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Geraldinho lança P-SOL no Acre

Em menos de dois anos de mandato, senador abandona aliados da Frente Popular e vai para a oposição

"Estou muito satisfeito no PSB e jamais passou pela minha cabeça abandoná-lo. Na verdade, vou trabalhar para reestruturar o partido, possibilitando que ele cresça ainda mais. Nós precisamos no Acre da pluralidade partidária. Se tivesse entrado na campanha pensando em mudar de partido, as pessoas poderiam duvidar do meu caráter."


Leonildo Rosas

O senador Geraldo Mesquita Júnior, o Geraldinho, prepara um grande ato hoje na sua curta trajetória política. Amanhã, ele fará o lançamento oficial do Partido Socialismo e Liberdade (P-SOL). Ao seu lado não estarão lideranças que ajudaram na sua vitória nas eleições de 2002. Os companheiros do parlamentar acreano não votam nem têm domicílio eleitoral no Acre. São os ex-petistas radicais Heloisa Helena (senadora alagoana) e os deputados federais Luciana Genro (RS) e João Batista Oliveira (PA), o Babá. Geraldinho agora é oposição. Quer distância da Frente Popular.

Geraldo Mesquita Júnior, que agora acusa lideranças da Frente Popular de ser capazes de tudo, inclusive de pôr droga no seu carro só para o escandalizar, conforme disse em entrevista ao jornalista Jorge Said, na TV Rio Branco, emissora de propriedade do antigo adversário Narciso Mendes, nem sempre foi assim. Ele pensava diferente.

"Sou Frente Popular desde 1990. Participei ativamente da campanha de Jorge Viana ao governo por enxergar nele, já naquela época, uma liderança capaz de comandar um processo de renovação e transformação ética na política acreana", disse o senador em entrevista concedida ao Página 20, no dia 25 de setembro de 2002.

A admiração de Mesquita Júnior por Jorge Viana não ficou restrita à eleição de 1990. Em 1992, Viana era prefeito de Rio Branco e convidou o advogado para chefiar a Procuradoria Jurídica da prefeitura. "Eu tinha sido aprovado em concurso público para procurador da Fazenda Nacional e perderia a oportunidade de assumir o cargo se viesse para a prefeitura. Tive que amargar a decepção de não poder contribuir com a primeira gestão democrática e popular da prefeitura da capital acreana", lamentou na mesma entrevista.

A oportunidade de Mesquita Júnior trabalhar com Jorge Viana apareceu em 2000. O senador, que agora acusa o governo da Frente Popular de ser antidemocrático, foi chefe do Gabinete Civil do governador. Ele substituiu o atual prefeito de Rio Branco, Raimundo Angelim, que se desincompatibilizou do cargo para concorrer a prefeito pela primeira vez, quando acabou derrotado pelo peemedebista Mauri Sérgio.

A exemplo de Angelim, Jorge Viana apostou que poderia eleger Geraldo Mesquita Júnior para algum cargo eletivo. E conseguiu. No dia 3 de outubro de 2002, ele foi eleito senador da República, com 104.993 votos.


"Nós vamos formar um time coeso trabalhando em prol do Acre. Sou um acreano que ama o Acre e vou colocar o meu mandato para somar força com o Jorge, a Marina, o Tião e os companheiros deputados estaduais e federais", afirmou na primeira entrevista depois de eleito, no dia 16 de outubro de 2002.



De desconhecido a senador da República

A disputa ao Senado em 2002 foi a segunda experiência eleitoral de Mesquita Júnior - em 1986 ele concorreu a deputado federal pelo PMDB. Obteve mais de dois mil votos, mas não conseguiu se eleger.

Depois da derrota, a relação do senador com o Acre, que nunca foi próxima, ficou mais distante. Filho do ex-governador Geraldo Gurgel de Mesquita, o parlamentar nasceu em 1948, em Fortaleza (CE), porque sua mãe precisou visitar o pai, José Escolástico de Sá, que estava doente e não agüentou fazer a viagem de volta. Ele permaneceu no então Território Federal até 1961, quando foi enviado pelos pais para estudar em Brasília.

De longe, o senador viu o Território virar Estado. Foi perseguido político pela ditadura militar e expulso da Universidade de Brasília (UnB). Retornou ao Acre em 1974 para criar galinha. Foi proprietário de uma granja. Em 1975, seu pai foi nomeado pelo presidente da República, Ernesto Geisel, governador. Em 1977, tornou-se secretário particular e superintendente do Desenvolvimento de Áreas Estratégicas no governo de Mesquita pai.

Mesquita Júnior permaneceu no Acre até o fim do governo do pai. Só voltou ao Estado em 1985, quando foi gerente da carteira de crédito do Banco do Estado do Acre (Banacre). Filiou-se ao PMDB, concorreu a deputado federal, perdeu e retornou para Brasília.

A oportunidade de tentar novamente um cargo eletivo veio em 2002. Com o bordão "Nabor nunca mais" - uma referência ao veterano senador Nabor Júnior (PMDB) -, conseguiu o que muito julgavam impossível: eleger-se senador.


"Vou colar na Marina e no Tião. Falaremos a mesma linguagem e atuaremos no mesmo sentido. Se a atuação de um senador, quando voltada para atender os interesses do povo que representa, é muito importante, imagine o que resultará, para o povo acreano, a atuação de três senadores afinados política e ideologicamente e comprometidos com a busca do desenvolvimento humano e fraterno deste povo tão querido", declarou Mesquita Júnior antes de se eleger.


"Sou Frente Popular desde 1990. Participei ativamente da campanha de Jorge Viana ao governo por enxergar nele, já naquela época, uma liderança capaz de comandar um processo de renovação e transformação ética na política acreana."


Frente Popular pede desculpas e alerta Heloisa Helena

Lideranças da Frente Popular ficam constrangidos quando falam sobre a postura adotada por Geraldo Mesquita Júnior após ter sido eleito senador. O assunto foi tratado no mês passado pela cúpula da coligação, que resolveu pedir desculpas por tê-lo apoiado.

A coligação publicou nota na imprensa pedindo desculpas à população "por termos induzido a sociedade a esse erro tão grande que foi a eleição de Geraldo Mesquita Júnior".

Os dirigentes da coligação também dizem que são "vítimas de uma mistura de traição com ingratidão, a exemplo do que fez Judas com o mestre do amor há quase 2.000 anos".

"Entendemos que a senadora Heloisa Helena está convivendo com uma pessoa cheia de contradições. Se ela não abrir o olho, poderá ser traída da mesma forma que nós fomos", desabafou uma importante liderança da Frente Popular.

Se o senador Geraldinho Mesquita vai trair seus novos aliados, como profetizam seus ex-companheiros, só o tempo vai dizer. Mas a frase que ele disse em outubro de 2002 sobre a possibilidade de sair do PSB pode levar à reflexão: "Estou muito satisfeito no PSB e jamais passou pela minha cabeça abandoná-lo. Na verdade, vou trabalhar para reestruturar o partido, possibilitando que ele cresça ainda mais. Nós precisamos no Acre da pluralidade partidária. Se tivesse entrado na campanha pensando em mudar de partido, as pessoas poderiam duvidar do meu caráter".


"Vou colar na Marina e no Tião. Falaremos a mesma linguagem e atuaremos no mesmo sentido. Se a atuação de um senador, quando voltada para atender os interesses do povo que representa, é muito importante, imagine o que resultará, para o povo acreano, a atuação de três senadores afinados política e ideologicamente e comprometidos com a busca do desenvolvimento humano e fraterno deste povo tão querido"


Algumas frases de Mesquita Júnior antes de ser radical

"Nós vamos formar um time coeso trabalhando em prol do Acre. Sou um acreano que ama o Acre e vou colocar o meu mandato para somar força com o Jorge, a Marina, o Tião e os companheiros deputados estaduais e federais"

"Quando poucas pessoas ainda acreditavam na possibilidade da minha vitória, o senador Tião Viana me pegou pelo braço e me levou a todo o Estado, sentando comigo e com lideranças políticas dos partidos que compõem a Frente Popular".

"O senador Tião Viana foi a força motriz da minha eleição. Não falo sem razão. Os fatos estão aí para quem quiser ver. Sou muito grato a tudo que ele fez".

 
 
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Rio Branco-AC, 17 de abril de 2005
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