OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Só as palavras sabem

Começaram a tentar conversar a partir de um grande nada, de uma total indefinição, e isto lhes garantia confiança recíproca. As primeiras palavras ditas e ouvidas seriam meio caladas, curtas, cheias de olhos. Havia uma certeza, precisavam ser entendidos, um pelo outro, depois pelos outros, enquanto pudesse haver entendimento. Para dizer e ouvir algo interessante, antes de tudo, era preciso dissuadir as palavras. Era imprescindível dizer algo que só elas sabem.

Perdidos na indefinição, sentiam que não havia muito a dizer nem a ouvir, sem que ficassem, desde logo, entendidos com as palavras, o que lhes parecia tarefa sem-fim. Desde que foram ditas e ouvidas as primeiras palavras, elas persistem inventando versões de si mesmas, saindo das fronteiras que alguém imaginou, alterando o próprio eixo, pedindo outras palavras, expressando, criando, mais ou menos, do que queriam dizer ou esconder. Como as palavras não param em limites, é preciso ter carinho com elas, enamorar-se de suas sutilezas, procurar alguma intimidade.

Matou o leão o caçador. E ele ficou ali, sem entender nada do que fizera com a vítima, a palavra, abatida e sem voz, cheia de nada, sem vida nem sentido, acaba sendo a maior presa. Se é para nada dizer, é melhor calar. O que não foi dito pertence a quem calou. O que foi dito e escutado é do mundo, mesmo que a ninguém interesse.

Dizer algo interessante, pensavam nisso e procuravam palavras. Vozes e ouvidos, sentidos e emoções, quem sabe, poderiam agradar um ao outro. Um era o silêncio, inigualável conhecedor das palavras, desde antes do berço, dos primeiros balbucios, desde quando elas ainda nada diziam. O outro era o tempo, velho conhecido, cheio de histórias, de projetos, acostumado a passar por tudo, sempre esperando mais. Tudo o que as palavras queriam era que eles soltassem o verbo, a língua, que trocassem muitas palavras.

O tempo, com a velha notícia de estar chegando ao fim, a cada dia renasce, e não há palavra que defina essa trapaça. Vindo de longe, lá do começo de tudo, o tempo deveria ser um velho, já de poucas palavras. Mas não. Ele vem passando e renascendo. A cada hoje, surge o dia mais atual, em que tudo que existe vive seu tempo. Ao invés de fim, cada dia parece trazer um novo começo, outro tempo.

O silêncio, que vê o tempo passar, segue-lhe todos os movimentos, é outro velho desconfiado. De tudo que sabe, nada diz. Tendo sido ele quem ensinou às palavras tudo que elas podem expressar, pois nasceu antes delas, prefere nada comentar. Se cada silêncio pode gerar palavras, muitas delas exigem sempre algum silêncio demorado. E ele ouve, mas nada revela. Naturalmente estranho, é exatamente isso que se espera dele.

Palavras, mais palavras, o tempo passa, o silêncio cala, o tempo renasce, o silencia assiste, outras palavras dizem, quem puder ouvir, escute, reproduza, crie. Ficaram entendidos. Interessante é algo muito pessoal. Uma palavra mal colocada, uma expressão mal entendida, aqui ou ali, não era bem isso... O poder das palavras, nem elas definem.

Decidiram seguir tentando, leão e caçador, em busca de palavras. Elas não lhes faltariam, nem sentimentos para calar, muita coisa para interessar, confiavam nisso. O tempo continuaria trapaceando, fingindo que passa e tornando a nascer. O silêncio nada declarou, mas continuaria pensando, reticente. Às palavras restou a expressão, tudo o que há para dizer, para querer escutar. Era uma questão de tempo, logo viria alguma vontade de quebrar o silêncio.

Palavras não faltariam. Não faltam. Basta aproximar-se delas, criar intimidade, dar carinho. Quem passa silêncio e tempo escrevendo, imagina e sabe. Vai soltando palavras pelos ares, gastando quase todas com o tempo, dando-as para o mundo, como eu gostaria de soltar, gastar e dar. Quase todas. Menos as palavras que calei, que são apenas minhas.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 16 de outubro de 2005
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
P E S Q U I S A