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| ALMANACRE | |
| Elson Martins | |
Seu Raimundo e o boi Rochedo |
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Eu me encontrava há duas semanas na cidade de Goiânia, com o olho esquerdo tapado com gases, esparadrapo e ainda uma pequena concha de mica após uma operação de catarata. Acamado, de papo pra cima e sem poder ler, me danei a pensar. Os primeiros almanaques de minha vida foram o Almanaque Capivarol e o Biotônico Fontoura que subiam os rios como parte do aviamento dos seringalistas, ou através dos espertos regatões que adquiriam a borracha, às escondidas, trocando-a por cortes de chita e medicamentos. É difícil encontrar um acreano da antiga que nunca tomou esses remédios miraculosos. As publicações que acompanhavam os frascos eram muito atraentes: continham piadas, palavras cruzadas, simpatias, receitas diversas, informações históricas do mundo inteiro e curiosidades...Tudo arrumadinho em poucas e pequenas páginas, com ilustração a bico de pena. Era pra ler e reler, passar de mão em mão e guardar em algum baú velho da casa. Os almanaques começaram a circular no final do século 19, e em meados do século 20 já nomeavam revistas em quadrinhos (sobretudo as edições especiais). Eles chegaram ao século 21 no formato de livros grossos ilustrados, mas sofisticados e chatos,. São encontrados nas livrarias, entre outros, o Almanaque da Abril (editora) dos anos 80, dos anos 90 etc. De qualquer modo, para esta página e com a variação para Almanacre o nome me serve como uma luva ajustada. Pode-se ler: “alma no Acre”. É o que pretendo passar aos leitores em textos sem pressa, não competitivos, não polêmicos (pelo menos, não intencionalmente); digamos, em textos mais chegados à memória e aos registros simples do cotidiano desta praia amazônica. Dou um exemplo do jornalismo que, aos 67 anos, ainda me sinto com tesão para produzir. Eu andava catando alguém que me fornecesse umas sacas de estrume para melhorar a vida das plantinhas que cultivo no quintal. Que coisa difícil é encontrar um estrume dos bons: de bosta de boi misturada com terra preta, “paú” e serragem! Com a ajuda de um jovem que limpou meu quintal, recentemente, localizei seu Raimundo Dionizio da Silva, ex-seringueiro, ex-colono que agora vende estrume com a ajuda do boi Rochedo atrelado a uma velha carroça. Ele me trouxe uma boa carga de estrume dos bons. Enquanto a descarregava, seu Raimundo me passou preciosas informações sobre a floresta que conhece bem. Falou de bichos, insetos, ervas...Disse que mora no bairro Wanderley Dantas e, ao se despedir, deu uma notícia que me surpreendeu: vai vender o boi porque, com a pavimentação das ruas de Rio Branco pelo prefeito Angelim, seja com asfalto ou tijolos, o Rochedo começou a patinhar. Caramba! Quando voltei de Goiânia, encontrei a rua da Saudade - onde moro nas proximidades do Clube Juventus - limpa e asfaltada, um luxo para uma viela que há 30 anos não via uma maquina da Prefeitura passar por lá. Fiquei contente, claro, mas logo lembrei de seu Raimundo e do boi Rochedo. Acho que vou ficar sem o estrume! Foi show mesmo Quinta-feira à noite o Abrahim Farhat adentrou o Teatrão, sentou numa poltrona ao lado da Júlia Feitoza e comentou, surpreso: - Ué! Eu pensei que tava acontecendo algum show!
Entretanto, quem se encontrava no palco era o jornalista Ricardo Kotscho, ex-assessor de imprensa do Presidente Lula convidado pelo projeto Sempre um Papo para falar de seus 40 anos de profissão e do livro “Do Golpe ao Planalto”, recém-lançado pela Companhia das Letras. Na platéia que lotou o teatro tinha muitos jovens, a maioria estudantes de jornalismo e filosofia. Dava para sentir uma temperatura política com forte identidade acreana. Afinal, estamos à beira das eleições com o futuro do Acre em jogo. Mas a estrela vermelha sobe. Kotscho leu um texto introduzindo o debate sobre imprensa, mercado e condições de trabalho, ou sobre como fazer jornalismo atraente nestes tempos de excesso de informação e pressa, muita pressa, somadas ao individualismo e falta de compromisso com o coletivo. O Abrahim não teve paciência e saiu, provavelmente, à procura de outro show. Mas a grande platéia permaneceu até o fim, atenta às lições do mestre. O jornalismo perdeu qualidade nos últimos anos e a grande mídia brasileira, como Kotscho enfatizou, está distante do povo, não sabe mais o que este pensa ou quer. Por isso, enquanto desce o pau no Lula, este cresce nas pesquisas eleitorais. Quer dizer: a sociedade encontra formas alternativas de se informar escapando das armadilhas montadas por jornalistas e políticos pactuados com a utilização ilícita de verbas públicas. Na verdade, procura livrar-se de muita gente poderosa que coloca o país em má situação. Quanto ao papel dos jornalistas – de essencialmente contribuir para melhorar a sociedade - não está mais difícil de exercer agora do que antes – disse o palestrante. A desculpa de que o governo censura a imprensa, ou de que o dono do jornal não oferece condições de trabalho, entre outras, parece mais falta de tesão de quem escolheu a profissão errada. Entretanto, as novas gerações tecnicamente bem formadas encontrarão mais cedo ou mais tarde uma forma de fazer jornalismo atraente e compromissado. Mas terão de largar o individualismo e saber escolher boas pautas. Ou seja: “suar a camisa”, ocorrência inevitável na profissão. Histórias do nosso Brasil Sentença condenatória de Sergipe, de 1833, que condenou o cabra à capadura: “O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante.Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufragio do sucesso faz prova. CONSIDERO: QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer; conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;QUE Manoel Duda é um sujetio perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens. CONDENO o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa. Nomeio carrasco o carcereiro. (E-mail repassado pelo dr. Roraima Moreira, ex-Chefe da extinta Sucam – Superintendência de Campanhas contra a Malária no Acre) |
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