OPINIÃO
   CRÔNICA

Stella Galvão

 

As renas cansadas

Todo ano, tudo igual. O mês de dezembro era aquela agonia. Uma correria, a multidão de pessoas, carros e pacotes se aglomerando por toda parte. Os cartões passando nervosamente nas maquininhas, as filas intermináveis nos caixas, o buzinaço. Os shoppings se irmanavam em comerciais que convidavam todos a provar a dedicação, atenção e carinho por alguém querido com belos presentes. Ah, o valor do amor, da amizade, do fraterno elo entre pessoas que se engalfinhavam no resto do ano, mal se cumprimentando. Aquela gente que desconhecia a importância de um bom dia subitamente se tornava cordial. Era mágico mesmo!

E as festas de confraternização do pessoal do trabalho, que coisa bonita e autêntica! Chefes e chefetes que desprezavam seus subordinados e eram por eles odiados erguiam os copos, alegremente presos ao simbolismo da data. Na troca de presentinhos pífios e destinados ao lixo reciclável, os beijos e abraços eram a síntese do faz de conta. Os clicks dos celulares e das máquinas digitais eram um achado mesmo – podia-se apagar tudo em seguida, sem remorso. E os emolgados com o álcool avançando nas veias e corrente sangüínea? Inconvenientes, para sempre marcados pelo olhar pérfido do RH ali presente. Entre risinhos, ele condenava carreiras para sempre. Até o próximo ano, no olho da rua!

O melhor mesmo estava por vir. Salões de embelezamento se encheriam nos preparativos da população feminina para a grande data. Unhas, cabelos e pêlos extras a postos para o mútuo exame das mulheres da família e agregadas. Ai de quem aparecesse com unha roída, flagrante de estresse e desequilíbrio. Ninguém falaria daquela moça muito calma e centrada por obra de doses extras de um estabilizador do humor, pílula mágica do convívio social. Encontrar alguém que tentou te afogar na infância e, não contente, quase te cegou, e sentir-se incrivelmente feliz com aquela ocasião. E os homens, ocupados em virar copos e comentar como a cunhada estava gostosinha e a outra, um bagaço. Quem viesse para a festa cristã no mesmo carro do Natal anterior era simplesmente recolhido à sua insignificância, ainda que os donos de utilitários esportivos ocultassem as finanças em frangalhos. Que beleza de teatro!

As renas assistiam a tudo aquilo, ano a ano presas de uma perplexidade só comparável ao percurso planetário que lhes cabia no dia D. Já não chegava carregar aquele idoso resmungão e de circunferência avantajada, ainda tinham que lidar com a poluição absurda acumulada pelos telhados de prédios e casas, romper um ar denso pelo acúmulo de partículas poluentes. Ainda bem que faziam aquele périplo à noite porque do contrário já teriam perecido por obra dos raios ultravioletas cada vez mais intensos, com os ataques dos humanos à camada protetora de ozônio. E pior, como concorrer com a sanha consumista? Que criança apreciaria um pião que exigia contato para ser posto em movimento, um carrinho de madeira sem motor, um palhacinho com roupas coloridas e nada mais, uma boneca linda mas muda? Pois é, nos pólos não havia aparatos eletrônicos. Isso sem contar a incredulidade crescente. Mas havia uma solução final, elas pensaram. Carregar duendes para alegres tertúlias na neve. E por que não? É, Papai Noel precisava saber daquelas novas. E despacharam um torpedo.

* Cronista

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de dezembro de 2007
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