ESPECIAL
   ENTREVISTA

Ninguém pode se apropriar da Floresta


Elson Martins (com a colaboração de Júlia Feitoza e Marcos Jorge Dias)

Em dezembro do ano passado, o governador Jorge Viana recebeu em sua residência a equipe que estava trabalhando na edição n.2 da revista Povos da Floresta, que não chegou a ser editada. A entrevista feita na ocasião, entretanto, se mantém atual pela forma aberta como o governador falou de sua relação com Chico Mendes e o movimento dos seringueiros acreanos. Viana pode surpreender a quem não espera dele afirmações carregadas de espírito e magia sobre a floresta, como tradução do governo que comanda há oito anos.

Governador, onde se encaixa o legado do Chico Mendes no seu governo?

Para responder tenho que ir um pouco lá atrás. Todos ficamos atordoados com a morte do Chico no final dos anos 80. Eu lembro que algumas reuniões aconteciam nos altos do supermercado Uai, onde funcionava o CTA (Centro dos Trabalhadores da Amazônia), e a gente ficava tentando entender sem ter ainda uma leitura apropriada - pelo sentimento de emoção, pela ideologia que a gente compartilhava na época- o papel que a gente cumpria. Estávamos atordoados indagando: o que fazer daqui para frente? Aí um pequeno grupo de pessoas tomou a decisão que me parecia ser a mais difícil: a de tentar levar adiante as idéias do Chico e ganhar o governo. Eu lembro bem das palavras do Toinho: era pegar a bandeira do Acre na mão, o hino, a história que o Chico Mendes tinha - junto com outras pessoas - deixado para nós, e levar aquilo para frente.

Nós saímos da situação de pegar um projeto seringueiro, uma reserva extrativista ou alguma coisa ainda a realizar-, para ser governo.

O Chico tinha a consciência de ganhar o governo, de ter o poder na mão para fazer as coisas acontecerem?

Eu não sei se ele tinha a idéia de ganhar o governo, mas de lidar com o poder direto sim, porque o Chico extrapolava. Para ele, ministro, presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Danielle Miterrand eram todos aliados importantes. Ele nunca teve timidez de lidar com o poder, com quem decidia, e de algum jeito isso influenciou também a gente. O Chico não se apequenava. Ao contrário: onde tinha alguém que tinha um poder de decisão maior ele ia atrás e achava. Ele opinava e tentava influenciar, e em muitos casos o poder local era quem não tinha dimensão das coisas. Mas o Chico tinha.

Seu nome foi incorporado ao movimento dos povos da floresta em 1990, nas eleições para o governo. Como foi isso?

A campanha de 1990 só foi o sucesso que foi - apesar de termos sofrido derrota eleitoral no segundo turno,- porque ela tinha lastros, não era uma coisa solta; não era interesse de alguém querer se candidatar e ganhar; o PT era o pior dos caminhos para alguém ganhar o governo naquela época, porque tinha tido apenas dois mil votos com o Hélio Pimenta (professor da UFAC lançado pelo PT em 1986). Mas isso nem foi considerado. Nós colocamos uma coisa muito maior, um projeto livre, leve e solto, e quando todo mundo olhou o negocio já estava contaminando as pessoas. Na minha opinião o Chico não tinha ainda conseguido urbanizar seu projeto que ia muito além da floresta, do Acre, do Brasil e da Amazônia, mas naquela campanha nós rompemos a cerca da cidade, inclusive pelo fato da perda dele, da morte dele. Aí começou uma caminhada difícil que é pilotar um projeto político baseado na responsabilidade de fazer acontecer parte do sonho de Chico Mendes e de muita gente que sonhou junto com ele.

Mas a urbanização do movimento tem sido fiel aos ideais que Chico representava?

Eu acho que não tem como dissociar isso. Nós só conseguimos chegar ao governo e ter sucesso nesse governo porque somos filhos desse movimento. Chico Mendes conseguiu ligar o local com o global, e criou uma ideologia que não foi meramente reivindicatória como a igreja fazia em vários lugares: de terra, trabalho e pão. Terra, trabalho e pão para o Chico tinham outra dimensão; tinham a dimensão do planeta; a dimensão da qualidade. O projeto que a gente tenta levar adiante tem um lastro muito sólido. Veja a importância da floresta: está numa dimensão extraordinária e isso foi fruto do Chico. Nós somos um povo – às vezes a gente não sabe nem traduzir isso, - mas somos um povo, uma civilização nova; e ela está conectada com o mundo.

Nesses oito anos de governo da floresta, onde mais aparecem os resultados inspirados nas idéias do Chico?

Toda vez que entrava na floresta, o Chico tentava traduzi-la para quem estivesse com ele, por mais que o objetivo fosse um “empate”, a visita a uma escola, ou uma reunião da cooperativa...No caminho, no varadouro, ele saia traduzindo: “Olha, isso aqui é uma planta tal”. Ele contava várias histórias ao caminhar pela floresta, para jornalistas, para visitantes. O objetivo podia ser outro, mas ele colocava a floresta no meio. Eu acho que a coisa que o Chico mais gostaria de celebrar é o fato da gente ter trazido a floresta para dentro do palácio, para dentro dos projetos, para dentro das reuniões, para a discussão, porque nós somos um povo da floresta. Antes parecia que a gente poderia ser outra coisa.

A floresta do Acre, então, está salva?

Eu acredito que a floresta está salva. É uma questão de tempo e de mais trabalho ainda. O Acre não tem a possibilidade- eu não consigo ver diferente - nem daqui a 50 anos, de ter menos do que 80% de sua cobertura florestal preservada. O maior legado que o Chico deixou para nós é a questão florestal. É óbvio que nós estamos num processo permanente de luta para que essa coisa se consolide definitivamente; mas as leis, a consciência de quem vive na cidade e do pessoal que trabalha nos setores que se relacionam coma floresta mudou muito. Existe quase um consenso, mesmo entre os que queriam destruir, de que não vai dar para destruir.

O Chico não chegou a conhecer nenhuma das reservas extrativistas. Um dos sonhos dele era ter a garantia da floresta para os seus companheiros...

O Chico apostava no uso sustentado da floresta como saída. Ele falava que era possível ter renda da floresta, que era possível usar as frutas, as castanhas, a borracha. Ele praticou isso. Eu lembro que a primeira fábrica de castanha foi idéia dele. Ele chegava à Funtac (Fundação de Tecnologia do Acre), onde eu trabalhava, e falava comigo que era acreano e tínhamos uma identidade maior. Para mim ele apostava no manejo porque manejo não é uma coisa de propriedade de ninguém. Manejo é usar a floresta de forma sustentável. E aí você pode fazer de várias formas, vários jeitos; isso não é só teoria, isso é prática. Eu mesmo, um dia, sonho ter um pedaço da floresta e praticar o manejo nela para mostrar que a floresta está ali salva, tranqüila, gerando renda, satisfação e retorno econômico. O Chico apostava muito nisso. Não era uma luta apenas pela terra, não era uma coisa comum. O Chico não agia de forma comum. Ele agia de uma forma visionária e muito difícil de fazer naquela época. Meus companheiros mais ligados à luta partidária e política não compreendiam muito isso. Eu cheguei a ouvir de pessoas do plano nacional, da CUT (Central Única dos Trabalhadores) , do PT coisas do tipo: -“Ah! esse cara parece que é doido, estamos aqui com coisas tão emergenciais, tão importantes, e esse cara está querendo colocar outra coisa na pauta”. Mas foi isso que nos fez chegar aonde a gente chegou.

Houve um período na Funtac em que você e seu grupo trabalhavam em pequenos projetos para a floresta. Tinha, por exemplo, o projeto de uma ponte de madeira fácil de deslocar e montar. Essas coisas miúdas não podem ser retomadas?

Sem dúvida. Aquele projeto era do Sérgio Nakamura que é hoje diretor de Estradas e Rodagens. O Sérgio sempre teve o sonho de fazer umas passarelas lá em Xapuri, na comunidade da Sibéria. Na Funtac, a gente procurou não virar órgão público. E a organização não-governamental CTA (Centro dos Trabalhadores na Amazônia) foi um parceiro importante para nossa conexão com as comunidades. A Funtac tinha um corpo mais técnico e de acreano tinha apenas eu fazendo essa ponte com o social. O movimento político das pessoas que viviam na floresta, do qual o Chico é a simbologia maior, foi o nosso achado. A gente se encontrou ali, e o bom era que a educação estava no centro de suas preocupações. Boa parte dos projetos que a gente trabalhou foi para fortalecer a educação. Chegamos a pensar na tecnologia da fábrica de castanha, de pontes para abrir varadouros...

Como é que foi o encontro do estudante de engenharia florestal em Brasília com o seringueiro que emergia com uma cultura não acadêmica e não técnica?

Meu pai sempre foi um colecionador de livros velhos sobre a história do Acre. Ele me colocou em contato com os heróis acreanos, com os seringueiros...O encontro com o Chico Mendes foi provocado por mim. Aconteceu na UNB (Universidade Federal de Brasília) no primeiro encontro nacional dos seringueiros (1985). Eu assisti todo o encontro e lembro como se fosse hoje a hora em que eu falei com ele . Cheguei e me apresentei: “Oi, Chico Mendes -ele não era tão famoso ainda,- sou do Acre, sou estudante de engenharia florestal, estou me formando e vou voltar para o Acre”. Ele foi atencioso, carinhoso e rapidamente ficamos em sintonia. Eu estava perto de vir para o Acre e o Gil (Gilberto Siqueira)- que eu ainda não conhecia- estava trabalhando a idéia de um laboratório de madeira com um grupo de engenheiros. Em 1985 mesmo eu já estava trabalhando na Funtac e fazendo a conexão com o pessoal do movimento.

A partir daí você e Chico se tornaram parceiros?

Várias vezes. Uma vez eu fiquei retido com ele três dias em Porto Velho (RO), no mesmo quartinho por causa da fumaça. Ele via que na Funtac tinha um grupo que poderia fazer projetos; o pessoal concordava, mas Chico era mais ousado nisso, aproveitava melhor as relações. Ele ia além, ninguém conseguia enquadrá-lo.

Ele vivia buscando aliados sempre, não é verdade?

Sempre. Mas isso tem de ser compreendido na dimensão adequada, sob pena de alguém achar que ele procurasse alguma vantagem pessoal. Não tinha nada disso: ele era muito correto. Uma vez ele chegou para mim e falou que ia detonar na Gazeta o Mauro Spósito (ex-superintendente da Policia Federal no Acre). Eu disse: “Pelo amor de Deus, não faça isso; tu já estás no alvo de um monte de gente e vai botar mais a Polícia Federal?” Acontece que eu tinha medo da Polícia Federal, mas ele não. Poucos dias depois ele foi capa da Gazeta e depois o Mauro Spósito o chamou de “dedo duro”. Foi aquele inferno todo.

Quando o mataram, no dia 22 de dezembro de 1988, ele tinha acabado de ganhar um caminhão através de projeto feito pela Funtac..

Chico ia muito à Funtac por causa do caminhão do projeto do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e da fábrica de castanha. A última ida dele lá foi três dias antes de se assassinado. Falou que ia embora para Xapuri mas eu ponderei: “Rapaz, não vai embora não porque amanhã, tu já vai poder ir com o caminhão. O caminhão chegou”. Ele falou: “Eu não acredito”. O caminhão era bonitinho, de cabine amarela. Na véspera do crime ele chegou a Xapuri com o veículo, rodou na cidade, colocou um monte de menino em cima, fez uma festa. No outro dia foi assassinado. O Gomercindo me ligou de Xapuri chorando: “Mataram o Chico”. Então peguei meu carrinho, fui lá na casa do Flaviano(Melo), parei lá na frente e o guarda não deixava eu entrar. Eu era somente um técnico da Funtac. Eu falei que precisava falar com o governador, urgente, e do meu jeito fui entrando. Estava lá o Mauro Bittar e outras duas pessoas. Eu fui direto e disse: “Governador, mataram o Chico Mendes”. Ele falou: “Que coisa horrível, eu ia viajar agora”. Eu disse: “Só vim aqui para lhe avisar e pedir que o senhor bloqueie tudo, as estradas... porque isso vai dar uma repercussão muito grande e nós temos que achar quem matou o Chico”. Ele agradeceu e eu saí, rapidamente, porque não tinha intimidade nenhuma com ele. De lá segui para a Funtac, peguei a chave de uma Toyota e fui para Xapuri dirigindo sozinho. Quando passei perto da Serraria dos Padres vinha uma Kombi, passei por ela na lama. Cheguei lá de madrugada, era uma hora da manhã ou duas. Fiquei com o Gomercindo, mas o corpo do Chico tinha vindo para cá na Kombi que eu encontrara na estrada. Voltei para Rio Branco e fiquei tentando ajudar. Durante o velório em Xapuri eu testemunhei uma cena que ficou marcada na minha vida. Naquela época algumas pessoas viam a gente como pessoas “oficiais”. Eu fui ao centro paroquial, atrás da igreja, e estava havendo lá uma reunião para discutir a criação do Comitê Chico Mendes, mas eu senti um clima de gente disputando o espólio material do Chico. Eu fiquei muito triste. A preocupação de muitos era absolutamente legítima de ideais, mas tinha gente tentando contar as questões materiais. Eu acho que isso foi muito errado e atrasou o movimento durante muito tempo.

Como foi trabalhar o movimento depois da morte do seu mais reconhecido líder?

A gente passou a trabalhar com a essência de Chico Mendes, dos sonhos, do legado dele. Não são possibilidades materiais. Por mais que rendesse o nome de Chico em dinheiro, esse dinheiro não serviria para nada, para levar o movimento para frente. O que pode levar o movimento são as idéias dele. O que pode mudar o mundo, mudar a região, mudar o Acre, mudar a Amazônia, são as coisas que ele defendia.

Ou seja, o legado de Chico não é um produto a ser vendido, é o seu espírito, o espírito da floresta...?

O Oscar Motomura, um grande formulador e uma das pessoas mais interessantes que eu conheço, discute com pessoas, prepara pessoas para serem bons gestores. Ele é quem vai mais longe na tese de que a essência do que tem aqui está nessa civilização da floresta e o Chico, de algum jeito, tentou expressar e externar isso.Quem tem que zelar para que a floresta continue viva, portanto, somos nós mesmos. O Acre não pode ter serrarias, o Acre não pode ter manejo de fachada, senão nós vamos desmoralizar a possibilidade de salvar a floresta. O meu sonho de vida é conviver com a floresta, nunca me desgrudar dela; ao contrário, quando vou para os rios, para as matas, as aldeias, aquilo ali me realimenta. É como se ali eu voltasse melhor para encarar as coisas urbanas e acho que de algum jeito a gente pega isso do Chico Mendes. A gente ter uma Marina como ministra do Meio Ambiente, só a história do Chico pode explicar isso. A relação de intimidade que nós temos com o Presidente Lula só tem uma razão: foi o Chico Mendes que foi lá bater na porta dele e o Lula conta isso com muita alegria. Quer dizer: essa conexão é uma coisa muito interessante. Como é que se explica ter tido um Varadouro (jornal alternativo produzido no Acre de 1977 a 1981) aqui e depois ninguém consegue fazer nada parecido?

O Acre tem então um certo poder espiritual, transcendental?

Eu acredito que aqui é o centro da origem. Na floresta a gente é capaz de mapear o centro de origem das espécies. Elas estão em todo o continente, mas surgiram em algum lugar por conta de algumas situações naturais. E nos movimentos sociais também tem que ter essas situações; eles surgiram em algum lugar; eles não aconteceram em todo canto. Chico ensinava que o melhor jeito de defender o trabalhador na Amazônia é defendendo a floresta. Ele liderou essa luta e foi incorporando outros elementos conseguindo dar a dimensão planetária de uma luta absolutamente local, dentro de uma colocação.

O sindicalismo brasileiro desmobilizado pela ditadura militar ressugiu no Acre com o movimento dos seringueiros. Isso projetou o Estado para a política nacional. Essa leitura é correta?

Eu ouso dizer que o Acre tem ainda um papel a cumprir do ponto de vista do próprio Partido dos Trabalhadores, tendo lideranças como a Marina, tendo um projeto concreto como o nosso aqui. Onde é que o PT avançou tanto? Do ponto de vista político acho que a nossa responsabilidade é nessa dimensão; não é uma dimensão local, municipal ou estadual, é sempre além das fronteiras. E é assim que a gente tem que trabalhar, na postura da gente, na vida da gente, nas ações da gente. Eu falo às vezes num sentido figurado e digo que nós moramos nas cabeceiras dos rios e nas cabeceiras dos rios é onde as coisas acontecem. E as coisas que acontecem ali elas descem o rio. As coisas não são do rio.. O homem pode ter trazido alguma coisa, mas a natureza faz um sentido. Então o sentido natural é esse. E nós estamos aqui buscando isso, tentando trabalhar um pouco isso. Nesses últimos 18 anos de perda do Chico aconteceram avanços extraordinários. Jamais a gente pode comparar e dizer valeu a pena. Morte não vale a pena. A vida é que vale. Por isso acho muito correto a idéia da gente trabalhar com os sentimentos do Chico vivo. Jamais trabalhar com a morte. A morte não compensa para nada.

É fato concreto hoje que nós conseguimos levar adiante as idéias de Chico Mendes nas mais diferentes esferas. Só entendo que talvez tenhamos de dar uma atenção especial, nós todos, para os movimentos sociais, para que eles não se descolem disso e nem façam movimento social comum, convencional; eu as vezes me pego diante de movimentos críticos, mas convencionais e aí entendo que estão dissociados da dimensão do Acre, dos ideais do Chico e da importância que o Acre tem. Muitas pessoas tentam desqualificar a relação que a gente tem com o Chico, com o hino, com a floresta, mas eu afirmo que essa relação tem magia. A nossa força e é uma coisa impessoal. Ninguém consegue se apropriar da floresta.

 
 
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Rio Branco-AC, 16 de dezembro de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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