MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 

Lá e cá!

Nesta ultima sexta-feira um evento extraordinário na Biblioteca da Floresta me fez pensar nas conexões, nem sempre tão evidentes assim, entre passado e futuro e não pude resistir.

Sobre o que não consigo evitar
Logo de início devo pedir desculpa ao leitor, pois esta coluna estava em meio a uma longa série de artigos sobre arqueologia acreana quando a interrompi momentaneamente para tratar do centenário da morte de Plácido de Castro. Hoje, mais uma vez peço licença ao leitor para também interromper a série de artigos sobre o comandante da Revolução Acreana, para escrever sobre o que vi na Biblioteca da Floresta na noite de sexta-feira, prometendo que na próxima semana retomo o tema Plácido de Castro e no mês de setembro volto com a série sobre a arqueologia...

Da natureza do novo
Nesta semana estava conversando com Toinho Alves e falávamos sobre uma das mais interessantes experiências que estão em curso nesse Acre, às vezes tão surpreendente. Trata-se do incomum trabalho que vem sendo desenvolvido na Biblioteca da Floresta através de pessoas como Edgard de Deus, Élson Martins, Marcos Afonso, Txai Terri, Fátima, Nilda, Maurício e muitos outros mais. Talvez seja o que de mais novo esteja acontecendo por aqui, nesta pequena aldeia das margens do velho e sofrido Aquiri...

Por coincidência na sexta-feira a noite teve lugar a inauguração de uma nova exposição naquele espaço. Trata-se de uma exposição, muito provavelmente a primeira a ser realizada no Brasil e no mundo, sobre os índios isolados que ainda existem (resistem) nas florestas das cabeceiras dos rios acreanos, lá onde as fronteiras entre o Brasil, a Bolívia e o Peru não passam de uma abstração que só existe nos nossos mapas...

E enquanto esperava a abertura da exposição, entre os muitos amigos e amigas que lá estavam, tive uma oportunidade que aguardava já há algum tempo: conversar com o Meireles...

Uma espécie em extinção
Na verdade foi uma conversa breve, como normalmente são as conversas nessas ocasiões, apenas o suficiente para reafirmar as impressões que tinha formado sobre um dos mais importantes personagens da história recente do Acre. Afinal de contas, às vezes a gente não se dá conta da passagem do tempo e das transições entre os tempos de nossa existência, e eu estava diante de um dos últimos representantes de um tipo de homens que está em acelerado processo de extinção...


Estou me referindo aos sertanistas/indigenistas que desbravam esse imenso Brasil desde o início do século XX sob um paradigma radicalmente distinto dos conquistadores do velho mundo. Enquanto estes últimos apenas buscavam as riquezas ocultas de um continente desconhecido, passando por cima - a ferro, fogo e varíola (parafraseando um dos melhores painéis da exposição da Biblioteca) - de quantos povos se colocassem em seus caminhos. Aqueles, os sertanistas brasileiros do século XX, engendraram uma nova filosofia que resumia seus objetivos e seus sonhos: “morrer se preciso for, matar jamais”. E adentraram os nossos sertões interiores em busca de conhecimento e um novo tipo de contato com os (ainda) diversos povos indígenas que sobreviveram ao holocausto latino-americano dos últimos 500 anos...

E, diante de tal personagem, o máximo que consegui foi lhe revelar minha admiração por seu trabalho e meu desejo de um dia poder ouvi-lo contar suas histórias com aquele jeito manso e empolgante que só os melhores contadores de histórias sabem ter...

Quem sabe um dia a Rainha da Floresta permita que eu também possa subir até as cabeceiras dos rios... Quem sabe possa conhecer a fronteira entre os mundos e lá ouvir novas/velhas histórias... quem sabe...

Lá no fundo e cá na beira...
Depois da breve conversa, para mim tão especial, com Meireles foi a vez de visitar a nova exposição da Biblioteca da Floresta, sobre a qual não vou escrever muito porque o Élson vai traze-la para os jornais e as pessoas devem mesmo ir até lá para vê-la...

Apenas vale ressaltar que essa exposição abre diante de nós um mundo que a grande maioria não sabe sequer que existe... e ninguém sabe por quanto tempo... mas existe... ainda...

Além disso, logo depois de visitar a exposição fomos pro auditório da biblioteca ouvir o Meireles contar sobre os isolados através das fotos que recentemente divulgou pela imprensa e que provaram para todo o mundo aquilo que ele estava cansado de saber... Os isolados, arredios, brabos, ou como quer que lhe chamemos, existem sim!!!

Falo assim, com muitas exclamações, porque é muito fácil desconfiar que esse papo de povos indígenas, ainda na pré-história da humanidade, vivendo isolados dentro da floresta, é papo de ambientalista que só quer preservar a floresta, ou de sertanista (ainda que um dos últimos) querendo demarcar novas áreas indígenas. Especialmente para aqueles que acham que a única floresta boa é aquela que deu lugar à plantação de soja, isso tudo pode soar como uma ficção desinteressante cuja única utilidade é barrar o avanço do “progresso”.

E mais, através da boa prosa de Meireles, tomamos conhecimento que os isolados são muitos e diversos. Pelo menos quatro povos distintos que tem se recuperado populacionalmente nos últimos anos. Apesar do avanço contínuo dos madeireiros e petroleiros peruanos que tem entrado cada vez mais nas terras firmes das cabeceiras, devastando a floresta deles e ameaçando, não só essas populações indígenas originais, mas também as nossas florestas e rios.

Ou alguém é capaz de supor que os rios Acre, Purus, Tarauacá, Envira, Juruá, etc. etc. etc. possam resistir se tiverem suas nascentes devastadas?
Neste ponto não consigo deixar de fazer uma correlação entre a presença desses povos indígenas “isolados” e certas técnicas de pesquisa empregadas pela biologia. Quando os biólogos querem avaliar o impacto ambiental sofrido por certas regiões se utilizam da presença de determinadas espécies vegetais e/ou animais que só ocorrem num ecossistema quando este ainda está saudável. Ou seja, quando um ecossistema está doente, ou irremediavelmente comprometido, é a ausência destas espécies o primeiro fator a ser diagnosticado e se constitui em um seguro indicador do início do fim...

O mesmo deve ser compreendido em se tratando das populações indígenas “isoladas”. Devemos finalmente entender que elas são indicadores seguros da qualidade dos ecossistemas que ocupam. Ou seja, enquanto existirem essas populações perambulando, como fazem a milhares de anos, nas terras firmes das cabeceiras entre o Brasil, a Bolívia e o Peru, saberemos que essas florestas ainda estão saudáveis possibilitando que nossos rios também continuem saudáveis. Mas no momento que eles deixarem de existir, o que será de nós...???!!!

Por isso, sem nenhum romantismo de historiador, saudosismo de arqueólogo ou qualquer apego às antigas utopias que guiaram os sentimentos e passos da minha geração, não posso me furtar de uma obvia conclusão: nós dependemos desses povos indígenas que sequer sabem da nossa existência. Enquanto eles lá estiverem (no fundo da floresta ainda intocada vivendo de acordo com seu passado milenar), nós cá estaremos (à beira da floresta e à margem do mundo civilizado, reféns do que o futuro nos reserva)...

Será bastante a consciência??? Pelo sim e pelo não, visitem a nova exposição da Biblioteca da Floresta. Vale a pena...

 

 

 
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Rio Branco-AC, 17 de agosto de 2008
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