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   PORONGA
Com Leonildo Rosas  

O filme de um cidadão

Quinta-feira passada, o filme da minha vida passou em minha frente. Na tela, o preto e o branco inicial se misturaram às cores da emoção. Fui homenageado pela Câmara de Vereadores com o título de Cidadão de Rio Branco. Não há como um evento desses não ser colorido para alguém que jamais pensou em alcançar tamanha honraria.

Essa homenagem fez voltar toda uma recordação de dificuldades, felicidades e esforço para se manter não como mocinho, mas como ator que cumpre papel na construção de uma cidade e um Estado que respeitem o cidadão na plenitude da cidadania.

Tenho consciência de que o filme da minha vida jamais será um clássico da cinemografia mundial. Muito menos um campeão de bilheteria. Vivo para uma pequena platéia. Também não sou um longa-metragem. Mas fui construído com base num roteiro pautado na coerência, na honestidade e no amor por tudo que faço.

Até os criadores e diretores do cinema trash têm orgulho daquilo que produzem. Tenho absoluta certeza de que aqueles que me criaram, que me ajudaram a dar direção aos meus passos sentem que a obra que está de passagem por cima da terra não foi em vão. Não é trash.

Era o fim de uma tarde calorenta quando o vereador Marcio Batista me telefonou. Pensei que era apenas mais um telefonema de um grande amigo convidando para bater papo e tomar um café. Mas não era.

Márcio Batista ligou para me dar uma das melhores notícias da minha vida: ele me concederia a honra de receber o título de Cidadão de Rio Branco. Naquele exato instante, estava na Praça da Revolução Plácido de Castro, passando em frente à estátua do herói da Revolução Acreana.

Não tenho espada, revólver ou fuzil. Jamais serei herói de todo um povo. Mas naquele momento me considerei um vencedor. Os grandes homens venceram as maiores batalhas pelas palavras. Tenho conseguido vencer as dificuldades falando e escrevendo.

Além da aura de vencedor, naquele momento voltei no tempo. A primeira cena na tela da minha memória se passou na madrugada do dia 27 de março de 1972. Estávamos todos no antigo aeroporto de Cruzeiro do Sul, quando o militar chamou o “homem da família grande”. A partir daquele instante, a história começou a mudar para todos nós.

Quando embarcamos no avião Catalina da Força Aérea Brasileira deixamos para trás não apenas uma cidade. O que ficou foram histórias, dificuldades, recordações e parentes. Nas três horas de vôo até Rio Branco havia no semblante de cada um expectativa, medo e esperança.

Ainda lembro a imagem marcante de um desenho de um jabuti dentro da aeronave. Nele estava escrito: “Devagar nós chegamos lá”.

Não foi a passos de jabuti que houve a reviravolta na nossa família. Também não houve planejamento prévio e detalhado. Um carro atolado acabou dando um empurrão para que tudo mudasse.

Era inverno. Meu pai, Zeca Matias, atolou seu velho carro. Não tinha como sair sem a ajuda de um outro para puxar. Na retirada, seu veículo caiu dentro de um igarapé. Ele quase morre afogado. A partir dali tomou fôlego para mudar o curso da sua história e da nossa.

Não há veículo que saia ileso quando cai dentro d’água. O do meu pai não seria diferente. O carro ficou danificado. Não havia peças de reposição em Cruzeiro do Sul. A solução foi vir à capital comprá-las.

Em Rio Branco, meu pai comprou as peças, mas voltou decidido a mudar de cidade. Aqui na capital moravam outros amigos da Guarda Territorial que tinham vindo antes dele e estavam muito bem.

“Foi o passo mais importante que demos na nossa vida”, costuma dizer a minha mãe, Orieta Rosas, uma professora aposentada que sabe do que está falando e das dificuldades pelas quais passou subindo e descendo os rios juruaenses.

Orieta, hoje viúva, sabe que, antes de decidir por morar em Rio Branco, nossa família só tinha dado passos para trás. Moramos nos locais mais distantes do Acre, como Foz do Breu.

Foz do Breu não fica ali na esquina. É distante. Para chegar lá é preciso ter coragem e paciência para viajar vários dias de barco. Isso foi feito por todos nós há 41 anos.

Foram sete dias rio acima num batelão de sete toneladas carregado com mantimentos para um ano. O barco tinha bolacha, açúcar, arroz, óleo, querosene, café e leite. O desembarque aconteceu no dia 12 de abril de 1966. Eu tinha um ano e dois meses de nascido.

Zeca Matias nasceu na dificuldade. Não temia desafios e gostava dessa vida de morar nos seringais. Antes de Foz do Breu, tinha morado durante seis anos no Juruá-Mirim, localidade a vinte praias abaixo de Porto Walter, que na época chamava-se Humaitá.

Acostumados com fartura nas antigas localidades, Zeca Matias e Orieta se viram obrigados a olhar frente a frente a pobreza absoluta. De tanto fazer doações, as provisões compradas para um ano se encerraram antes do tempo.

Em Foz do Breu não havia nem farinha para comer. A alimentação das poucas famílias da localidade era a base da banana crua cozida e feijão-peruano. Se hoje há ensino médio, na época não tinha nem professora. Foi minha mãe a primeira a lecionar para os filhos dos moradores da localidade e, é claro, para os próprios filhos que estavam em idade escolar.

Sair de Foz do Breu, Humaitá e Juruá-Mirim para a capital do Acre certamente é um grande passo. Mas o medo do desconhecido assusta. Rio Branco não era nem sombra do que é hoje, mas assustava. Parecia gigante para quem chegava do interior.

Há 35 anos, nosso Estado ainda iria completar dez anos de criação. Tudo ainda era muito difícil. A ponto de o então governador Francisco Wanderley Dantas ir ao Centro-Sul do país convidar investidores afirmando que aqui seria um “Nordeste sem seca e um Sul sem geada”. Foi um modelo que trouxe muitos conflitos e mortes e pariu os bolsões de misérias que ainda hoje podemos ver nos arredores das nossas cidades.

Mas um menino de sete anos de idade não teria condições de compreender uma coisa dessas. Não tinha compreensão nem de como era possível atravessar um rio por cima de uma ponte metálica. Sim, eu confesso: ainda hoje tenho medo de passar a pé por cima da ponte Juscelino Kubistchek. Quem dera que toda travessia fosse apenas essa...

As travessias mais difíceis estavam à nossa frente todos os dias. Criar oito filhos no interior é uma coisa, na capital é bem diferente. Mas fomos criados e forjados na descendência. Comida nunca faltou, mas não era tão farta. As roupas dos mais velhos eram aproveitadas pelos mais novos. Nunca andamos nus. Se não deu nenhum “doutor”, resta o consolo de também não ter sido gerado ninguém que passou a conviver à margem da lei.

Esse é um filme que traz cenas e imagens felizes de uma infância correndo jogando bola nos campos de peladas do bairro José Augusto, dando saltos mortais no pó de serra das serrarias, tomando banho no ainda não poluído São Francisco. Catar goiaba ou coco ouricuri numa Rio Branco romântica...

Sou cidadão rio-branquense porque ajudei a pavimentar a minha rua com tijolos meio ilógicos. Foi ali no início da avenida Nações Unidas que nos estabelecemos. Minha mãe permanece no mesmo local ainda hoje vendo a vida passar na velocidade dos carros.

A Nações Unidas da minha infância era uma rua com poeira no verão e muita lama no inverno. Os moradores ajudaram o poder público municipal a mudar a situação. Os maiores e os menores carregavam os tijolos para pavimentar um novo tempo. Era uma diversão encarada como trabalho.

Mas chega um tempo em que a infância fica apenas na memória. E isso é muito bom porque é um tempo que nunca esquecemos e cultivamos como se fosse a melhor semente no campo das nossas vidas.

Hoje, Rio Branco cresceu. Eu também cresci. Nós continuamos crescendo diariamente. Aquele menino que chegou assustado há 35 anos já não teme tanto as novidades que surgem quase todos os dias. Já tem coragem de brigar com os “grandes”, como governadores, prefeitos, juízes, promotores e corruptos.

O menino tornou-se um homem que procura transmitir confiança, esperança e boas práticas para os seus quatros outros meninos.

Sou natural de Cruzeiro do Sul. Foi lá que o meu cordão umbilical foi apartado da minha mãe. Mas sou cidadão de Rio Branco por amor e opção. Isso ninguém pode tirar de mim.

* Jornalista, cidadão cruzeirense, rio-branquense e sena-madureirense
P.S.: Esta semana me reserva mais emoção. Terça-feira, 18, também receberei o título de Cidadão de Sena Madureira conferido pela Câmara de Vereadores. Eu não mereço tanto!

 

 
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Rio Branco-AC, 16 de dezembro de 2007
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