| OPINIÃO | ||
| UM OLHAR FILOSÓFICO | ||
Paulo Pinheiro da Silva |
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Sedução do samba O que nos seduz no samba? Talvez alguma coisa em nós se sinta repentinamente espelhada e refletida na hesitação da ginga, no inesperado da dança, na malícia do verso, na indefinição entre alegria e tristeza, entre choro e riso, entre miséria e opulência, entre prazer e dor. Não existe um único modelo do que seja samba e muitas são as manifestações ligadas a ele (samba de roda do recôncavo baiano, samba rural de Pirapora, desfiles de carnaval, rodas de pagode, samba de terreiro, etc), muitas as instrumentações e tessituras da música “classificada” sob aquela rubrica. A cuíca, por exemplo, encerra nas suas características funcionais toda a problemática do samba, pois, umas vezes, ela chora, lamenta e imprime uma cadência melancólica a um samba predominantemente percussivo, outras, ela ri, debocha entrando e saindo da música pelas brechas do ritmo, conferindo um aspecto descontínuo, brincalhão, saltitante, outras, por fim, ela apenas acompanha e sustenta o ritmo com seu toque tradicional (três graves e um agudo). Ela enfatiza a proximidade da alegria (riso) com a tristeza (lamento) e mostra que existe sempre algo da alegria na tristeza. Mas a pergunta não é melhor respondida dessa forma, ou seja, o que em tudo isso produz uma sedução tão profunda? Talvez a sua impureza hesitante e violenta, no ritmo, na etnia, no espaço, coloque em movimento afetos (nossos afetos) não expressos de outra forma e assim as nossas dores, as nossas vergonhas, as raivas, ressentimentos e transfigurações próprias de uma sociedade, onde a mestiçagem deve ter um significado positivo, onde a indefinição é tão cotidiana e investida de características definidoras, que dessa forma o samba, por entrar em consonância com tudo isso, cria uma comunhão tão mais sedutora quanto heterogênea é a sua composição. Para compreender como se dá esse processo em que se forma uma sensibilidade musical, por um lado, e em que se constitui uma forma distributiva de execução da música, cujo fio não está em nenhum instrumento, pois todos eles acompanham, mas não reproduzem a música, por outro, seriam necessárias as contribuições de psicólogos, de antropólogos, de historiadores e de filósofos. Mas uma questão atravessa toda a dimensão do problema: saber quando e por que meios surge essa reação afirmativa, esse ocultamento que desvela e trás a tona uma confluência de manifestações que, pouco tempo antes, estavam encerradas na senzala e classificadas genericamente de batuque. Não é nenhuma novidade o fato de que o termo “escola” de samba tenha a intenção de se colocar, com ironia, com orgulho, como a “nossa” escola, onde se aprende samba, em detrimento da escola “deles”, onde se aprende a ler e a trabalhar. Essa posição onde se vê a pressuposição de uma outra escala de valores que confere significância através de outros sentidos e permite a toda uma outra gama de manifestações ganharem relevância (significância), se manifesta de muitas formas nas letras dos sambas: “o meu mestre foi Ceará / me ensino a toca samba/ não me ensino a trabalha”, diz Clementina; “nossos barracos são castelos / em nossa imaginação”, diz Nelson Cavaquinho. Nesse sentido, a música “Tipo zero” de Noel Rosa é bem significativa. Ela fala em segunda pessoa, oscilando entre elogio e ofensa, entre bom e mau humor, se referindo a uma pessoa que chama a atenção e que parece não ser do meio, mas que se confunde parcialmente. Devemos notar que ela se coloca de um ponto de vista onde aqueles valores estão numa semi-visibilidade, pois enquanto Clementina e Nelson cavaquinho falam de uma outra gama de valores, Noel simula estar entre “eles” os que “sabem ler” e que, talvez por isso mesmo, Diz “você é um tipo que não tem tipo / com todo tipo você se parece / por ser um tipo que assimila tanto tipo / passou a ser um tipo que ninguém esquece” e depois, na segunda estrofe, continua “quando você penetra no salão / e se mistura com a multidão / desconfiado todo mundo fica / que o seu tipo não se classifica / você passa a ser um tipo desclassificado”. No ponto de vista em que se coloca, ele só pode ver aquele “tipo” como um não tipo, como algo que às vezes parece se confundir com muitos outros tipos, e que outras vezes assimila e tem realmente algo de todos os outros tipos que ele não é, mas que, apesar da ausência de uma classe cognitivo-conceitual para capturá-lo em conceitos, ele não pode e não é confundido. Mas a ausência de classe, de uma classe própria não é evento de pouca importância, pois do problema teórico da invisibilidade conceitual se passa a um problema moral, social, antropológico, da desqualificação, da desclassificação civilizatória. Num repente o elogio se torna ofensa e a “desclassificação” altera o sentido daquela “desconfiança” teórica em desconfiança social e mesmo policial: toda uma problemática moral de uma sociedade excludente vem a tona. Do ponto de vista que nos interessa, a nós estudantes de filosofia, a cumplicidade entre uma indeterminação e uma inadequação teórica, por um lado, e a desclassificação moral, social e civilizatória, por outro, se reveste de um interesse epistemológico particular. Talvez possamos arriscar que essa imaginação particular, que vemos expressa nas letras de samba e que constrói uma outra gama de valores, tenha a exata dimensão do seu caráter onírico, ou seja, saiba que ela precisa ser superada e objetivada em outros termos. Não mais valores escondidos, mas que possam ser ditos e desenvolvidos em público e em voz alta. Para isso talvez devêssemos trazer essas coisas para a escola e inverter a frase “samba não se aprende na escola”. Quando se fala em cotas, por exemplo, o que está em causa? A introdução dos portadores essenciais daqueles valores, daquelas formas. Nós todos, do Rio Grande do Sul ao Amapá, adoramos o samba e muitas outras manifestações e formas de ser e viver afro-descendentes, mas não seria de supor que existam corpos que possam manifestar com mais força e com maior vigor aquelas intenções, desvelando coisas invisíveis na cultura e na arte, por estarem mais preparados para encarnar aquelas manifestações e, então, devemos encarar as cotas como uma questão estratégica para o nosso desenvolvimento espiritual e até material? Quem sabe? Mas se não for tentado nunca se saberá... |
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Mestre em Filosofia |
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