| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Lá e cá! Nesta ultima sexta-feira um evento extraordinário na Biblioteca da Floresta me fez pensar nas conexões, nem sempre tão evidentes assim, entre passado e futuro e não pude resistir. Sobre o que não consigo evitar Da natureza do novo Por coincidência na sexta-feira a noite teve lugar a inauguração de uma nova exposição naquele espaço. Trata-se de uma exposição, muito provavelmente a primeira a ser realizada no Brasil e no mundo, sobre os índios isolados que ainda existem (resistem) nas florestas das cabeceiras dos rios acreanos, lá onde as fronteiras entre o Brasil, a Bolívia e o Peru não passam de uma abstração que só existe nos nossos mapas... E enquanto esperava a abertura da exposição, entre os muitos amigos e amigas que lá estavam, tive uma oportunidade que aguardava já há algum tempo: conversar com o Meireles... Uma espécie em extinção
E, diante de tal personagem, o máximo que consegui foi lhe revelar minha admiração por seu trabalho e meu desejo de um dia poder ouvi-lo contar suas histórias com aquele jeito manso e empolgante que só os melhores contadores de histórias sabem ter... Quem sabe um dia a Rainha da Floresta permita que eu também possa subir até as cabeceiras dos rios... Quem sabe possa conhecer a fronteira entre os mundos e lá ouvir novas/velhas histórias... quem sabe... Lá no fundo e cá na beira... Apenas vale ressaltar que essa exposição abre diante de nós um mundo que a grande maioria não sabe sequer que existe... e ninguém sabe por quanto tempo... mas existe... ainda... Além disso, logo depois de visitar a exposição fomos pro auditório da biblioteca ouvir o Meireles contar sobre os isolados através das fotos que recentemente divulgou pela imprensa e que provaram para todo o mundo aquilo que ele estava cansado de saber... Os isolados, arredios, brabos, ou como quer que lhe chamemos, existem sim!!! Falo assim, com muitas exclamações, porque é muito fácil desconfiar que esse papo de povos indígenas, ainda na pré-história da humanidade, vivendo isolados dentro da floresta, é papo de ambientalista que só quer preservar a floresta, ou de sertanista (ainda que um dos últimos) querendo demarcar novas áreas indígenas. Especialmente para aqueles que acham que a única floresta boa é aquela que deu lugar à plantação de soja, isso tudo pode soar como uma ficção desinteressante cuja única utilidade é barrar o avanço do “progresso”. E mais, através da boa prosa de Meireles, tomamos conhecimento que os isolados são muitos e diversos. Pelo menos quatro povos distintos que tem se recuperado populacionalmente nos últimos anos. Apesar do avanço contínuo dos madeireiros e petroleiros peruanos que tem entrado cada vez mais nas terras firmes das cabeceiras, devastando a floresta deles e ameaçando, não só essas populações indígenas originais, mas também as nossas florestas e rios. Ou alguém é capaz de supor que os rios Acre, Purus, Tarauacá, Envira, Juruá, etc. etc. etc. possam resistir se tiverem suas nascentes devastadas? O mesmo deve ser compreendido em se tratando das populações indígenas “isoladas”. Devemos finalmente entender que elas são indicadores seguros da qualidade dos ecossistemas que ocupam. Ou seja, enquanto existirem essas populações perambulando, como fazem a milhares de anos, nas terras firmes das cabeceiras entre o Brasil, a Bolívia e o Peru, saberemos que essas florestas ainda estão saudáveis possibilitando que nossos rios também continuem saudáveis. Mas no momento que eles deixarem de existir, o que será de nós...???!!! Por isso, sem nenhum romantismo de historiador, saudosismo de arqueólogo ou qualquer apego às antigas utopias que guiaram os sentimentos e passos da minha geração, não posso me furtar de uma obvia conclusão: nós dependemos desses povos indígenas que sequer sabem da nossa existência. Enquanto eles lá estiverem (no fundo da floresta ainda intocada vivendo de acordo com seu passado milenar), nós cá estaremos (à beira da floresta e à margem do mundo civilizado, reféns do que o futuro nos reserva)... Será bastante a consciência??? Pelo sim e pelo não, visitem a nova exposição da Biblioteca da Floresta. Vale a pena...
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