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La Rota del Pacífico no Cineclube Aquiry |
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Entrevista com Emilson Ferreira Do que trata o seu filme, La Rota Del Pacífico? Como você chegou à idéia para esse projeto? O projeto foi pensado para o Doc tv. Quando eu pensei qual projeto ia escrever, queria algo que fosse muito discutido e muito importante aqui, no Estado do Acre. E há a questão da estrada do pacífico, que é muito importante para nós, mas também para muitos outros, de outros lugares. A estrada do pacífico é um projeto de grande relevo, que é o da criação da estrada interoceânica que vai ligar essa parte da Amazônia aos portos do pacífico. Boa parte das exportações do Brasil vai passar por essa rota, por esse caminho, e isso vai trazer grandes transformações para essa região. E me incomodou saber que não havia um debate amplo sobre a cultura que existe nesse espaço que vai ser tão transformado. E o povo? Ao tratar da estrada se fala muito em economia, e pouco na população que vai ser atingida por ela. Daí me veio essa vontade de fazer um filme que tratasse da rota do pacífico, desse projeto de integração, mas que buscasse apontar o povo que está vivendo lá. Quando pensei então no documentário pensei em registrar a cultura que será transformada por essa rota, registrar o patrimônio imaterial que existe ali, hoje, nessa parte do mundo, da América do Sul. É claro que tem também a questão de linguagem, para apontar. A gente trabalhou com algumas referências da vanguarda francesa, um pouquinho do construtivismo russo, mais especificamente do Dziga Vertov. Assim, o filme não tem uma construção lógica muito clara, do tipo dois mais dois é quatro. Cada um vai fazer a sua leitura, muito diversa, sobre o que está sendo colocado no filme. Como você registrou, no documentário, uma cultura que está fadada a se transformar rapidamente, visto o grande impacto que a abertura da estrada terá, você pensa em voltar à Rota daqui a alguns anos e registrar novamente essa cultura (‘rota alterada’) em busca de observar os efeitos do surgimento da transoceânica na vida das pessoas dessa região? A idéia não nasceu assim, nunca pensei ‘vou fazer um filme, que será uma primeira etapa, agora, e daqui a dez anos eu vou fazer outro filme’, mas talvez isso possa acontecer. O Documentário apresenta uma grande variedade de tipos e concepções estéticas. Há grandes discussões sobre seus limites e sobre as suas fronteiras com a ficção. Anna K. Bartolomeu, em seu livro O documentário e o filme, afirma que as relações entre ficção e o filme documentário sempre foram ambíguas. O que caracteriza um filme documentário para você? O princípio da coisa, o documentário, teve lá um marco que foi Nanook of the North, de Robert Flaherty, de 1922. Ele, em suas expedições, buscou os esquimós e disse a eles para vivenciarem as situações roteirizadas, dramatizarem, e depois decupou o roteiro e construiu em planos essa história. Ele chamou isso de personagens sociais e isso foi considerado um documentário pela crítica do seu tempo, e por longo período. Mas, outro dia, num encontro em Brasília, com o pessoal do Doc tv, um cara que hoje é referência no documentário brasileiro, Eduardo Scorel, disse que não chamaria isso de documentário. Hoje está tudo meio confuso. Para mim, o que é documentário, ainda, independe da estética que se use, se tem animação, ou não, mas acredito que há essa coisa de você se voltar um pouco mais para a realidade, uma realidade imediata e socialmente partilhada. O documentário para mim está relacionado acima de tudo ao hoje, ele retrata, registra. Toda a minha proposta de documentário é essa, eu me volto muito para o que está acontecendo agora. E daqui a dez anos alguém pode olhar e dizer: está registrado. Emilson, o que é o Doc tv, como foi o processo de seleção de que você participou, como funciona? O Doc tv é uma experiência muito legal, muito válida, acho que todas as emissoras devem seguir esse exemplo. Hoje, no Brasil, é muito difícil produzir e exibir o seu filme, e o projeto garante as duas coisas: o recurso básico para a produção e a exibição na rede de tvs públicas. O Doc tv é um projeto da Secretaria do Audiovisual ligado ao Ministério da Cultura, em parceria com a Fundação Padre Anchieta, que é a TV Cultura, e com as TVs Públicas de cada estado. E como acontece? Assim: depois que o Doc tv monta um edital e uma banca para avaliação dos projetos, abre-se o concurso que é divulgado. Aí, os proponentes, de todas as regiões, têm que escrever um projeto dentro do formato que é dado pela produção do Doc tv. No Doc tv II eu havia participado com dois outros amigos, a gente se reuniu uma semana antes do prazo de entrega e escrevemos um projeto. Claro que não fomos classificados. Já no Doc tv III a gente resolveu fazer uma coisa realmente séria. Convidei um amigo, o pesquisador Marcos Afonso, e a gente começou a pesquisar, a realizar os debates, as discussões, as leituras e fizemos vários encontros durante quatro meses antes da entrega do projeto. Assim conseguimos elaborar um projeto que queríamos, entregamos e tivemos a felicidade de ficarmos classificados em primeiro lugar na primeira etapa. E como é a segunda etapa do Doc Tv? A segunda etapa é aquela que você tem que apresentar uma produtora, e há uma série de normas a seguir para isso, expressas no edital. O excesso de burocracia é um problema. Eu acredito que acima da burocracia deveria estar a vontade de fazer o filme com qualidade, e deveria haver formas de julgar cada situação, cada projeto. O Doc tv III foi em 2006, era ano de campanha política. De acordo com o edital somente duas produtoras estavam habilitadas a participarem do Doc aqui no Acre, e logo as duas maiores produtoras da cidade. Nenhuma delas queria saber do projeto da gente em um ano de campanha política. Não rolou. E eu tenho uma produtora de vídeo, a Cine Interior, e pensei em realizar o filme com essa produtora. Mas o edital exigia dois anos de funcionamento, o que não tínhamos. O estúdio do Edson Caetano, topou fazer o projeto, e a minha produtora entrou como parceira da produtora dele. A proposta do Doc tv é fomentar a produção de audiovisual no país, em todas as regiões, mas como se pode fazer isso sem levar em consideração a realidade de cada estado brasileiro? Deveria haver um edital diferente para cada região, exigências diferentes, ou formas de julgar as necessidades de cada um, estratégias que se adaptassem às condições de cada contexto. Se eu estivesse no Rio de Janeiro teria cem produtoras para escolher que estariam habilitadas a participar do projeto comigo, mesmo num ano de eleição, mas aqui não há muitas. Não é razoável pedir, por exemplo, dois anos de atividade da produtora para ela participar do Projeto num estado como o nosso. E como foi então o processo de produção com a Cine Interior? O filme foi quase todo produzido pela Cine Interior, de fato. A pré-produção, a produção, a finalização foram todas realizadas pela Cine Interior. Somente não foi feita por ela a mixagem do som. E teve uma razão objetiva. Como o Doc tv tem etapas pra liberação do recurso, uma antes de cada fase (pré-produção, produção, finalização e a entrega do material), eu aguardava o depósito da penúltima fase, de finalização, e eles depositaram o dinheiro dois dias antes da data limite para entregar o projeto, a última etapa. Então eu estava muito atrasado, tive que ir para o Rio e finalizar o filme lá, onde conseguia maior agilidade, e na semana de carnaval. Imagine o que é finalizar um filme na semana de carnaval no Rio de Janeiro? Eu cheguei uns dias antes, mas até conseguir os contatos, conseguir realizar a mixagem do filme, foi uma loucura. Graças a amigos de lá, amigos que me levaram a outros amigos, consegui terminar o trabalho a contento. |
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