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Amazônia está virando sertão Seca está levando isolamento, fome e doenças de uma ponta a outra da outrora maior bacia hidrográfica do mundo |
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Brasília – A região onde está situada a maior bacia hidrográfica do mundo está seca de uma ponta a outra. De Iquitos, no nordeste peruano, onde nasce, até Santarém, no Pará, próximo à sua foz, o grande rio Amazonas atingiu suas cotas mais baixas das últimas décadas devido à seca que se alastra nos últimos meses ao longo da maior floresta tropical do planeta. A seca do rio Amazonas vem acompanhada da queda do nível das águas de todos os seus afluentes, entre eles o Juruá e o Purus, que banham o território acreano, onde a falta de chuvas ameaçou com fogo recentemente grande parte de sua floresta. A seca, que já transforma rios e igarapés em desertos, lamaçais e em estradas, está provocando um clima de desolação de uma ponta a outra da bacia amazônica, levando desespero, fome e doença para dezenas de milhares de pescadores e trabalhadores extrativistas que sempre tiveram nos rios e igarapés sua principal fonte de sobrevivência e sua única via de acesso às grandes e médias cidades da região. No vizinho estado do Amazonas, onde a situação é mais grave, o governador Eduardo Braga simplesmente decretou no início desta semana estado de calamidade pública em todos os municípios do estado, cujas populações penam há vários dias com a falta de água potável, de comida e de remédios. São ao todo 62 municípios sofrendo com a seca implacável e a redução recorde do nível das águas dos rios e igarapés da região. Regiões daquele estado que eram cortadas por rios caudalosos, hoje são cercadas por areia ou poças de lama encobertas por mares de peixes mortos por falta de água. “Municípios como Caapiranga estão completamente isolados, onde só é possível chegar de helicóptero”, disse o governador amazonense, ao apelar para as Forças Armadas levarem a todos os municí-pios amazonenses remédios, cestas básicas e hipoclorito para tornar a água potável. Segundo o governador, o relatório da Defesa Civil apontou quatro municípios em estado de calamidade pública e mais 15 em estado de alerta. “Por isso, decidimos nos adiantar e decretar estado de calamidade pública em todo o Amazonas, que é todo coberto pela malha hidroviária que sofre com a estiagem”, sentenciou Braga. Desmatamento, queimadas e ausência de mata ciliar A falta de chuvas na bacia amazônica também já prejudica a navegação nos rios da região oeste do Pará, entre eles o Amazonas e o Tapajós, que estão secando neste prolongado verão amazônico. Os pescadores e o meio ambiente também já sofrem graves conseqüências da falta d’água. Em locais mais secos do rio Arapiuns, afluente do Tapajós, milhares de peixes estão morrendo asfixiados por falta de água. A pesca comercial no lago do Maicá, no rio Amazonas, está proibida desde a semana passada pelos pescadores. Em frente à cidade de Santarém, um navio cargueiro encalhou num banco de areia devido a pouca profundidade do rio Tapajós. O acidente ocorreu num local onde o Tapajós antes desaguava de forma abundante no Amazonas, considerado o maior rio do mundo em volume de água. O desmatamento, as queimadas e a destruição da mata ciliar nas encostas dos rios, além do aquecimento global, são apontados por autoridades paraenses como causas da seca na região. Diante da prolongada estiagem, a possibilidade de restringir a navegação de navios de grande calado e transatlânticos turísticos pela área começa a ser cogitada. Essa possibilidade deve resultar em graves prejuízos para a economia local, que é sustentada pelo turismo e pela exportação de madeira, soja e pescado. Os pescadores de Santarém informaram à Agência Estado que nunca tinham visto os rios Tapajós e Amazonas com tão pouca profundidade como agora. “Tenho 57 anos e não me lembro de ter presenciado uma coisa dessas nem quando era criança”, comentou o pescador José Wilson de Jesus. Para o pescador, isso está acontecendo porque “o homem anda fazendo coisas muito erradas com a natureza e ela está se vingando”. A prova da seca, Segundo o pesquisador Luís Alfredo Costa de Souza, um mineiro que já morou em Belterra, município vizinho de Santarém, a prova da seca está diante de todos que contemplam o Tapajós do cais da cidade de Santarém, onde o rio já sofreu um recuo de 400 metros do seu nível normal, desde julho. O lugar onde as ondas quebravam hoje virou uma imensa praia de lama. Antes caudaloso, o rio Tapajós apresentava há dois dias um nível de água igual ao do rio Acre, considerado região de cabeceiras dos afluentes do Amazonas. Um levantamento feito pela Marinha do Brasil indicou que o Tapajós atingiu este mês a uma marca de 2,10 metros, o que significa dois metros mais seco que no mesmo período do ano passado. Nascente do Amazonas nunca esteve tão baixa Segundo publicou ainda a Agência Estado, o rio Amazonas atingiu no início deste mês, na região de Iquitos, no nordeste do Peru, seu nível mais baixo dos últimos 36 anos para esta época do ano. O nível do rio está em 106,50 metros sobre o nível do mar, o mais baixo já observado desde que começou a funcionar a estação de registro da Empresa Nacional de Portos (Enapu), em 1969. Esse nível corresponde a uma corrente fraca de 12.000 m³/s. O recorde anterior havia sido registrado em setembro de 1995, com 106,60 metros sobre o nível do mar, segundo o hidrólogo francês Jean-Loup Guyot, do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento e encarregado do projeto Hidrologia da Bacia Amazônica. A queda recorde dos níveis de água no Amazonas e em seus afluentes fez com que o transporte fluvial, também único meio de comunicação de muitos povoados da selva peruana, passasse a ser demorado e muito difícil. Ena Jaime, climatologista do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Senamhi), disse que está em alerta, fazendo estudos e o acompanhamento do comportamento do clima na selva norte do Peru. “Neste ano tivemos fenômenos adversos muito pouco freqüentes afetando o rio Amazonas, que voltou a decair por causa do atraso das chuvas”, explicou. Segundo a climatologista, uma das situações que contribuiu para o atraso das chuvas foi a presença tardia dos furacões no Hemisfério Norte. “Quando os sistemas atmosféricos estavam chegando de forma normal a nosso hemisfério, apareceram os furacões, que moveram o sistema para os países do Norte, como a Colômbia e a Venezuela”, explicou Ena Jaime. A esta situação pouco freqüente se somou o alto índice de desmatamento na Amazônia. O pesquisador Fernando Rodrigues, do Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), com sede na região florestal de Loreto, no Norte do Peru, estimou em 10 milhões os hectares desmatados por migrações andinas, queimadas de terras, corte indiscriminado, tráfico de drogas e outros. A climatologista informou que os estudos de Senamhi estimam que as chuvas deverão chegar à selva Norte peruana até o fim deste mês, quando, então, a situação começará a se normalizar. |
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