COTIDIANO

Tradição e arte embriagante

Diarista descobre na arte de pintar cocos cheios de cachaça seu gosto por um dos trabalhos mais tradicionais do Juruá

Juracy Xangai
Pedro Paulo mostra sua arte
produzida tendo o coco como
matéria-prima principal


Juracy Xangai

Ir a Cruzeiro do Sul e não trazer farinha é quase uma heresia, mas a grande maioria traz também na bagagem, fazendo menos alarde, cocos decorados com motivos que vão de paisagens, animais e brasões de times de futebol, sempre cheios de cachaça, a qual, depois de curtida é bebida em ocasiões especiais, ou ao gosto do freguês.

Diarista morador do bairro do Telégrafo, em Cruzeiro do Sul, Pedro Paulo da Silva, 28 anos, desde menino gostava de borrar o papel com seus desenhos e figuras que aos poucos foram tomando formas mais definidas, ganhando cor e vida. “Meu irmão já pintava cocos para vender, então eu ficava olhando aquele trabalho dele e resolvi fazer do meu jeito, o pessoal gostou e não falta freguesia”.

Pedro Paulo explica que para fazer esse trabalho também tem ciência. “Isto é tradição aqui em Cruzeiro do Sul desde o tempo dos antigos. Não sei de onde aprenderam, mas sei que todo mundo gosta. A ciência está em pegar um coco bem seco, cortar e tirar toda a bucha com cuidado para não ferir a casca. Depois a gente lixa bem, só então é que faz o desenho e cobre com verniz para ficar bem bonito”.

Mais do que cachaça que se vende apenas para embriagar, estes cocos tem gosto de celebração e, por isso exigem alguns cuidados que fazem parte do seu ritual de consumo. “O coco precisa ser curtido por pelo menos 40 dias, nesse tempo a cachaça consome toda a polpa e a bebida fica bem grossa, gostosa. A gente bebe com calma para saborear bem. É gostoso demais, mas só dá pra encher uma vez, depois a casca vira enfeite, por isso é que a gente faz assim com tanto capricho”.

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de setembro de 2006
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