COTIDIANO

Os sinos da Glória

Há 53 anos, Alberto Rodrigues toca os sinos da catedral de Cruzeiro do Sul

Juracy Xangai
Além de tocar o sino, alberto é também ministro da eucaristia da Igreja


Juracy Xangai

Cruzeiro do Sul acorda às cinco horas da manhã com as potentes badaladas dos sinos da Catedral de Nossa Senhora da Glória.

Assim começa mais um dia na vida de todos os cruzeirenses e de um em especial: Alberto Rodrigues de Brito,72 anos, pai de oito filhos e que há 53 anos é o responsável por tocar os sinos anunciando missas, novenas, mortes e até a escolha de um novo papa.

Nascido na comunidade de Santana, no seringal Cruzeiro do Vale, morou ainda alguns anos em Porto Walter, ali, antes de partir para Cruzeiro do Sul onde chegou em sete de abril de 1952, aprendeu com um certo “Luiz” que trabalhava na igreja local, a arte de tocar sinos.

Assim o jovem ex-seringueiro chegou a Cruzeiro de emprego certo para tocar os sinos da antiga matriz localizada no Alto da Glória, onde mora até hoje. Dali parte todas as madrugadas, pontualmente às 20 para as cinco, a fim de tocar o sino da catedral.

Com simplicidade ele esclarece: “Tocar sino não tem segredo, só é preciso saber qual é o tipo de batida certa para cada ocasião”, esclarece. A chamada aos fiéis para missas é repetida três vezes com intervalo de cinco minutos entre cada uma. “Cada chamada conta três badaladas no sino, a última acontece cinco minutos antes do início da missa ou novena”.

Ele lembra que na antiga matriz do Alto da Glória havia um carrilhão de três sinos, mas na Catedral há apenas dois: um de som grave e outro agudo. Domingo é o dia em que mais se ouvem os sinos, pois há missa às seis, às 8h15min e às 19h30min. De terça a sexta-feira elas acontecem às seis da manhã.

Quando morre alguém o toque dos sinos se faz com badaladas lentas e bem compassadas. As batidas são no sino menor quando é corpo de mulher e no sino maior se for homem. Anjinhos, ou seja, o enterro de crianças mortas é anunciado com repique no sino menor. “O sino é tocado até que o corpo esteja dentro da nave da igreja para ser encomendado”.

Ele também marca ocasiões tão especiais quanto a morte e a escolha de um novo Papa e, para isso também há um toque especial. “Seja na morte ou no momento em que se anuncia o nome daquele que foi escolhido para ser o novo papa nós tocamos os sinos em repique”.

Mas vida de tocador de sino tem lá suas aventuras como esclarece seu Alberto. “Muitas vezes a corda do badalo escapa do sino então não tem jeito, tenho de subir por essa escada estreitinha até lá em cima para que esteja funcionando quando for hora de tocar de novo”. A aventura está em subir os mais de 40 metros da catedral a qualquer hora do dia ou da noite porque o sino não pode deixar de tocar.

Outro acidente, ou quase isso, é o fato de que vez por outra algum adolescente não resiste a tentação de tocar os sinos, já que por não haver torre naquela catedral, a corda fica junto aos bancos em que se sentam os fiéis. Roubam nessas ocasiões a cena que por direito pertence a Alberto e, isso ninguém discute.

Mas como não podia deixar de ser, a vida também prega peças nos tocadores de sino conforme relata seu Alberto sempre bem humorado: “Acordei numa madrugada desci para a igreja e toquei o sino às quatro horas da manhã pensando que já eram cinco, acordei a cidade uma hora antes. Fiquei mais tranqüilo quando soube que o padre Égon que tocava o sino da matriz, antes de mim, também fez a mesma coisa. Acontece”.

Faz-tudo - Além de tocar os sinos da Catedral, Alberto é também ministro da eucaristia, leva comunhão à casa ou onde estiverem os enfermos, quando o padre não está faz ele a encomenda os corpos dos mortos na igreja ou na casa das pessoas. Também na falta de padres para rezar missa faz um culto dominical para atender os fiéis.

Ele faz questão de explicar que quando jovem, já em cruzeiro do Sul trabalhou como carpinteiro, mas passou a dedicar-se totalmente aos trabalhos da igreja, assim criou os oito filhos ao lado da esposa Maria Rondanélia Braga de Morais Brito que era professora desde os tempos do antigo território. “Meus dois seus filhos, Alberam e Alberto, são músicos e tocam violão e outros instrumentos, eu sou o único da família que toca sino”.

 

 
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