| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Velhos sonhos Esteve a noite toda dentro daqueles olhos. Viajou o corpo, todos os caminhos e varadouros, conheceu a lenda do amor e acordou em uma manhã esverdeada, como se aquela floresta ao seu redor fosse encantada, mais ainda que a mulher à sua volta, à sua frente, diante de tudo que ali havia, adiante da viagem que o trouxe para fora de si. Procurava algo para soltar-se dos olhos que o prendiam à vontade de ficar entregue ao sonho que percorria acordado. O sonho o olhava e amanhecia, o homem não acreditava, não se entregava ao encanto, mas o calor do dia parecia real, um novo sentimento parecia chegar em várias luzes, a viagem ganhou cores tropicais, o amor deveria ser mesmo assim, capaz de fantasiar o querer, com cores novas e idéias antigas. Sendo verdadeira a manhã que via crescer, não deveria ser só sonho, era muito mais, era algo além da lenda e da visão colorida da mulher, poderia ser uma viagem para dentro, que deveria ser longa e não ter volta breve. Parar? Importava agora seguir, continuar o caminho, conduzir a vontade para encontrar sua origem, tudo era motivo para justificar tantas possibilidades. Sendo verdadeira a dúvida que via através dos olhos que o guiavam, deveria ser ocasião para entregar-se e percorrer o dia, viajar o mundo, encantar a vida, enganar as pretensões e vontades, desafiar as fantasias que vestia. E acordar, sempre no mundo, no berço da origem do querer. Mas isso depois, que ainda não é hora de dormir, ainda é preciso conduzir o amor. Que definição dar a esse sentimento ilógico, que fica doloroso, depois que tudo de bom segue viagem e deposita nas pessoas a saudade, a vontade sem jeito, um comprido silêncio no peito? Definir não é agradável nem fácil. O engano deve estar em não se conseguir entender o prazer, que só é assim em comparação aos momentos tantos em que ele não está, não é sentido, não é vivido nem lembrado. Não definir não é ficar sem rumo nem vontade de continuar, apesar de fazer encurtar o passo e diminuir o ritmo, apesar de tornar lenta a expectativa, apesar de tornar pesada a certeza da indefinição maior, guardada no fardo oculto do amanhã, na estação seguinte, na possibilidade de ela nem existir, na bagagem de um provável silêncio. Assim entardeceu. Na longa noite, seguiu sentimentos, caminhou entre velhos sonhos e novas ilusões. Percorreu um grande círculo, voltou para a estação dos beijos partidos, das alegrias passageiras, das saudades estacionadas. Parecia querer perder o velho rumo, perder novas manhãs na bagagem, manhãs que chegavam e saíam atrasadas ao desencontrado destino, mesmo caminhando a favor do vento. Instalada no homem a indefinição sobre ser e estar, sobre o sentido das coisas e o amanhã, o enredo pede amor e mulher. Essa mulher deve ter bons cheiros e jeitos, um conjunto harmônico e carinhoso, deve ser bela e agradável, para que seja possível acariciar o próprio conceito do prazer. Na origem desse ser, nascem filhos e prazeres, renova-se a vida. Percorreu essas coisas, passou do dia e perdeu a noite. Mas não os sonhos, velhos sonhos são sempre pontuais, ainda que venham na contramão. Nem perdeu o encanto. Com ele, recriou o não saber definir. Em tudo que havia, os olhos de floresta reluziam luz e cor. O verde nos olhos e na floresta é a moldura exata para todos os conceitos em gestação, para todas as dúvidas concebidas. Se não percebia a nova manhã, notou o nascimento de uma certeza quase possível. A mulher dos sonhos não era fantasia, era a origem de todas as lendas. A mulher pariu o novo sentido da vida, o momento presente, o caminho para adiante. Entendeu que nascia uma nova paixão para definir e faria isto logo. Logo depois de ver os reflexos do sol na floresta dos olhos dela. |
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