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Apelo ao governo

 


Não é fácil para Bolo chegar a Cobija. Ele mora a 12 quilômetros mata dentro, a partir do Seringal San Vicente, na margem boliviana do Rio Acre. Depois da caminhada, cruza o rio de canoa, viaja 24 quilômetros dentro do ramal Porto Carlos até chegar à BR-317. São mais 67 quilômetros no asfalto.

Bolo não consegue se imaginar fora das terras na Bolívia. O pouco que conseguiu nesses anos todos está ali, apesar de a terra não ser registrada em seu nome. “O governo tem que tomar providência. Não dá para começar tudo de novo no Brasil”, pede sem especificar qual o governo deve agir.

Na forma simplista de ver as coisas, Bolo propõe que os governos do Brasil e da Bolívia trabalhem em conjunto para resolver as questões inerentes às suas situações. A principal, diz, é a exploração do patrão, que impõe o preço na lata da castanha sem levar em conta o esforço empreendido pelos trabalhadores na extração do produto.

“O patrão compra a lata por quatro reais e vende por quase vinte reais. Se reclamarmos, ele diz que põe outro no lugar”, destaca.

Explorado na comercialização da castanha, Bolo, junto com a esposa, Jovelina Rodrigues Cavalcante, revela que pretende investir em outra atividade: a extração do látex da seringueira. “Temos quinze estradas de seringa. Acho que vamos voltar a cortar porque o preço está bom no Brasil e o patrão não se importa muito com esse assunto”, afirma.

Embora as informações que tenha sejam poucas, Bolo defende que o governo da Bolívia adote medidas para preservar o meio ambiente. Segundo ele, não é possível tolerar que grandes madeireiros e fazendeiros desmatem enormes áreas, sem levar em consideração quem vive do extrativismo. “Na minha área, não deixo ninguém derrubar castanheira e seringueira. Elas são a garantia da nossa sobrevivência”.

Regiclay Saady
Crianças aprendem desde cedo a tratar os animais caçados na floresta

Meninos e meninas

As crianças que moram nos seringais bolivianos nem sabem quais são suas nacionalidades. A maioria nasceu na Bolívia, mas foi registrada no Brasil. São quase sempre fechadas e não respondem olhando nos olhos dos seus interlocutores.

Os meninos e meninas aprendem desde cedo à explorar com racionalidades as coisas que a natureza lhes dá. São obrigados a trabalhar para ajudar os pais a manter a casa.

Com apenas 11 anos, Gilmar parou os estudos, ajuda o pai e a mãe nas tarefas domésticas e no roçado. Também gosta de caçar. Acompanha os adultos nas caçadas e sabe atirar. Perguntado se sabe ler e escrever, responde: “Um pouco”.

É dividindo as tarefas domésticas com as escolares que a maioria das crianças sobrevive. Muitas andam vários quilômetros dentro da mata. É o caso do Gerson, 8, que precisa andar 24 quilômetros para chegar à pequena escola municipal Mizael Abrahão Saady, à margem brasileira do rio Acre, para estudar.

Como não tem condições nem resistência para ir e vir diariamente, o menino passa a semana longe dos pais. Fica na casa de um amigo da família, próximo à escola. Tem que trabalhar para pagar a moradia.

É numa única sala que a professora Darcizete Freitas do Nascimento, 24, ensina 32 alunos, em dois turnos. Pela manhã, estudam crianças da 1ª à 4ª série. À tarde, em forma de telecurso, é a vez das turmas de 5ª à 8ª.

“É preciso muito treinamento para dar conta”, revela a professora, que está há dois anos na localidade por meio de contrato provisório com a prefeitura de Brasiléia.

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Rio Branco-AC, 17 de setembro de 2006
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