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Acre é sede do 1º Encontro Internacional de Manejo Florestal Comunitário

Gestores de mais de 40 países estão no Estado desde domingo debatendo os estudos de casos que deram certo e buscando soluções para os que não obtiveram o mesmo sucesso

 


RENATA BRASILEIRO

O Acre mais uma vez é apontado como referência em experiências bem sucedidas. Dessa vez, mais especificamente, o Estado está sendo visto no mundo inteiro como paradigma de manejo florestal comunitário.

Prova disso é que a Organização Internacional de Madeiras Tropicais (ITTO), com sede no Japão, escolheu o Acre para ser a capital da conferência “Manejo e Empresas Florestais Comunitárias: Questões e Oportunidades Globais”.

Representantes de 41 países de vários continentes, como Costa Rica, Índia, Japão, Nova Zelândia e Suíça, irão discutir e apontar as vantagens do sistema de manejo que garante a sustentabilidade das florestas.

O encontro se estende até sexta-feira, com a participação de palestrantes de destaque como a ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, o embaixador da Suíça no Brasil, Rudolf Baerfuss, o ministro do Meio Ambiente da República Democrática do Congo, Didace Pembe Bokiaga, o diretor executivo da ITTO, Manoel Sobral Filho, o diretor da Rights and Resources Initiative, Andy White, e o representante das comunidades indígenas, Alberto Ciinchila.

Todos eles participaram da solenidade de abertura da conferência, ocorrida na noite de domingo, na Usina de Artes João Dontato. Lá, as discussões seguem durante a semana, seguindo algumas lógicas designadas pelos organizadores da conferência, o que deverá ser concluído com a elaboração de propostas de políticas públicas a serem encaminhadas a ITTO.

Conforme a programação do evento, estão previstas ainda algumas visitas às experiências acreanas de áreas com manejo madeireiro e não-madeireiro, quesito no qual o Acre tem muito que mostrar, segundo o secretário de Floresta do Estado, Carlos Ovídeo. A afirmação é justificada com base nos dados: 16% da produção bruta da economia do Acre provém do manejo.

“Estamos num período de expansão ainda. É bom considerar que o Acre ainda tem muito que desenvolver nesse setor e que esse encontro é uma fonte de possibilidades para chegarmos mais longe”, reforçou o secretário.

Ovídeo destacou que entre os temas as serem discutidos estão o modelo de organização do manejo e barreiras e restrições para a implantação do sistema. São abordagens de considerável importância para todas as organizações presentes ao evento, inclusive para os observadores, que também estão sendo recebidos na usina de artes em um espaço reservado, com transmissão simultânea em um telão com tudo que acontece no principal auditório do espaço.

O evento dispõe ainda de tradutores de quatro línguas distintas, para impedir que a diferença de idiomas seja uma barreira no compartilhamento de experiências.

Manejo comunitário: importante ou necessário?

O manejo florestal comunitário tem se apresentado como uma alternativa viável para combinar a conservação da floresta e sua utilização pelas comunidades. A busca pelo manejo florestal comunitário e certificação florestal leva comunidades, ONGs e agências de cooperação bilateral à elaboração, implementação e disseminação de projetos e processos de manejo florestal comunitário em todo o mundo.

“Esse tipo de manejo é uma via de mão dupla, que traz uma grande proteção ao ecossistema e muitos benefícios às comunidades. É tudo muito viável, pois o manejador tira o que precisa da natureza sem precisar derrubar a floresta, e o meio ambiente acaba tendo grandes vantagens também”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, durante a abertura da conferência.

A ministra declarou que o Brasil tem muito que comemorar quando o assunto é manejo florestal comunitário. Isso porque 60% das florestas públicas estão nas mãos de comunidades, o que fez com que a área de reserva extrativista dobrasse de 5 milhões para 10 milhões de hectares de 2002 para cá.

Atualmente, cinco mil famílias no Brasil se beneficiam do manejo comunitário. São essas famílias, trabalhando de forma sustentável, que colaboraram para que o índice de desmatamento no país caísse 50% nos últimos quatro anos, segundo a ministra.

“O importante é que fazer com que a população se envolva com o manejo comunitário florestal, usufrua os benefícios que esse projeto traz e perceba que não há vantagem alguma em acabar com a floresta. Muito pelo contrário, é necessário cuidar dos recursos que existem nela para que gerações futuras possam encontrar o meio ambiente da mesma forma, com os mesmos valores”, ressaltou o diretor executivo do ITTO, Manoel Sobral Filho.

Para Sobral Filho, o Acre é um líder brasileiro em termos de políticas comunitárias. Ele citou a Floresta Estadual do Antimary como um modelo a ser seguido em todos os países. O projeto desenvolvido na floresta conta com o apoio da ITTO desde 1989, e por conhecer suas peculiaridades bem de perto, Sobral diz que o modelo “é ideal”.

A escolha da Floresta do Antimary como área para estudo de modelo de utilização da floresta tropical deve-se principalmente às características da mesma serem representativas da situação geral do Estado do Acre. A exploração da castanha e da borracha são as principais fontes de renda das famílias.

O projeto representa um passo importante para o desenvolvimento de técnicas para utilização dos recursos florestais sob um regime de rendimento sustentado e integrado envolvendo as populações tradicionais no processo. A implementação das atividades previstas no lugar visa alcançar o objetivo geral do projeto: incentivar e promover o desenvolvimento em longo prazo das florestas da Amazônia Ocidental, como parte de uma política de uso integrado da terra na região.

ITTO

A ITTO é uma organização intergovernamental para a promoção da conservação do manejo sustentável, do uso e do comércio de recursos florestais tropicais. Seus 60 membros representam cerca de 80% das florestas tropicais do mundo e 90% do comércio global de madeiras tropicais.

Ela é a responsável pela realização da conferência no Estado, com o principal objetivo de ouvir todos os relatos que os países presentes têm para fazer a respeito de suas experiências com o manejo comunitário.

A ITTO conta com o apoio da Iniciativa por Direitos e Recursos (Rights and Resources Initiative) e da Aliança Global de Silvicutura Comunitária (Global Alliance off Comunity Forestry) e com a cooperação da União Mundial de Conservação para a realização do evento.

Binho afirma que manejo comunitário é o futuro do planeta

O governador Binho Marques esteve presente à abertura do evento e revelou ao público sua satisfação de poder receber pessoas do mundo inteiro no Estado do seringalista Chico Mendes.

“Este evento representa uma história de êxito que começou lá atrás, com os movimentos seringueiros e de povos indígenas. O líder Chico Mendes sempre trabalhou para que as reservas extrativistas não fossem apenas o resultado de uma luta pela reforma agrária, mas um projeto de sucesso para as comunidades. E este encontro, que reúne 41 países no Acre, está coroando uma história de luta. Por isso, o governo do Estado se sente honrado e feliz de estar aqui participando desse momento de coração da nossa trajetória”, destacou.

Binho Marques comentou ainda que a conferência é uma grande oportunidade de aprendizagem. “Aqui aprenderemos com gestores e manejadores de vários países como eles lidam com o projeto de manejo comunitário, um projeto que sem dúvidas é o futuro do planeta”, reforçou.

Ao citar mais uma vez Chico Mendes, o governador disse que o seringalista sempre defendeu a luta ambiental e a justiça social. E o Acre incorporou o manejo comunitário como política pública, o que dá continuidade a essas lutas.

Marina Silva: atividade é de baixo impacto ambiental e alto impacto social

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mencionou por diversas vezes a existência do manejo florestal comunitário como algo inteligente e viável de ser incentivado.

Segundo ela, no Brasil o manejo florestal comunitário é uma realidade que tem se expandido cada vez mais, proporcionando a geração de recursos para as famílias e a proteção das florestas ao mesmo tempo. Ela enumera como grande desafio do modelo a viabilização da assistência técnica e o processo de beneficiamento para a agregação de valor do produto manejado.

“Os manejadores precisam de mais investimentos para buscarem um mercado cada vez mais especializados. Vale a pena investir nessa atividade, que se define pelo baixo impacto social, mas com alto impacto do ponto visto social”, completou a ministra.

Manoel Sobral Filho diz que experiências acreanas precisam ser replicadas

De acordo com o diretor da ITTO, Manoel Sobral Filho, dentro da programação a conferência contará com pelo menos uma tarde inteira dedicada ao Acre.

“Queremos que o mundo todo veja as experiências que o Estado tem para mostrar. As pessoas que estão no nosso comitê de organização do evento quando viram algumas das experiências ficaram maravilhadas e disseram que queriam que seu governo fizesse a mesma coisa. São experiências que precisam ser replicadas, que não existem em lugar nenhum do mundo”, comentou.

Assim como a ministra, o diretor mencionou a falta de financiamento como grande empecilho para que os projetos obtenham mais sucesso.

Alternativas e soluções para o caso deverão ser debatidos durante o evento, com a atenção dos líderes voltadas para as comunidades, segundo Sobral.

“Estamos preparados para ouvir as comunidades para saber quais são os outros empecilhos que elas encontram na sua rotina. A partir daí vamos buscar junto aos que possuem poder político o que pode ser feito em cada caso. Um ponto já pode ser colocado desde já: investidores privados devem ser convencidos a colocar capital em manejo florestal”, finalizou.

 

 

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Rio Branco-AC, 17 de julho de 2007
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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