OPINIÃO
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Maria Regina Canhos Vicentin *

 

Felicidade a qualquer preço

Esta semana eu fui a uma palestra que me fez lembrar um episódio da minha infância em que me reunia com outras crianças para fazer frutas batidas com leite no liquidificador. Cada qual colocava um ingrediente e disputávamos aquele que ficaria mais gostoso. Pois bem, a preleção parecia o tal vitaminado, misturando uma série de assuntos e conceitos. Confesso que o sabor não foi agradável para mim. Entre outras coisas, e muitos chavões, a palestrante disse que devemos ser felizes e, para tanto, precisamos deixar de lado “tudo aquilo” que nos amarra e não nos deixa seguir o caminho que julgamos ser o melhor para nós. Entre esse “tudo aquilo”: os amigos que já não possuem condição financeira para nos acompanhar, o cônjuge que não alcança o nosso aperfeiçoamento intelectual e espiritual, e a família que sufoca nossas pretensões.

Em síntese, a palestrante propunha que compartilhássemos a vida com as pessoas próximas até o momento em que nos fosse interessante. Posteriormente, já com outra visão de mundo e/ou outro status financeiro, deveríamos partir em busca de novos amigos e amores. Ao final da preleção, foi aplaudida e cercada por dezenas de pessoas. Vendeu diversos livros. Havia muitos sorrisos e troca de olhares cúmplices. Eu, porém, saí de lá arrasada. Percebi que, efetivamente, estou andando na contra-mão de direção. Mas tenho os meus motivos, e vou ilustra-los com uma pequena história verídica.

“Ele já avô, filhos criados, patrimônio constituído, integridade a toda prova e cristão praticante, encantou-se por uma mulher mais jovem e bonita que a esposa com quem dividiu muitos anos de sua vida. Abandonou tudo para desfrutar momentos excitantes ao lado de sua mais nova paixão, negando-se a escutar conselhos de pessoas mais experientes e ponderadas. Queria curtir o momento, e virou criança de novo. Consumiu todo o patrimônio conquistado em anos de trabalho numa aventura que durou apenas alguns meses. Perdeu o grande amor de sua vida. Seus filhos se envergonhavam do pai, e os netos já não freqüentavam sua casa. Os amigos de sempre haviam sido trocados por bajuladores que, com o fim das festas e do dinheiro, bateram em retirada. Ficou sozinho depois de ter tido tudo”.

Estou preocupada com a nossa necessidade de ser feliz a qualquer preço. E mais, estou preocupada com a nossa necessidade de ser feliz à custa da infelicidade dos nossos entes queridos: nossos pais, nossos filhos, nosso cônjuge. Onde será que esse vale tudo vai nos levar? Atravessamos tempos difíceis, onde nossa satisfação ocupa um lugar privilegiado em nossas orações e súplicas. Será que não percebemos que a família é um bem extremamente precioso, talvez, o mais precioso de todos? Ela é o berço que nos acolhe quando nascemos, a mão que nos guia quando crescemos, o apoio que buscamos quando iniciamos nossa jornada adulta, a certeza que conforta diante das inseguranças, o amor que nos encoraja frente aos desafios cotidianos, a paz que buscamos em nosso repouso, a paciência afetuosa com as limitações da velhice. A família é tudo de bom ou, pelo menos, deveria ser. Por favor, reflita sobre isso. Felicidade a qualquer preço é uma tremenda fria!

* Psicóloga e escritora. Adquira em breve seu mais novo livro: Superdicas para ser feliz no amor – Editora Celebris.

 
 
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Rio Branco-AC, 16 de setembro de 2007
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