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Os povos que desafiam a globalização

Na Amazônia, grupos de índios isolados recusam a modernidade e o contato com os brancos

Cedida
Armando Soares conseguiu ganhar
a confiança de índios que têm
fama de violentos; ele diz que teme mais os homens brancos


Tião Maia

Ele é a solidão na mais perfeita acepção do termo. Aparentando mais ou menos 45 anos, constrói toscos casebres no meio da floresta e muda-se a cada vez que se sente ameaçado pela aproximação do homem branco. Sua existência foi detectada na região conhecida como Tanaru, no sul do Estado de Rondônia, por indigenistas da Fundação Nacional do Índio (Funai) que tentam contatá-lo sem sucesso desde 1996. “O Último Brasileiro”, como passou a ser chamado pelos sertanistas, seria remanescente de um povo indígena que desapareceu com sua cultura e costumes devido à violência e à ganância dos pecuaristas que ocuparam a região. O solitário hoje perambula por uma área de terra de 60 mil hectares.

Membros da Frente Guaporé, um grupo de indigenistas da Funai que tentam atraí-lo para morar numa reserva de índios não-aculturados, constatou que o solitário tem hábitos muito diferentes do que se descobriu até aqui sobre os povos indígenas. Ele usaria costeletas e cava buracos de até 2,5 metros no meio da cabana em que vive. Também faz corte no tronco das árvores, em forma de coroa, provavelmente em rituais de caráter espiritual. Até hoje, foram tentados muitos contatos, em várias línguas indígenas, mas o único sucesso foi que o índio solitário aceitou, como presentes, um caneco de alumínio e uma machadinha que lhe deixaram no meio do mato.

Com seus olhos desconfiados, o índio solitário é muito mais que um homem avesso a contatos com a sociedade branca. É um símbolo de resistência dos povos isolados que vivem na Amazônia, muito deles nos altos rios do Estado do Acre. São povos que desafiam os profetas da globalização e os defensores da idéia de que, graças à tecnologia e à informação, o mundo do Século XXI seria uma imensa aldeia. Para o brasileiro das matas de Rondônia e milhares de habitantes dos locais mais remotos da selva Amazônia, o mundo ainda é como nos tempos dos seus ancestrais. Em meio à parafernália globalizante, até o final de 2003, o Departamento de Índios Isolados da Funai contabilizou a existência de pelo menos 46 ocorrências de índios arredios em toda a região amazônica, três delas no Acre, no alto rio Envira e na fronteira com o Peru.

A principal ocorrência de isolados no Acre está nos confins do Estado, na fronteira o Peru, no alto rio Envira, onde está baseado há mais de 15 anos o sertanista José Carlos Meireles. Na definição dos levantamentos para o Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre, os indigenistas Terri Vale de Aquino e Marcelo Piedrafita Iglesias revelam que mais malocas de índios isolados foram descobertas no Acre em março de 1998. Na época, os indigenistas Sidney Possuelo, chefe do departamento de índios isolados da Funai, e José Meireles sobrevoavam terras do Alto Tarauacá quando avistaram os locais de moradia dos isolados, que já entraram em conflito com índios contatados e com seringueiros que vivem na região.

Desde a constatação da existência dos isolado trabalho da Funai, agora uma filosofia bem diferente do que nos tempos das chamadas frentes de atração, é exatamente para manter os índios como eles são. O trabalho do indigenista Meireles é exatamente conscientizar os Ashaninkas, índios já contatados, a evitar a cabeceira dos rios onde vivem os isolados e também impedir a entrada de caçadores e outros aventureiros nas terras pelas quais perambulam os isolados.

Um indigenista do Acre vive entre os Korubos, os índios caceteiros

A experiência dos indigenistas acreanos com índios isolados e principalmente a filosofia de que a atração é prejudicial a eles levou a Funai a recrutar no Acre um dos quadros para atuar na área onde vivem os Korubos, os temidos índios caceteiros do Vale do Javari, na fronteira que vai dos limites do Acre, passando pelo Amazonas até a fronteira com o Peru e a Colômbia. Os Korubos são temidos sobretudo porque, ao invés da flecha tradicional, ainda usam borduna para atacar seus adversários. Eles vivem também de forma isolada e só foram identificados em 1996 porque um grupo de 22 indivíduos se desmembrou do restante da tribo e permitiu que o chefe do departamento de índios isolados da Funai, Sidney Possuelo, mantivesse contato com eles.

O indigenista que saiu do Acre para a experiência de viver com o grupo dissidente dos Korubos é Armando Soares Filho, de 52 anos, um paulista que trocou os campos e as fazendas de Barretos pela selva amazônica.

Depois de 20 anos trabalhando no Acre, com índios e seringueiros, Armando está há um ano entre os Korubos, que já receberam indigenistas a pauladas, como o coordenador da frente de proteção etno-ambiental do Vale do Javari. “Nossa função ali é proteger e exercer a fiscalização para impedir invasão às terras dos Korubos e o choque deles com os invasores”, conta Armando. A convivência entre eles, até aqui, tem sido amistosa.

Como é que se dá essa relação de um homem, por assim dizer, civilizado, em pleno século XXI com o fenômeno da modernidade, com pessoas que ainda vivem de forma absolutamente primitiva?

Dentro de um âmbito de compreensão das diferenças. Acho que o grande mérito do indigenista é entender as diferenças e o grande problema das civilizações hoje é exatamente por falta disso. Os grandes conflitos étnicos são resultado da incompreensão da diferença, porque alguns partem do princípio de que sua raça é mais importante que a outra. A compreensão de que existem povos diferentes, de que existem maneiras de ver o mundo diferente e de que também isso é importante melhora o próprio mundo.

Essa filosofia de que a Funai não deve mais atrair os índios isolados é possível ser aplicada de fato no momento em que, com sua presença lá no Vale do Javari, o contato efetivamente começa a existir?

Com esse grupo existe por força de uma circunstância. Por um problema familiar, os membros desse grupo, composto de 22 pessoas e agora de mais duas crianças, que nasceram recentemente, desagregou-se do tronco maior e se dividiu. Nós agimos ali para evitar que os membros desse grupo massacrassem os ribeirinhos ou que os ribeirinhos os massacrassem.

Nesse grupo de 22 pessoas com que você tem contato, quem é o cacique, quem é que manda lá?

Olhe, por incrível que pareça, quem parece mandar no grupo é uma mulher, mas isso não significa que a gente pode afirmar que eles vivam numa sociedade matriarcal. O nome dela é Maiá, é a mais velha deles. Ela deve ter mais de 50 anos porque já apresenta problema de artrose. Aliás, vivi recentemente uma experiência aterrorizante. A mãe de um daqueles dois garotinhos que falei que nasceram teve problema no parto. O garoto estava atravessado e os índios adultos queriam que a Maiá, a mais velha, fizesse o parto de qualquer jeito. Vi que iam morrer mãe e filho e decidi intervir, correndo um sério risco porque muitos deles não entendiam o que seria tirar a índia dali e levá-la para fazer um parto cesariano. Mas conseguimos. Arranjamos helicóptero e a levamos para Atalaia do Norte, onde deu tudo certo e hoje estão lá, mãe e filho, todos bem. Foi a primeira vez que um Korubo foi para a cidade. Isso só foi possível porque os índios já confiam na gente.

De alguma forma vocês estão criando uma relação. E como é que vai ficar a relação econômica?

Agora, no momento, eles estão em três malocas próximas ao acampamento onde a gente vive. Nós temos uma base que fica na entrada da área, onde fazemos a vigilância e a proteção da área. Quando têm algum problema, eles nos procuram, principalmente em casos de doença. Eles são agricultores, plantam mandioca, milho e algumas batatas e já botaram seus roçados. Eles não nos pedem nada porque são caçadores. Não são pescadores, a base deles é a caça. Caçam com zabaratana, com a qual usam um tipo de veneno que, uma vez atingido o animal, paralisa-o totalmente. Também usam um tipo de veneno para pegar alguns tipos de peixe. Jogam na água e o peixe fica tão sufocado que pula para o seco. O puraqué, um peixe elétrico, me parece o preferido deles. Na zabaratana, o veneno parece ter um parentesco com o epadu.

E essa fama de violência que os Korubos têm?

Pois é. O problema é o seguinte: na área onde eles vivem há muitos índios isolados. Esse pessoal sempre morou na região e sempre foi contatado ao longo do tempo porque sempre houve grande interesse econômico na área. É talvez a região mais piscosa do mundo. Pescadores, caçadores, madeireiros, garimpeiros sempre tiveram interesse ali e os índios sempre foram empecilho a esses interesses. Na verdade, os índios nunca deixaram os brancos viver em paz ali. Os Korubos têm na cabeça que os brancos são violentos, na mesma proporção que os integrantes das frentes de ocupação pensam que eles são violentos. Nesse grupo com o qual a gente tem contato são mais diversas as histórias de violência. Você chega para um deles e pergunta: cadê teus irmãos? E eles respondem: tenho quatro irmãos, mas três o madeireiro matou. Minha sogra o caçador matou... É uma história de massacra constante...

Mas eles mataram alguns indigenistas, não foi?

Foi, infelizmente. Como a Funai tinha que se fazer presente para evitar uma tragédia maior na área, teve que mandar seus quadros para lá e um dos nossos colegas foi morto. Lamentavelmente.

E você não teme por isso também?

Não, não temo. Confesso que temo mais a ação do homem branco, uma ação que possa resultar em falta de condições para fazer nosso trabalho e aí tudo descambar para o lado ruim.

 
 
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Rio Branco-AC, 17 de janeiro de 2004
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