COTIDIANO

Mandou, chegou

Carteiro viaja de bicicleta pelos municípios do Acre

Cedida
Cleyton, em sua
bicicleta, viajou 1.360 quilômetros


Talitta Cordeiro

Durante 19 dias, o carteiro Cleyton Pereira Nogueira, 27, pedalou 1.360 quilômetros na BR-364. Ele partiu de Rio Branco para Cruzeiro do Sul, conheceu Rodrigues Alves e Mâncio Lima, e regressou para a capital. Para custear a viagem, ele não contou com nenhum patrocínio. As despesas foram pagas com o prêmio que venceu na Corrida do Carteiro, realizada este ano.

Cleyton Nogueira levou na bagagem apenas roupas, peças para a bicicleta, macarrão instantâneo e uma pequena barraca para dormir. “Este foi o segundo ano que fiz a viagem”, revela.

Aparentemente, Cleyton Nogueira é um carteiro como os demais colegas de trabalho. Diariamente, percorre os bairros de Rio Branco entregando correspondência a pé. A diferença é que o espírito de aventura corre nas suas veias.

Durante suas férias, ele monta na bicicleta e parte em busca de aventuras. A prova é tanto que, menos de uma semana após ter concluído a viagem ao Juruá, ele pôs a bicicleta na estrada e pedalou até Assis Brasil, na fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru. Foram mais 360 quilômetros.

Natural de Rio Branco, Cleyton Pereira Nogueira, 27, é carteiro há cinco anos. Acostumado a pedalar, sempre ficava imaginando como seria uma viagem de bicicleta pelos municípios acreanos, onde a dificuldade de acesso por estrada é muito grande.

A viagem planejada teria que ser emocionante. Na primeira vez, resolveu ir a Cruzeiro do Sul. “Já conhecia alguns municípios por via aérea, mas queria vê-los de forma mais detalhada”, afirma.

Preparativos para viagem

Como trabalha o dia todo, Cleclite, como é chamado por alguns amigos, não via outra saída a não ser esperar por suas férias. Foram oito meses de muita ansiedade e pesquisa. “Conversei com pessoas mais velhas, que tinham experiência com a estrada. Busquei informações na internet sobre população, economia, rios, pratos típicos e principalmente sobre a distância que teria que percorrer”, revela.

Apesar de todo preparativo, o aventureiro deixa escapar que teve medo, “pois não conhecia nada, não sabia o que iria encontrar e onde iria chegar, mas principalmente se iria agüentar a viagem”.

A viagem - Com pouco dinheiro para comer, Cleyton contou com ajuda dos moradores e trabalhadores da estrada e dormia em sua pequena barraca. “As pessoas achavam que eu era louco, vagabundo, foragido, ou hippie”, diz.

Segundo ele, a cada município que chegava, parava para descansar e tomar bastante água que era escassa na estrada. “Quando eu contava às pessoas qual era o meu objetivo, via a preocupação e acolhimento delas, que me convidavam para comer ou até mesmo para dormir”, destaca.

Ao longo da estrada, revela, a solidão era o maior problema. A vontade de chorar lhe acompanhava a todo instante, por causa da solidão, fome e sede. Mas, tudo foi superado com fé, força e muita determinação. “Minha vida mudou. Apesar de meus próprios amigos e familiares acharem que sou louco. Tenho hoje uma outra concepção de vida. Nessa viagem pude ver a dificuldade que muitas pessoas têm para sobreviver. Visitei todas as igrejas e fortaleci minha fé”, declara.

O próximo desafio de Cleyton Nogueira está marcado para o próximo ano: ele pretende pedalar pelas Cordilheiras dos Andes até Macchu Picchu.

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de outubro de 2005
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