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“Roliúde” é aqui!

O amor à arte faz com que cineastas acreanos continuem produzindo filmes que traduzem a força do espírito regional

Juracy Xangai
Cineasta Guilherme Francisco
exibe material produzido


Juracy Xangai

Retratos da Vida, filme acreano que ganhou espaço na imprensa há poucos dias, já pode ser encontrado em várias locadoras da capital depois de ter inaugurado a Oscar Vídeo.

Nele, o diretor e ator Guilherme Francisco, 46, atua ao lado da esposa Shirley e do filho Alberto, 7, encenando o já banalizado drama da violência familiar, no qual o marido espanca mulher e filhos enquanto todo mundo faz de conta que não vê.

“Nosso filme é um grito de indignação contra a realidade do descaso, das autoridades e da própria sociedade contra essa violência que continua crescendo e fazendo mais vítimas a cada dia”, declara Guilherme, que tem no filme sua quinta produção e direção individual.

Guilherme é acreano de Rio Branco, filho de pai cearense e mãe sírio-libanesa. Sua paixão pelo cinema começou quando entrou para o Estúdio Cinematográfico Amador de Jovens Acreanos (Ecaja), em 1979. Queria saber os segredos que se escondiam atrás da magia da grande tela.

Aos 15 anos estreou como figurante na “Turma da Pesada” e ator em “Gatinhos e Gatões”, gravados em Super-8 com produção e direção do cineasta acreano João Manhãs, seu mestre até hoje.

Atuando sempre pela Associação Acreana de Cinema (Asacine), Guilherme faz questão de declarar seu respeito ao mais antigo, talvez um dos menos reconhecidos cineastas acreanos, apesar das diversas premiações já conquistadas fora do Estado. “Tenho orgulho de dizer que em minha primeira atuação fui dirigido pelo pai do cinema acreano, o João Batista, mais conhecido como João Manhãs, que considero uma das principais colunas de sobrevivência do cinema acreano.”

A partir daquele período participou de “Rosinha, a Rainha do Sertão”, “Uma Realidade em Conflito” e “Fracassou meu Casamento”. “Rosinha acabou se transformando num dos maiores clássicos do cinema acreano produzido por João Manhãs. Chegou a ser exibido durante a mostra de cinema brasileiro, em Brasília, sendo muito aplaudido.”

Voltas da vida

Apesar do amor ao cinema, as exigências da sobrevivência fizeram de Guilherme um policial militar que acabou indo precocemente para a reserva recebendo de novo a chance de dedicar-se à sétima arte. “Quando recebi meu primeiro salário, em 1981, encomendei uma filmadora que levei dois anos para acabar de pagar. Era meu sonho. Foi um passo importante porque até ali só podia filmar quando o equipamento do Ecaja estava livre”, recorda.

Entre filmes e revelações de fitas, Guilherme e sua equipe foram revelando talentos que ganhariam nova força com “Expedição”, primeiro filme por ele dirigido em 1989. A produção tomaria mais impulso a partir da compra de sua primeira câmera VHS, em 1995. “Era uma Panassonic 3000, a melhor do momento. Estudei cada detalhe, cada recurso, as manhas, pontos fortes e fracos do equipamento. Para financiar meus filmes eu ganhava dinheiro filmando festa de aniversários e casamentos. Daí produzi filmes como ‘Quero Contigo Falar’, o premiado ‘Expedição’ e também um documentário sobre o Samu.”

“Quero Contigo Falar” é um curta-metragem de categoria ficção de boa aceitação pelo público e com prêmios locais. “Fazer filmes no Acre sempre foi uma tarefa difícil, e continua assim. A gente tem de correr atrás dos patrocínios, produzir cenários, improvisar ambientes, atuar, gravar e até editar as imagens. Dá gosto de ver o trabalho pronto, as pessoas aplaudindo, mas nunca ganhei dinheiro com eles. Faço porque gosto mesmo.”

Premiações

A partir do filme “Marcas”, que reproduz a história do conflito entre fazendeiros e os seringueiros que lutavam para defender seu direito à terra, a carreira de Guilherme e sua troupe ganha novo rumo. “Com ele nós vencemos o Festival Acreano de Cinema, em 2004. Em 2005 tiramos o segundo lugar com o filme ‘Quero Contigo falar’.”

Mas a animação não durou muito porque a equipe sentiu-se discriminada durante a realização do prêmio em 2006, quando apresentou “Retratos da Vida, que terminou em segundo lugar no certame.

Filmando e aprendendo

A equipe já grava cenas do próximo filme “O Tráfico”. Guilherme explica: “Mesmo quando trabalhamos ficções, elas expressam o sentimento da sociedade.
Nesse momento, ‘O Tráfico’ expressa a indignação diante da escalada da violência que cresce em todo o Brasil. Apesar das dificuldades, vamos aprendendo mais e mais, evitando cometer erros do passado, e os trabalhos vão ganhando cada vez mais espaço. Só falta obtermos mais reconhecimento das nossas autoridades”.

Emoção na vida real

Ao solicitar socorro do Serviço de atendimento Móvel de Urgência (Samu) para uma das crianças da escola em que trabalha, a atriz Shirley Regina Souza, 38 anos, mãe de quatro filhos com Guilherme, convenceu o marido a produzir um documentário gratuito sobre a instituição. “Fiquei emocionada ao ver o cuidado e o carinho com que os para-médicos carregavam e falavam com a criança. Foi comovente porque era o carinho sincero de alguém que realiza seu trabalho com amor verdadeiro”.

Ela reconhece que tanto o Samu quanto a Polícia Militar estão dentre as instituições que mais tem colaborado ao colocar viaturas participando das filmagens.

Ela recorda que: “Sempre fui apaixonada por cinema, mas comecei fazendo teatro, um ano e meio, no Sesc porque nem sabia que alguém produzisse filmes no Acre. O primeiro filme acreano que vi foi Marcas, lá conheci Guilherme e foi amor à primeira vista, nunca mais nos separamos. Fazemos filmes, gravamos aniversários, casamentos e documentários sempre juntos”.

Alberto Guilherme, sete anos, o filho que estreou em “Quero contigo falar”, “Retratos da vida”, agora atua também em “O tráfico”. Shirley e Fátima Cordeiro foram consideradas as melhores atrizes no Festival acreano de Cinema de 2006.

Manhãs do cinema acreano

O poético nome de João Manhãs ainda não recebeu o reconhecimento devido pelos esforços empenhados para manter viva a arte cinematográfica acreana. Aos 58 anos e oito filhos, lembra que sua primeira aparição artística aconteceu quando tinha uns sete anos de idade.

“Morava no seringal Maracanã, onde gostava de cantar. Então meu pai me levou com minha irmã Ana Maria que tocava uma sanfona de quatro baixos, para cantar na antiga rádio Voz da Cidade, em Sena Madureira. Na verdade era um serviço de alto-falantes que distribuía nossa voz pela cidade.”

Aos 14 anos, já cantando em Rio Branco, ganhou o apelido de Teixeirinha do Acre, mas prefere mesmo ser chamado de João Manhãs. No dia 16 de março de 1973, participava do grupo que fundou o Ecaja. “Dali por diante nunca mais parei de produzir filmes e documentários. Formei-me em letras pela Ufac, tornei-me professor, mas nunca abandonei o cinema.”

Ele lembra que seu sonho pessoal era fazer jornalismo internacional - chegou mesmo a trabalhar como câmera da TV Globo nos idos de 1976, com Marilena Chiarelli.

Fez curso de fotografia e depois participou do concurso “Acre Hoje”, conquistando ineditamente o primeiro e segundo lugares ao mesmo tempo. A premiação o levou a expor sua fotos na plataforma rodoviária de Brasília, como forma de divulgar a imagem do Acre durante o governo de Geraldo Mesquita, já no fim da década de 70. Mas essa é outra história.

A temporada em Brasília levou-o a conhecer Marco Antônio, que sendo empossado diretor da Fundação de Cultura do Distrito Federal, convidou João Manhãs para que apresentasse “Rosinha, a Rainha do Sertão”, amplamente aplaudida como apresentação especial no Festival Nacional de Cinema.

Ele, Adalberto Ferreira e Dourado são personagens de uma tese de doutorado elaborada por um professor da Ufac sobre o cinema acreano.

Depois de fazer escola e estimular o surgimento de tantos outros cineastas locais, João Manhãs considera que sua despedida da sétima arte foi feita em “Seu Chichico”, filme que tem no seringueiro que dá nome ao filme sua expulsão da colocação pelo fazendeiro Pedro Blum. Chichico acaba jogado e marginalizado na periferia da capital, seu filho envolve-se com drogas e a filha cai na prostituição.

“Chichico é a mágoa de um João Manhãs que nunca encontrou seu espaço nem apoio para poder mostrar sua arte. O filme se converte em lamento de duas pessoas que sofrem dos dois lados da moeda, porque Chichico e o próprio Pedro Blum são vítimas de um sistema que manipula ambos de forma que nenhum deles recebe os verdadeiros benefícios do seu esforço.”

O filme recebeu menção honrosa durante o Festival Acreano de Cinema do ano passado e ganhou com os dois melhores atores - Simplício interpretando Chichico e Fátima Cordeiro como Sebastiana.

Mesmo desestimulado, Manhãs esboça vontade de produzir mais dois trabalhos que já estão até bem alinhavados. “O inferno da Bolívia” é o primeiro. “Precisamos mostrar o que está acontecendo lá. Os maus-tratos e a situação dos seringueiros brasileiros que ainda sobrevivem em terra estrangeira”, enfatiza.

Outro é uma ficção com pique de documentário romanceado intitulado “Poiacham, a Tribo Perdida”, é mais um dos muitos povos indígenas desconhecidos que integram o lendário popular acreano, que, a exemplo do cinema, caminha entre a realidade e a fantasia até perder-se nas brumas do tempo.

 

 

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Rio Branco-AC, 16 de agosto de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
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Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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