias na memória de pessoas de todas as idades. A advogada, escritora e poeta Francis Mary, diretora do Procon, também conhecida como Bruxinha, era assídua freqüentadora da praia da Base. “Eu morava no Bosque, mas sempre arranjava um pretexto para visitar meus padrinhos na Base para poder tomar banho no rio. Por duas vezes quase morri afogada nos buracos das peladas”, lembra Bruxinha, referindo-se aos buracos deixados pelas embarcações conhecidas como Peladas, utilizadas para fazer a baldeação de veículos de uma margem à outra do rio Acre. A escritora Glória Perez viveu até os 15 anos de idade na rua Benjamim Constant, em frente à Radio Difusora. Em entrevista concedida em 2003 quando veio ao Acre receber sua espada de Plácido de Castro, ela contou que sua diversão favorita era descer o barranco para tomar banho na praia da Base. Mas a Base também sempre será lembrada pela sua banda podre: o tráfico de drogas e a violência daí advinda. Em outubro passado, o estudante de Medicina Eliton Andrey Batista Roque, 33, foi assassinado em frente à entrada do Flutuante. Fontelles garante: “Não foi gente do bairro, aqui só tem gente de paz”. (Agência Aleac) | |
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