Ofim de tarde dissolvia-se em calor quando recebemos em nossa casa o amigo Carioca, o Francisco Nepomuceno (que leva esse nome por ter nascido no Seringal Guanabara, no verdejante Vale do Iaco).
Eu estava com a cabeça pesada de tanto preparar aulas de uma Oficina de Filosofia que estou ministrando aos alunos do Instituto São José e Imaculada Conceição. Então, conversar com o Carioca seria muito bom, e foi. O papo fluiu agradável, com altos de seriedade e descontração.
As pessoas se enganam com o Carioca.
Acham-no um articulista frio, irônico e calculista. É meia verdade.
Participante direto de todas as engenharias políticas da esquerda acreana nos últimos 20 anos, o Carioca temperou-se. E soube blindar-se, possuindo uma autonomia de pensamento rara nesse mundo nem sempre arejado de autenticidade.
É muito bom conversar com ele. Pela erudição, pela visão apurada, mas também pelas tiradas cáusticas, sentenças absolutas e sínteses hilariantes, que vai armazenando numa biografia que não começou agora.
Para muitos, Carioca é o modelo (no bom sentido) do pragmatismo, da resolutividade, dos lances de xadrez.
Mas, no fundo, é um gozador, um bom camarada, solidário e sensível.
Professor da UFAC, é daqueles que estuda muito (lê dois livros ao mesmo tempo), tem cultura, assiste bons filmes, toma umas cervejinhas com a sua Raquel, e ainda bate uma pelada pelos sábados.
E conseguiu impedir que uma das maiores tragédias da nossa geração se instalasse na sua vida: o sentimento da desilusão, da apostasia vulgar, do desencanto.
Carioca ainda arranja tempo para se ocupar com a ideologia, com o futuro. “O horizonte que vejo para além do pára-brisa, se confrontado com o retrovisor, é muito maior, muito mais importante, se comparado ao que fizemos até agora”, afirma em alusão às responsabilidades das futuras gerações com a Democracia, a consciência política progressista e o ideário socialista.
E ainda se preocupa com os pensamentos, porque teve uma escola poderosa, a nossa escola: o movimento estudantil.
Eu o conheço desde 1975, quando ele se destacava como um dos “matemáticos” da sala e o melhor aluno de Inglês (lembro que foi ele que traduziu para mim "Wish you were here", canção que é um dos emblemas do Pink Floyd). Depois, ele se tornou um dos grandes jogadores da história do futebol (no Juventus, era o terror do meu Atlético Acreano), entrou para a UFAC e foi seduzido pelo curso de História, o mais subversivo de todos na luta contra a Ditadura, e mergulhou na militância, cerrando fileiras no clandestino Partido Revolucionário Comunista – o PRC (que operava dentro do PT).
Lembro do Carioca nos corredores incandescentes e revoltados da UFAC, principalmente quando ele começou a se destacar como liderança, ao lado do Binho, da Marina Silva, Patrycia, Herbert, Cacá, Monteiro, Júlia, Elione e outros quadros, todos do PRC.
Eu estava “do outro lado”, no também clandestino Partido Comunista do Brasil – o PC do B. 

Nessa época, início dos anos oitenta (século passado, meu Deus!), a sociedade brasileira se erguia em favor das liberdades democráticas, na luta pela anistia, reforma agrária, pelo direito de votar para Presidente da República). E a esquerda, naturalmente, travava uma luta entre si pela hegemonia na condução e influência política desses processos. A luta interna entre a esquerda se dava, ora fratricida e sectária, ora – mais raramente – unitária em alguns pontos comuns, objetivos gerais.
Aqui no Acre, fervilhava o movimento.
Os sindicatos de trabalhadores rurais estavam sendo criados, as comunidades eclesiais (com base na Teologia da Libertação) da igreja católica se instalavam nos bairros, o PT foi criado, o movimento estudantil secundarista lutava pelos grêmios e a meia-passagem nos ônibus (Sim! Essa foi uma vitória obtida por nós em 1979!). O teatro, cinema, artes plásticas, literatura, festivais, tudo conspirava em favor das liberdades.
E a UFAC era um espaço estratégico.
O Diretório Central dos Estudantes - DCE ganhava uma importância maior, por conta da reconstrução (na coragem, desafiando a Ditadura) da União Nacional dos Estudantes – a UNE. Dirigi-lo significava espraiar as bandeiras nacionais na juventude universitária, nos potenciais formadores de opinião.
As lideranças do curso de História (óbvio) deram o ponta pé inicial para o surgimento dos Centros Acadêmicos (CAs) e fizeram a primeira greve na UFAC, em solidariedade a professores demitidos pela reitoria (que rezava piamente na cartilha do regime militar). Aí, vieram os CAs de Pedagogia, Direito, Economia, Biologia, Heveicultura… e a direção deles era disputada ferrenhamente entre os militantes da esquerda.

Basicamente, três “tendências” estavam organizadas: Viração (PC do B), Caminhando (PRC) e Liberdade e Luta (Toinho Alves, Antonio Manuel, e acho que a Naluh Gouveia, afinados com o pensamento de Leon Trotsky). A “tendência” era a forma utilizada para que esses partidos influenciassem “legalmente” os estudantes, de maneira “sub-reptícia”, para usar um termo que o Carioca gosta.
Em 1983, eu ganhei a eleição do DCE pela Viração, derrotando a Caminhando, liderada pela Marina Silva (até hoje eu brinco com ela: “ao menos uma vez eu ganhei de ti…”). No ano seguinte, concorri à reeleição com a chapa “Coração de Estudante” (um erro estratégico naquele ambiente de radicais e permanentes mutações). Perdi para a chapa “Aroeira”, com Ademir, Patrycia, Gláucio e… isso mesmo: o Carioca!
Assim, em 1984, o PRC passou a liderar o movimento estudantil na UFAC. E foi no DCE que o Carioca começou a despontar.
De ultra-super-tímido, passou a falar em assembléias de estudantes, professores e funcionários, trocando a prática profissional do futebol pela arte do discurso. Não parou mais.
E naquele final de tarde quente, relembrando o início de tudo, tivemos a alegria de constatar que fazemos parte de uma geração vitoriosa.
Mesmo com nossas deficiências e limitações estamos tendo capacidade de resposta para os desafios apresentados. Permanecemos ganhando o campeonato com grandes atletas e com uma torcida cada vez maior.
E o Carioca continua jogando duro, mas com arte. Ataca decidido e sabe defender os amigos como se fosse o último zagueiro. É por isso que até os adversários o respeitam.
Ele tem um princípio interessante: mesmo sendo Assessor Especial do Governador, e assumindo cargos importantes nos últimos anos, procura viver como se sua renda fosse somente a do seu trabalho original, o de professor.
Isso se chama ética.
Só tem um defeito: quase nunca atende o celular… Aí fica difícil marcar outro bom papo, em outra tarde quente desse agosto ou setembro.