OPINIÃO
   RETRATOS DO JURUÁ

Nelson Liano Jr.

 

O Sonho não Acabou

Acho que John Lennon se precipitou quando afirmou que “o sonho acabou”, no final dos anos 70. É evidente que a fala dele se referia ao final da banda de maior sucesso na história da cultura pop do planeta, The Beatles. Mas a frase dele tinha também uma conotação referente aos movimentos de libertação social. Na verdade, o sonho não acabou, no que se refere aos movimentos sociais, e o Acre é um exemplo disso. Esta semana eu estive acompanhando a visita da ex-primeira dama francesa, Danielle Miterrand, à escola Yorenka Ãtame, dos ashaninkas, em Marechal Thaumaturgo, no Alto Juruá. Eu pude comprovar a organização social dos ashaninkas que conseguiram mobilizar pessoas em várias partes do planeta para construir esse centro de troca de experiências dos povos da floresta. A iniciativa, pioneira no mundo inteiro, mostra a importância da organização social e a retomada da cultura de um povo indígena para sobreviver.

Yorenka Ãtame é uma oportunidade para que indígenas e outras organizações sociais possam debater e estudar temas relativos a produção na floresta na perspectiva de uma conduta ambientalmente correta. Assim, os próprios povos da floresta poderão tomar o destino em suas próprias mãos sem a tutela de outros interesses.

Benki Pianko, Francisco Pianko, Isak Pianko, Bebito Pianko, Moisés Pianko e o cacique Antônio Pianko deram um show de organização na recepção da ex-primeira dama francesa. Uma organização profissional que abre a perspectiva de um turismo ecológico profissional no Alto Juruá. Vale lembrar, que as duas nações indígenas que retomaram a sua cultura tradicional, os ashaninkas e os yawanawás, conseguiram ampliar a sua influência internacional abrindo as perspectivas de uma sobrevivência dos seus povos com dignidade.

Num Estado governado, por um ativista de movimentos populares, como é o caso de Binho Marques, as organizações sociais de base poderão proliferar fazendo do Acre um exemplo nessa área para a nação brasileira. É claro, que eu me refiro as organizações e associações nascidas naturalmente das próprias comunidades. Todo mundo sabe que as vezes surgem outros interesses inconfessáveis de gente que quer se aproveitar da generosidade da população acreana. Com um movimento social forte tanto na zona rural como nas áreas urbanas o Acre poderá traçar um caminho em direção ao futuro em que o ser humano em harmonia com a floresta sejam os grandes protagonistas da nossa história.

Gol, a novela contínua

Com o cancelamento dos vôos da Gol Linhas Aéreas para Cruzeiro do Sul, na última sexta e sábado, chegar ou sair do Juruá virou uma novela. Todos os aviões estão lotados até a próxima quinta. Se alguém precisar viajar de emergência para a Capital acreana terá de enfrentar os mais de 600 km da BR 364 ainda aberta. Além disso, os preços subiram misteriosamente. Aquela tarifa de R$ 119,00 só é encontrada em sonhos. Tem gente pagando até próximo dos R$ 300,00, dependendo do dia em que fez a compra do bilhete. O preço mínimo é R$ 170,00. Sem falar nas limitações de transporte de enfermos e produtos biológicos. A Gol veio para fazer concorrência a Rico. Mas com sua política agressiva de conquista de mercado se tornou a única a ligar o Juruá ao resto do mundo por via aérea. Um verdadeiro presente de grego para a população. Quem já sabia que isso iria acontecer era o senador Tião Viana (PT-AC) que inclusive avisou do risco da pressão política sobre a empresa tira-la de circulação deixando o Juruá sem nenhuma companhia aérea. É um risco muito grande para uma região que tem dado provas da capacidade que tem para crescer economicamente gerando novas oportunidades ao povo acreano.

Boxe no Juruá

Lamentável o que ocorreu no município de Porto Walter no começo da semana que passou. Vereadores e o prefeito Neuzari Pinheiro se desentenderam e foram as vias de fato. Resumindo, partiram para a agressão física. Quem vai decidir quem tem ou não razão nesse caso é a polícia. Mas o que preocupa é o desrespeito pela democracia. Um eleitor vota num vereador e num prefeito para trabalhar em benefício da população, não para protagonizarem cenas de pugilato. Quando os eleitores vêem que esses representantes estão desrespeitando seus votos de confiança a decepção se torna muito grande. Foram anos de luta para conseguirmos consignar a democracia no Brasil. Muitas pessoas, inclusive, morreram por essa causa. É impensável ver divergências políticas serem resolvidas no “braço”. A mãe democracia sangra com atitudes como essas. Os políticos ficam ainda mais desacreditados. E a população sofre porque sente que interesses pessoais estão acima das suas necessidades prementes. Vamos acordar para a nova era política que já começou no Acre, minha gente. Paz, amor e trabalho.

Bola fora

É impressionante como alguns coleguinhas da imprensa de Rio Branco ficam especulando sobre as próximas eleições municipais de Cruzeiro do Sul e acabam chutando a bola para arquibancada. Aliás, já está na hora desses jornalistas procurarem fontes de informações fidedignas para não ficarem escrevendo besteiras sobre o quê não sabem.

Até a próxima

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de setembro de 2007
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