| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
Francisco Gregório Filho * |
||
Arvoredo Árvore. Quando pronuncio a palavra árvore, penso numa mangueira. Árvore frondosa, generosa, de muitos galhos, folhas verdes, sombra larga, tronco grosso e raízes compridas. Seu fruto tem caroço, tem fiapos, tem polpa amarelada e gostosa. Gosto de descascar a manga com os dentes e comê-la segurando-a com as mãos; gosto também de chupar o caroço. Aprecio o caldo que escorre pela boca e pelas mãos quando se degusta uma boa manga. Tenho preferência por manga espada e ainda por manga rosa, e entro em delírio chupando uma manguita (carlotinha). Tenho prazer de olhar as mangueiras nos quintais, nas chácaras, nos sítios, nas fazendas de plantio de frutas e experimento enorme sensação de beleza vendo-as às margens das estradas pelo interior do Brasil. Então, pronuncio mangueira. Tem volume, tem gosto, tem tato, tem cor, tem cheiro, tem formato, tem contornos e tem frutos. Uma mangueira carregada de frutos verdes e maduros é um alumbramento para os olhos, e o coração toma sabor. Por isso, quando pronuncio árvore, meu sentimento é de mangueira. Bem, isso eu imaginava. Outro dia descobri que, quando digo árvore, meu coração fala de jaqueira. É que, quando eu era uma criança, meu avô me apresentou a uma jaqueira enorme plantada próximo à escada da cozinha de sua casa. Ele gostava de jaca, jaca-mole, conhecida como jaca-manteiga. Plantada pelas mãos de meu avô quando ainda jovem, lá permanecia a jaqueira, gerando muitos frutos de temporada em temporada. Jacas grandes, jacas Deouenas, carnudas, doces e exalando um perfume embriagador. De tempo em tempo, meu avô presenteava aos vizinhos e amigos, jacas inteiras, madurinhas. E também preparava vários tipos de doces de jaca, até cristalizava línguas de jacas sem os caroços. Diversas vezes presenciei o vô arrumando em pequenas taças saladas de frutas com as línguas de jaca incluídas. Ele apreciava muito, eu gostava. Aprendi com o vovô a plantar mudas de jaqueiras germinadas dos caroços, que espalhávamos no fundo do quintal, e o ajudava, apurando a calda da jaca para o ponto do licor. Licor alcoólico, servido nos aniversários e batizados. Rabisquei e colori muitos papéis com desenhos de jaqueiras nas tardes sem pressa que meu avô promovia. Sob o sol escaldante e sobre folhas de zinco, secávamos os caroços de jaca; depois os mergulhávamos em corantes de urucus para brincar de petecas coloridas. Sabedoria de meu avô, segredos que ele nos passava. Ficávamos um tempo grande olhando a jaqueira, passeando em sua volta. Pois bem, tempos desses, descobri que, quando falo a palavra árvore, as referências recorrentes são também da jaqueira de meu avô e não só das mangueiras que tanto me comovem. Pronunciando a palavra árvore, percebo meu coração desfolhar-se num movimento parecido com o da rosa se abrindo para revelar suas pétalas e perfumar-se inteiro de jacas e mangas. Então, tenho a legítima sensação de estar dando sentido à palavra árvore. Acredito, às vezes, que, quando as pessoas me ouvem, assim, descobrem as suas árvores; suas árvores do coração. Uma pitangueira, uma laranjeira, um coqueiro, uma macieira, uma parreira ou um limoeiro, sei lá. Mas deve ser assim também, quando elas pronunciam a palavra árvore. Compomos um arvoredo. Meu pai era apaixonado pelos cajueiros, disso eu sei. Ele nos convidava para abraçá-los. A relação de meu pai com os cajueiros era comovedora. Ele adorava sentar nos galhos das árvores chupando os frutos. Cajus vermelhos, cajus amarelos, cajus de vez, com sal. Ele era especialista em pratos com caju: saladas, peixes, fritadas, arroz com caju, caju à milanesa, caju no molho do macarrão, etc. E os doces! Eram admiráveis, de aguar a boca. Quando meu pai pronunciava árvore, abraçando o cajueiro, eu vibrava ainda mais com a generosa mangueira expressa em meus olhos e sabia do fundo do coração, a jaqueira de meu avô. Evidente que num cantinho reservado, derramado em ramos, se espalhava o maracujazeiro da minha mãe, o que ela zelava e mimava. Outro dia vi minha irmã alisando umas folhas do abacateiro, olhando com ternura os frutos verdes pendurados. Tentei adivinhar, em silêncio, aquela admiração. Depois, pedi que ela dissesse árvore; veio do tamanho daquele abacateiro. Nada mais falei. Preferi o silêncio, o mesmo de quando assistia a minha avó cuidando dos pés de hortelã no canteiro armado num jirau do quintal lá de casa. Minha avó com os dedos longos, tocava levemente as folhas de hortelã, como se orasse; na verdade, ela mirava. Vovô me contava histórias de árvores que gostavam de ser olhadas, vistas, e adoravam ser apreciadas por nossos olhos. Ele afirmava que a árvore chora, ri, dança e canta. Árvore gosta de companhia. As árvores lá de casa estavam sempre bem acompanhadas; presença de meu avô. * Contador de História |
||
|
||
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Com Leonildo Rosas |
| |
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| ESPORTE |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VIA PÚBLICA |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |