OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 
Capa do Livro Jamaxi, escrito e publicado por Océlio de Medeiros em 1979

As muitas vidas e mortes de Océlio

A quem pensa que o Acre é o fim do mundo eu sempre digo que o Acre é, na verdade, o início (umbigo) do mundo. Afinal é aqui que nascem os rios. E por algum estranho motivo Xapuri parece ser o início (umbigo) do Acre. Tudo que é grande parece nascer (começar), em Xapuri. Sejam homens, sejam revoluções. Pois eu conheci um extraordinário homem e peço licença ao leitor desta coluna para interromper a série de artigos sobre a pré-história acreana para prestar uma necessária homenagem a este homem que trazia na alma, como poucos, as marcas de ser acreano (do Xapury).

Certo dia ouvi falar de um livro diferente de tudo o que já havia lido sobre o Acre. Eu já estava em alguma medida acostumado aos livros que em tom épico e ufanista cantavam e proclamavam as glórias de um povo que se fez à custa de muitas guerras e sacrifícios. Mas não este livro de um tal Océlio de Medeiros, que punha a nu as glórias, mas também as misérias de um povo vilipendiado pelo governo brasileiro de muitas e diferentes maneiras ao longo de sua história.

Mais estranho ainda era o título do tal livro: “A Represa”. Mas que represa cara pálida? Até onde sei não há no Acre tradição de construir represas, nem nunca houve alguma que chamasse atenção ou merecesse uma extraordinária consideração. De onde ele havia tirado este titulo enfim? Mas era muito difícil achar o bendito livro e a curiosidade me consumia sem solução.

Finalmente consegui uma xerox incompleta d’A Represa (faltavam dez páginas) e surpreso mergulhei em suas páginas para aprender sobre a face oculta do Acre e compreendi. A represa era o próprio Acre que nos difíceis anos da crise da borracha e do autoritarismo do governo do Território Federal (décadas de 20 e 30, principalmente) havia se tornado um imenso “Igapó de almas”, um lugar de “rios que perderam seu destino” e nada mais podiam além de apodrecer abaixo do céu e em meio à floresta terrível em sua imensidão e selvageria. Retrato lancinante duma sociedade que se apegava às glórias do passado para não ter que encarar de frente um presente sem futuro.

Um livro que, além de tudo, era ainda intensamente indiscreto ao tratar de importantes personagens acreanos, e de outros nem tanto, sob pseudônimos muito mal disfarçados e que deixavam logo adivinhar quem eram as pessoas por detrás daqueles pseudônimos. Não é de estranhar que esse livro tenha se tornado maldito e exilado das casas acreanas desde então... O que, é claro, acendeu em mim outra intensa e necessária curiosidade: quem era esse homem tão corajoso e imprudente? Quem era Océlio, afinal?

Até que, durante uma viagem à Brasília, descobri que Océlio estava vivo. Muito vivo, aliás, e morava ali mesmo na Capital. Telefonei pra ele e pra minha surpresa, na mesma hora aceitou me dar uma entrevista sobre a Revolução Acreana, afinal estávamos em meio às comemorações do centenário da Revolução e toda nova informação era muito bem vinda... Mal sabia eu que iria aprender muito mais do que podia imaginar.

“Fui além do Xapuri

Buscar poemas dispersos

E trago em meu jamaxí

Flores, frutos, alguns versos”
(trecho da poesia “Jamaxí: a poesia da miração do Acre” escrita em primeiro de abril de 1974, no bairro da Base em Rio Branco)

Numa quadra qualquer de Brasília

Océlio era daquele tipo de entrevistado a quem nem precisamos perguntar nada. E foi logo de saída me avisando: “eu sou apenas um velho Acreanossaurus”. E imediatamente começou a derramar quilos e toneladas de histórias para meu completo espanto. A dificuldade era então conter a verborragia delirante daquele senhor de cabelos totalmente brancos, mas tão rebeldes ao vento seco do planalto central, quanto o próprio espírito de seu dono.

“O acreano tem o espírito de Gavroche, aquele personagem francês que é sinônimo de ironia e deboche. Quem quiser gostar do Acre tem que aprender a gostar da ironia e do agudo senso critico dos acreanos.” E se derramava numa gargalhada tão delirante quanto seu próprio dono. Comecei então a conhecer esse fascinante personagem que possuía uma das mais raras qualidades que um ser humano pode ter: ria de si mesmo. Mas ria muito mesmo. Surpreendentemente nem ele escapava de seu deboche. Aliás, ele sempre foi sua maior vítima e o pior é que ele sabia e se ria disso...

Nas horas seguintes e mais, nos anos seguintes, ouvi do velho Acreanossaurus Rex um zilhão de histórias maravilhosas, tantas que nem que eu escrevesse um livro inteiro seria capaz de dar conta de conta-las. Por isso, em homenagem a sua mais recente galhofa (dizem que Océlio morreu, mas eu não acre dito) vou apenas relembrar algumas passagens de sua trajetória tão tortuosa quanto o traçado dos rios acreanos.

Do Xapury

Océlio nasceu em Xapuri, neto do Coronel Benedito Medeiros, seringalista como todos os coronéis daquela época e um dos primeiros a desbravar essas terras em fins do século XIX, pouco depois de João Damasceno Girão. Filho do Major João Felipe de Medeiros, descrito com muito orgulho por Océlio como um dos heróis da Revolução Acreana e responsável pela importação das armas utilizadas pelos revolucionários contra os bolivianos. E Océlio ainda chegou a ver os barris de farinha de trigo dentro dos quais chegavam disfarçadas as armas que seriam decisivas para o sucesso acreano no confronto.

Como era de praxe entre as famílias mais abastadas daquela época, mandaram Océlio estudar fora e tão logo ele chegou já formado o Governador do Território o convidou para trabalhar a frente do Departamento de Educação. Foi uma época de grandes noitadas em companhia de Juvenal Antunes e outros boêmios da cidade que protagonizavam então histórias verdadeiramente impublicáveis pelas ruas da cidade de Rio Branco (quem quiser saber mais detalhes sugiro a leitura de “A Represa”).

Como não consigo ser tão indiscreto e sincero como Océlio vou me reservar o direito de não citar nomes em algumas situações. Assim, não demorou muito para que esse governador de triste memória (basta saber que havia sido nomeado por Getúlio Vargas durante a Ditadura do Estado Novo) mandasse Océlio realizar alguns desvios básicos da verba pública, ao que Océlio se recusou. Foi o bastante para que o tal Governador envolvesse Océlio num caso escabroso que causou horror e furor na tradicional sociedade acreana da época.

Não restou então ao Océlio outra saída senão partir do Acre, talvez para sempre, ele pensava. Assim se deu sua primeira morte. E como vingança pelo exílio (uma morte em vida) a que o haviam condenado escreveu “A Represa” ainda a bordo do navio que o desterrou ao longínquo Rio de Janeiro, em 1942. Por outro lado, nunca conseguiu se livrar da história que serviu como mote para sua partida do Acre e a cada novo emprego que ia procurar, antes dele chegava informações do que teria acontecido aqui, como uma maldição sempre renovada.

Não vou aqui detalhar as aventuras e dissabores de Océlio desde então. Basta saber que só nos anos 70 conseguiu finalmente voltar ao Acre.

Entretanto, não conseguiu ser feliz com o Acre que encontrou em seu retorno. A floresta estava sendo transformada em pasto e a sombra da morte rondava à solta nas ruas e nos varadouros. Abriu então sua banca de advocacia ali no bairro da Base, onde atendia a todos que podiam ou que não podiam pagar seus honorários. Foi assim que atendeu ao pessoal do Mestre Irineu Serra que estava enfrentando problemas com a tentativa da Ditadura Militar classificar o Daime como uma droga comum e ameaçava proibir suas práticas religiosas.

Mas é claro que Océlio tampouco deixou de aprontar das suas e contam que algumas festas promovidas por ele na boate Poronga que funcionou ali no Aeroporto Velho deram lugar a acontecimentos tão impublicáveis quanto aquelas outras histórias dos anos 40. E não demorou para que um assassinato ocorrido no mesmo Bairro da Base onde ele atuava o forçasse a novamente partir do Acre, antes que ele mesmo se tornasse a próxima vítima dos acontecimentos. Océlio como que morreu então, pela segunda vez. Mas não deixou de escrever diversos livros contra a devastação que estava ocorrendo no Acre então, bem como sobre suas vitimas, como Chico Mendes. Assim era Océlio, a cada morte uma necessária vingança.

Bem mais recentemente, quando de meu encontro com Océlio em Brasília, ele deixou evidente o enorme amor que sentia pelo Acre e mesmo com muita relutância, já que as três pontes de safena que carregava no peito desaconselhavam fortes emoções, concordou em voltar novamente ao Acre. Foi assim que Océlio se integrou as comemorações do centenário da Revolução Acreana e viveu um antológico reencontro com seu Xapuri no evento realizado em 06 de agosto de 2002. Foi quando ele me disse pela primeira vez: “eu hoje renasci para o Acre”. A mesma frase que diria um ano depois ao ser homenageado pelo Governo do Acre no centenário do Tratado de Petrópolis.

Eu ainda encontrei, mais uma vez Océlio durante um dos Workshops preparatórios da minissérie Amazônia, onde ele mais uma vez encantou a todos com suas histórias de um Acre irônico, critico e lindo em seu destemor e desassombro frente aos opressores de todos os tempos.

Agora, chega a notícia que Océlio morreu de novo. Sinto muito, mas não acredito. Homens como Océlio não costumam morrer definitivamente como os outros, no máximo viram Mapinguari pra assombrar os seringueiros no aceiro da mata. Dizem também que a seu pedido suas cinzas virão para o Acre agora na Semana Santa. Mas eu não me assombraria se ao desembarcar do avião e sentir que está de novo em terras acreanas ele ressurgisse das cinzas, qual fênix, e nos enchesse de prazer com sua enorme e saborosa gargalhada. Vindo do Océlio de Medeiros eu não duvido de nada.

“Vim te rever, meu triste rio nativo,
E te reencontra o coração medroso,
O mesmo velho rio e o mesmo amigo,
Levando o suor e o sangue do meu povo...”
(trecho da poesia “Ao Rio Xapuri” escrita em 1942 em Rio Branco)

 

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de março de 2008
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