MARCELA BARROZO
Diferentemente da época de governador, Jorge Viana recebeu a reportagem do Página 20 pontualmente às 14h30 de ontem, horário previamente combinado por telefone horas antes. No entanto, apesar de não exercer mais o cargo de chefe de Estado, sua vida continua recheada de compromissos. Tanto que concedeu a entrevista em impressionantes 15 minutos. Tempo suficiente, porém, para discorrer sobre os principais assuntos políticos do cenário nacional e local.
Na conversa, cujos principais trechos o leitor poderá conferir a seguir, Jorge fala abertamente sobre uma possível candidatura em 2010. “Não vou dar as costas para quem me ajudou a chegar onde eu cheguei.” Sobre a recusa de assumir a vaga deixada pela amiga Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente, foi sucinto: “Para mim, assumir um ministério são águas passadas”. No entanto, garantiu ao presidente Lula que está disponível para ajudar no que fosse possível para que o novo ministro, Carlos Minc, seja bem sucedido. “Se todos nós ajudarmos, ele vai desempenhar um bom papel.”
Quais suas impressões sobre a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente?
Lamento muitíssimo, acho que ela era, e é agora mais ainda, a maior autoridade na questão ambiental. Tanto dentro como fora do Brasil, ela cresceu muito no ministério. Eu conversei com ela, chegou um ponto em que para ela também não dava a relação dentro do governo. Vejo, até com certa naturalidade, também que foi bom para o governo, bom para ela, mas muito ruim para o meio ambiente e para o Brasil de um modo geral.
O que o senhor acha do novo ministro, Carlos Minc?
A Marina terminou como símbolo dessa questão ambiental. Mas o Minc também é um símbolo. É uma das pessoas que iniciou a luta na causa da ecologia desde a época de Chico Mendes. Ele tem uma relação com o Acre e conosco. Ele é uma pessoa muito atenciosa com a Marina, comigo, com todas as lideranças daqui. Então, eu não tenho dúvidas, já dei até declarações de que não vou ocupar nenhum cargo formal, mas falei com o presidente Lula ontem [quarta-feira] sobre minha disposição total de ajudar. Também disse a Marina que nós devemos nos unir nas questões da Amazônia, do Acre e do Brasil, que são de nosso interesse. Claro que, se todo mundo ajudar, ele vai desenvolver um bom trabalho.
Por que o senhor recusou o convite para assumir a pasta?
Para mim, são águas passadas. Estou desenvolvendo um trabalho que o próprio presidente Lula me ajudou a construir, no setor privado, em parceria com o governo federal. Estou procurando ajudar o Acre. Agora, há circunstâncias que não contam muito. Meu problema foi o dia de ontem e anteontem. Graças a Deus saí muito bem de uma conversa com o presidente e chegamos a um entendimento que imagino seja o melhor. A Marina está saindo e isso, para nós, tem um significado grande. E só quero que as pessoas entendam que o que vai fazer o Acre ir para frente, a Amazônia achar seu caminho, não é um ou outro cargo. Mais do que isso. É a ação de um conjunto de forças políticas, é o papel que cada um de nós pode desempenhar.
Qual a importância de o Acre ocupar cargos em Brasília?
Durante muitos anos o Acre ficou fazendo conta de cargos e tinha ‘carguinhos’ pequenos. O prestígio e os espaços que o Acre conquistou não estão presos aos cargos. Estão presos a coisas boas que conquistamos aqui, à respeitabilidade e credibilidade que conquistamos. É isso que faz com que o Acre tenha segurança de poder ir para frente.
O governador Binho, por exemplo, agora tem mais recursos até do que eu tive, porque estamos andando para frente. Graças a Deus, isso está acontecendo. O prefeito Angelim está tendo agora uma expansão de trabalho. Este ano, o Congresso inaugura uma nova etapa do PAC, com ajuda do presidente Lula, que é uma coisa fantástica. Isso independe dos cargos lá em Brasília. É lógico que o desempenho do senador Tião Viana contribuiu de forma decisiva. E também quero destacar o papel do senador Sibá Machado, que vai fazer falta. Certamente a Marina volta e vai suprir essa falta, mas ele fez um trabalho tão bom que agora vai ter que escolher entre cargo estadual ou federal, porque tão bem desempenhou seu papel no Senado.
Quais suas impressões sobre o governo de Angelim e a candidatura dele à reeleição?
Eu, inclusive, vou fazer uma visita amanhã [hoje] ao prefeito Angelim, como presidente do Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Acre, e acho o seguinte: o Angelim é um achado. Ficamos oito anos sem dizer “temos uma prefeitura, temos um plano, temos um projeto, temos um prefeito”. Foram várias trapalhadas nesses oito anos e agora temos um prefeito. A fase mais difícil era convencer o Angelim a se candidatar. Nós o convencemos. Agora, temos que trabalhar muito, porque não tem eleição fácil. Temos que ser muito “pé no chão” e saber que a cidade está em boas mãos. E que agora vem a melhor fase, porque estão Binho, Lula e Angelim juntos.
O senhor vai se candidatar em 2010?
Não precisa ser analista nem fazer pesquisa. É uma possibilidade. Estou sem mandato, ninguém acreditava que eu ficaria sem mandato. Agora, depende do PT, da Frente Popular. Eu não vou dar as costas para aqueles que me ajudaram a chegar onde eu cheguei. Tudo que eu tenho na vida hoje, a respeitabilidade que adquiri, foi graças à oportunidade que o povo do Acre me deu, ao meu partido, o PT, e à Frente Popular. E eu não posso chegar agora e dizer “não, eu vou cuidar da minha vida”. Estou à disposição. Mas não sou candidato a nada hoje. Porém, em 2010, se for bom, se for um acordo coletivo, posso vir a ser. E posso até permanecer sem cargo também. Agora estou feliz, trabalhando, está tudo dando certo na minha vida, estou me sentindo útil, acumulando uma experiência legal no setor privado. Sou novo ainda.
O senhor acha que vai haver segundo turno?
Nunca tivemos medo de segundo turno. Aliás, as nossas eleições todas foram ganhas em um turno só. Temos que trabalhar, pezinho no chão, muita poeira, e ganhar no primeiro turno. Eu fui eleito duas vezes no primeiro turno, o Binho também. Também não vale o “já ganhou”, tem que trabalhar muito. As condições do Angelim são as melhores entre os prefeitos das capitais do Brasil. Mas eu sempre gosto da política com os pés no chão. Respeitar os adversários e trabalhar, que aí a vitória vem, o prêmio vem. Eles é que têm que ter medo do segundo turno.
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