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Seringal é herança da família Farah

Regiclay Saady
Farah herdou o seringal da família e vive momentos de incerteza


Erguido com madeira de lei na margem boliviana do Rio Acre, o velho barracão do Seringal San Vicente guarda traços da imponência dos tempos áureos da extração da borracha e da castanha. Na fachada, um velho sino ainda é tocado para chamar os trabalhadores para almoçar.

Era no barracão que morava a família Farah. Foi construído pelo seringalista sírio Alexandre Farah, há quase cem anos. Nesse período, a propriedade vem passando para descendentes. Hoje é administrada por Farah Selim Farah, 37.

Sem ter informações precisas da maneira como a reforma agrária será implantada, Farah acredita que o governo boliviano poderá requerer a propriedade. Para evitar que isso ocorra, garante que irá legalizar toda a área, que já foi de 62 mil hectares e hoje está reduzida a 17 mil hectares.

“O governo desapropriou 25 mil hectares para terras indígenas e outro tanto para ser doado para outras comunidades. Tudo sem termos direito à indenização”, reclama.

Por ter perdido 45 mil hectares, Farah não desconsidera a possibilidade de ser desapropriado. Com ele, também serão prejudicados os sete posseiros que estão nas suas colocações. “Esse presidente Evo Morales deve ser revoltado para querer brigar com seus vizinhos. Sou favorável que ele cobre os impostos. Já pagamos dos planos de manejo”, diz.

À frente dos negócios da família desde 1990, Farah mantém uma relação de amor e ódio com os moradores da sua propriedade. É criticado por impor o preço da castanha e não deixar que os posseiros negociem com preços mais vantajosos com outros comerciantes.

Os posseiros dizem que Farah é bom de conversa, se envolve com os problemas dos pobres, mas muda completamente quando trata de negócios. “Quando a gente reclama do preço que ele quer pagar na castanha, ele diz que se a gente não quiser da forma dele, ele põe outro no lugar”, reclama um posseiro que pediu para não se identificado.

O seringalista revela que a propriedade tinha uma grande dimensão porque seu avô, Miguel Farah, foi combatente na Guerra do Chaco e recebeu como prêmio terra.

A Guerra do Chaco foi travada entre a Bolívia e o Paraguai. Foi a maior e a mais sangrenta guerra do Hemisfério Ocidental, no século vinte. Durante três anos, de 1932 a 1935, os dois países envolveram-se em uma guerra selvagem pelo Chaco, um deserto inóspito situado no coração da América do Sul. Os bolivianos perderam e tiveram 60 mil baixas contra 30 mil baixas paraguaias.

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Rio Branco-AC, 17 de setembro de 2006
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